domingo, 23 de novembro de 2008

Finais de ano

Na nossa vida existe vários “finais de ano”: o ano civil a 31 de Dezembro; para os mais pequenos e jovens, o ano escolar ou da catequese; para os mais crescidos, o ano laboral com as férias de verão…
Celebrar Cristo Rei introduz os cristãos no ritmo de mais um ano: o ano litúrgico.
Cada passagem para um novo ano é ao mesmo tempo um fim, uma conclusão, mas também um tempo onde tudo recomeça.
Neste fim de ano litúrgico, a Igreja celebra a realeza de Cristo, uma realeza que não é deste mundo (cf Jo 18, 33-37), mas que “faz de nós o Reino de Deus” (Ap 1, 5-8). Uma realeza que é serviço, onde, com Cristo, o reino de paz e justiça se constrói no tempo e na história, por meio de cada um dos seus discípulos.



Christus vincit, Christus regnat, Christus impera!

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Misericórdia e justiça

«A misericórdia do Senhor é por isso a substância dos meus méritos.
Sempre os terei enquanto Ele se dignará ter compaixão de mim.
Serão abundantes se as misericórdias são abundantes.
É verdade, sinto a culpa de muitos pecados, mas a graça superabundou onde o pecado abundou (Rom 5, 20).
Se as misericórdias do Senhor são eternas para mim, cantarei eternamente as misericórdias do Senhor.
Celebrarei assim a minha própria justiça?
Não, lembrar-me-ei somente da vossa justiça, Senhor.
Pois a vossa justiça é também a minha, porque tornates-Vos a minha própria justiça.
Terei eu de temer que uma única justiça não seja suficiente para dois?
Ela não é o manto de que o profeta fala, demasiado curto para que dois possam cobrir-se.
A vossa justiça é a justiça eterna.
Que mais extenso existe do que a eternidade?
A vossa justiça que é eterna é tão imensa que ela nos cobrirá largamente aos dois.
Em mim cobrirá os meus muitos pecados, mas cobrirá ela os vossos tesouros, a vossa clemência, as riquezas da vossa bondade, ó Senhor?
Estas riquezas me estão guardadas nas fendas dos rochedos (Cant 2,14).
Grande e imensa é a doçura que elas encerram!
Na verdade elas estão escondidas, mas é àqueles que perecem, pois, porque dar o que é santo aos cães, ou demonstrar-lhes algo de que eles não conhecem o preço?
Mas Deus revelou-as a nós pelo seu Espírito Santo.
Ele fez entrar-nos no seu santuário pelas portas das suas Chagas.
Nelas encontramos a fonte da doçura, imensas graças, e virtudes abundantes.»


São Bernardo,
Sermão sobre o Cântico do Cânticos, 61,5




«Pai Eterno,
eu Vos ofereço as Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo,
para curar as chagas das nossas almas.»

Oração revelada à serva de Deus Maria Marta Chambon

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Vinde, ó bêbados!


«Então Cristo dirá: ‘Vinde vós também! Vinde, ó bêbados! Vinde, ó fracos! Vinde, ó depravados!’
E Ele dirá: ‘Seres infames, sois imagem da besta e trazeis a sua marca. Vinde à mesma, vós também!’
E os sábios dirão, e os prudentes dirão: ‘Senhor, porque os acolhes?’
E Ele dirá: ‘Se Eu os acolho, ó sábios, se Eu os acolho, ó prudentes, é porque nenhum deles se achou digno disso’.
E Ele nos estenderá os braços, e cairemos a seus pés e desataremos a chorar, e compreenderemos tudo, sim, compreenderemos tudo.»

Dostoïevski

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Novíssimos...uma realidade (2ª parte)

O INFERNO
Como perceber o sentido do inferno?
“Não podemos estar em união com Deus se não escolhermos livremente amá-Lo. Mas não podemos amar a Deus se pecarmos gravemente contra Ele, contra o nosso próximo ou contra nós mesmos” (Catecismo nº1033). Por isso, se morremos em pecado mortal, isto é, sem contrição e perseverante na rejeição de Deus, permanecemos livre e voluntariamente separados de Deus para sempre. É esta situação de auto-exclusão voluntária e definitiva de comunhão com Deus que a Igreja chama “inferno”. O inferno respeita a escolha da nossa liberdade.
“A principal pena do inferno consiste na separação eterna de Deus, o único em Quem o homem pode ter a vida e a felicidade para que foi criado e a que aspira” (Catecismo nº1035).
As representações do inferno apelam muito à imaginação, mas no meio destas alegorias, subsiste uma pergunta fundamental: “Quem se condene?” Não nos pertence responder, pois Cristo nos diz: “Não julgueis para não serdes julgados” (Mt 7,2). Deus quer salvar todos os homens, mas não pode se eles não quiserem.

O PURGATÓRIO
Se morrermos na amizade de Deus mas conservando ainda algumas máculas de pecado, precisaremos de purificação. A Igreja chama “purgatório” esta última purificação. O Catecismo de São Pio X ensina: «O purgatório é o sofrimento temporário, que consiste na privação de Deus e noutras penas, que purifica a alma de qualquer pecado para torná-la digna de contemplar a Deus». Na encíclica Spe Salvi, Bento XVI recorda a origem da oração pelas almas do purgatório: «No antigo judaísmo, existe também a ideia de que se possa ajudar, através da oração, os defuntos no seu estado intermédio(cf 2Mac 12,38-45). A prática correspondente foi adoptada pelos cristãos com grande naturalidade e é comum à Igreja oriental e occidental» (48). Por isso, a Igreja fomenta e recomenda o sacrifício eucarístico, a oração, a esmola, as indulgências e as obras de penitência a favor dos defuntos (cf Catecismo 1032).




O CÉU
Se ao longo da nossa vida correspondermos perfeitamente ao amor de Deus, vivendo na sua vontade, seremos acolhidos no céu. Lá, contemplaremos a Deus, na companhia dos anjos e dos santos. Este é «o fim último e a realização das aspirações mais profundