segunda-feira, 29 de junho de 2009

Permaneço na Igreja

«Permaneço na Igreja, porque acredito que hoje como ontem, na nossa Igreja, vive, intangível, a sua Igreja, porque acho que não posso estar com Ele senão com e na sua Igreja.
Estou na Igreja porque apesar de tudo, penso que ela não é essencialmente nossa Igreja, mas a sua Igreja.
Concretamente, é a Igreja, embora sujeita às imperfeições humanas, que nos dá Jesus Cristo e que só por meio dela podemos acolhê-l’O como uma realidade viva e poderosa, que nos desafia e enche aqui e agora.
Tal como escreveu Henri de Lubac:
"Saberão aqueles que, ainda aceitando Jesus, rejeitam a Igreja, que é a ela que o devem?
Jesus é nossa vida, mas em que areia movediça estaria, não tanto o seu nome e sua recordação, mas a sua influência viva, o efeito do Evangelho e da fé na sua Pessoa divina, sem a continuidade visível da Igreja?
Sem a Igreja, Cristo se desvaneceria, desaparecia, extinguir-se-ia.
E o que seria a Igreja se Cristo lhe seria retirado?

Esta constatação elementar não nos deve deixar.
Independentemente do número das infidelidades que a Igreja tem e pode ter,
como é verdade que ela deve seguir constantemente a Cristo,
e que não há antinomia entre a Igreja e Cristo,
é por meio da Igreja que, para além da distância histórica,
Ele continua vivo, fala, está perto de nós, como Mestre e Senhor.
E, enquanto a Igreja, e só ela, nos dá Jesus Cristo,
e assegura a sua presença viva no mundo,
dando-O na fé e na oração dos homens,
ela dá à humanidade uma luz, um penhor,
um exemplo, sem a qual ela jamais seria concebível.
Quem deseja a presença de Jesus Cristo na humanidade não pode encontra-la contra a Igreja, mas apenas nela.
A fé é eclesial ou não é.»


Cardeal Ratzinger (Bento XVI)




Tu es Petrus, et super hanc Petram aedificabo Ecclesiam meam,
Et portae inferi non praevalebunt adversus eam :
Et tibi dabo claves regni coelorum :
Et quodcumque ligaveris super terram, erit ligatum et in coelis,
Et quodcumque solveris super terram, erit solutum et in coelis.


Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja,
E as portas do inferno não prevalecerão contra ela:
Dar-te-ei as chaves do reino dos céus,
E tudo o que ligares na terra, será ligado nos céus,
E tudo o que será desligado na terra, será desligado nos céus.

Mt 16, 18-19

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Porque um Ano Sacerdotal?

«Na sexta-feira passada, 19 de Junho, Solenidade do Sagrado Coração de Jesus e dia tradicionalmente dedicado à oração pela santificação dos sacerdotes, tive a alegria de inaugurar o Ano Sacerdotal, proclamado por ocasião do 150º aniversário do “nascimento ao Céu” do cura d’Ars, São João Maria Baptista Vianney. (…)
Porque um Ano Sacerdotal?
Porque precisamente na recordação do santo cura d’Ars, que aparentemente não fez nada de extraordinário? (…)

O objectivo deste Ano Sacerdotal, como escrevi na carta enviada aos sacerdotes para esta ocasião, consiste em renovar em cada presbítero a aspiração “à perfeição espiritual, motor de eficácia de seu ministério”, ajudar os sacerdotes e, com eles, todo o Povo de Deus, a redescobrir e revigorar a consciência do extraordinário e indispensável dom da Graça que o ministério ordenado representa para quem o recebeu, para toda Igreja e para o mundo, que sem a presença real de Cristo, estaria perdido. (…)

“Alter Christus”, o sacerdote está profundamente unido ao Verbo do Pai, que ao encarnar-se, tomou a forma de servo, fez-se servo.
O sacerdote é servo de Cristo, no sentido de que a sua existência, configurada ontologicamente com Cristo, assume um carácter essencialmente relacional: ele está em Cristo, para Cristo e com Cristo ao serviço dos homens.
Precisamente porque pertence a Cristo, o sacerdote está radicalmente ao serviço do homem: ele é ministro de sua salvação, de sua felicidade, de sua autêntica libertação, amadurecendo, nesta assunção progressiva da vontade de Cristo, na oração, “num coração a coração” com Ele.»



Bento XVI,
Audiência Geral 24/06/2009

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Criado para amar

Ó adorável Coração de Jesus, Coração apaixonado pelos homens, Coração criado especificamente para amar os homens, como é possível encontrar entre os homens, tão pouca correspondência e tanto desprezo?
Ai! Também eu tenho sido um destes ingratos, não soube amar-Vos!
Dai-me a graça de Vos amar.
Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração?
Sim, ó meu Deus, é vossa vontade que eu Vos ame, e é minha vontade amar-Vos.
O que estou eu a dizer?
Quero que o meu coração ame um Deus que me amou tanto.
Ó amor de Jesus, Vós sois o meu amor.
Ó Coração ardente de Jesus, abrasai também o meu coração.
Não permitais que eu viva, ainda que fosse um instante, privado do vosso amor!
O vosso sangue, derramado por mim, me dá a esperança de que eu Vos amarei sempre, que me amareis sempre, e que esse amor entre nós será sempre indissolúvel.
Ó Maria, Mãe do belo amor, que desejais tanto que o vosso Jesus seja amado; prendei-me intimamente ao vosso Filho, tão intimamente que não tenha mais a infelicidade de me separar d’ Ele.

da Novena ao Sagrado Coração de Jesus,
de S. Afonso de Ligório



Eu Vos amo, ó meu Deus, e o meu único desejo é amar-Vos até ao último suspiro da minha vida.
Eu Vos amo, ó Deus infinitamente amável, e preferiria morrer amando-Vos, do que viver um só instante sem Vos amar.
Eu Vos amo, ó meu Deus, e não desejo o céu senão para ter a felicidade de Vos amar perfeitamente.
Eu Vos amo, ó meu Deus, e temo o inferno porque nunca haverá lá a doce consolação de Vos amar.
Ó meu Deus, se a minha língua não pode dizer a toda a hora que eu Vos amo, desejo que pelo menos o meu coração Vo-l’O repita tantas vezes quanto eu respiro.
Ah, dai-me a graça de sofrer amando-Vos, de Vos amar sofrendo, e de morrer amando-Vos.
E quanto mais se aproxima o meu fim, mais Vos imploro de aumentar o meu amor e de o aperfeiçoar.
Assim seja.

São João Maria Vianney, o Santo Cura d'Ars

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Jesus escondido

Como não me alegrar com a coincidência das datas…hoje a Igreja celebra a Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, e também hoje, o pastorinho Francisco Marto, a quem Nossa Senhora apareceu em 1917, faz anos!
E escrevo “faz” e não “faria”…porque “para os que crêem em Vós, Senhor, a vida não acaba, apenas se transforma, e desfeita a morada deste exílio terrestre, adquirimos no céu uma habitação eterna.” (da Liturgia)
“Jesus escondido”…era a expressão com que os Pastorinhos designavam o Santíssimo Sacramento da Eucaristia: o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Cristo.
Francisco gostava de passar horas esquecidas junto do Sacrário em colóquio com Jesus.
Quando, com a sua prima Lúcia, se dirigia para a escola recomendava-lhe:
«Olha, tu, vai à escola. Eu fico aqui na Igreja, junto de Jesus escondido. Não me vale a pena aprender a ler; daqui a pouco vou para o Céu. Quando voltares, vem por cá chamar-me.» E no regresso, ali o encontrava em recolhida oração.
Doente, o pequeno Francisco dizia à Lúcia:
«Olha, vai à Igreja e dá muitas saudades minhas a Jesus escondido. Do que tenho mais pena é de não poder já ir a estar uns bocados com Jesus escondido.»
Com que ansiedade o Francisco esperou o momento da sua primeira comunhão.
Acamado e gravemente debilitado, tentou erguer-se para se sentar na cama, mas não conseguiu. Momentos depois, o Senhor Sacramentado descia à sua alma, e o Francisco quedou-se em contemplação a consolar o divino Hóspede.
Depois de comungar, disse para sua irmãzinha Jacinta:
«Hoje sou mais feliz do que tu, porque tenho dentro do meu peito a Jesus escondido!»
Esta comunhão com Deus, já o Francisco a tinha experimentado em 1916, nas aparições do Anjo que lhe dera a beber do Sangue do cálice que trazia.
«- A mim e à Jacinta, que foi que Ele nos deu?
- Foi também a Sagrada Comunhão, respondeu Jacinta.
- Eu sentia que Deus estava em mim, mas não sabia como era! respondeu Francisco.
E prostrando-se por terra, permaneceu por largo tempo, com a sua irmã, repetindo a oração do Anjo: “Santíssima Trindade…”»
Saibamos todos olhar para o pequeno Francisco de Fátima…grande apaixonado e consolador de Jesus escondido…e imitemo-lo!

domingo, 7 de junho de 2009

Eis a nossa morada donde nunca devemos sair

«Parece-me que encontrei o meu Céu na terra, porque o Céu é Deus, e Deus é a minha alma.»

«Deixo-te a minha devoção pelos Três, pelo “Amor”.
Vive, no interior, com Eles no céu da tua alma; o Pai te cobrirá com a sua sombra, colocando como que uma nuvem entre ti e as coisas terrenas para te guardar toda sua, Ele há-de comunicar-te o poder para que o ames com um amor forte como a morte; o Verbo há-de se imprimir na tua alma, como num cristal, a imagem da sua própria beleza, para que sejas pura da pureza dele, luminosa, da sua luz; o Espírito Santo virá transformar-te numa lira misteriosa que, no silêncio, sob o toque divino, há-de produzir um magnífico cântico ao Amor; então serás “o louvor da sua glória”, o que eu tinha sonhado ser na terra.
És tu quem me substituirás; eu, eu serei “Laudem gloriae” perante o trono do Cordeiro, e tu “Laudem gloriae” no centro da tua alma.»

«A Trindade, eis a nossa morada, o nosso “lar”, a casa paterna donde nunca devemos sair.»


Beata Isabel da Trindade,
Obras completas

domingo, 31 de maio de 2009

Como crianças que procuram a proximidade de seus pais

Com a Solenidade de Pentecostes termina o Tempo Pascal.
O tempo para o encontro com o Ressuscitado não é de uma única época do ano, pois podemos encontrá-l'O todos os dias na Eucaristia, quando adoramos a sua presença viva neste “tão grande sacramento”.
Nós também, como os discípulos de Emaús, reconhecemos o Senhor na “fracção do pão”, pela acção do Espírito Santo nos nossos corações.
Mais se acredita em Jesus, mais o seu Espírito cativa a nossa existência, mais a sua inspiração enche o nosso pensamento, mais o seu amor nos leva a agir.
Sem o Espírito, não se pode fazer nada de sobrenatural, ou mesmo rezar, porque Ele é o único que eleva o nosso espírito e o nosso coração para Deus.




Tudo o que é verdadeiro na vida da Igreja e na vida de cada um, é reduzido à sua acção.
Não há nada que uma alma possa fazer em nome de Jesus, sem a cooperação do Espírito Santo.
Pensa-se muito pouco sobre a necessidade de o Espírito Santo na vida da Igreja e na nossa.
Recordamo-l’O apenas em momentos precisos, mas, na realidade, devíamos invoca-l’O ao longo do dia, como crianças que procuram a proximidade de seus pais para serem fortalecidos da sua força, tranquilizados pela sua presença.
É isso mesmo que a sequência do Pentecostes nos recorda: “Vinde Espírito Santo, vinde Pai dos pobres, vinde luz dos corações!”
Quem são estes pobres senão cada um de nós, rico de si mesmo, mas tão necessitado deste Espírito divino?

domingo, 24 de maio de 2009

Este santo dia luminoso

Hoje, «o nosso Salvador subiu aos céus: vamos, não nos abalemos nesta terra.
Que a nossa alma esteja onde Ele está, e desde já descansaremos.
Subamos de coração com Cristo, aguardando o dia prometido em que o seguiremos também de corpo. Mas deveis saber que nem o orgulho, nem a avareza e a luxúria, sobem com o nosso Médico.
Por isso, se queremos seguir o Médico na sua Ascensão, devemos deixar o fardo dos nossos erros e os nossos pecados…
Subamos com Ele e elevemos os nossos corações, enlaçados ao Senhor.
A Ressurreição do Senhor é a nossa esperança…a Ascensão do Senhor, a nossa glorificação!
Por isso celebremos a Ascensão do Senhor com rectidão, fidelidade, devoção, santidade e piedade, e subamos com Ele, elevando os nossos corações».



S. Agostinho, Sermão sobre a Ascensão






Optátus votis ómnium
Sacrátus illúxit dies,
Quo Christus, mundi spes,
Deus, Conscéndit cælos árduos.

Nunc, Christe, scandens ǽthera
Ad te cor nostrum súbleva,
Tuum Patrísque Spíritum
Emíttens nobis cǽlitus.



Proclamamos de viva voz
este santo dia luminoso,
em que Cristo Deus, esperança do mundo,
se eleva ao mais alto dos céus.

Para Vós, ó Cristo que agora ascendeis,
elevai os nossos corações,
e sobre nós derramai dos céus
o Espírito que é vosso e do Pai.


do Hino de Laudes
Optátus votis ómnium Sacrátus illúxit dies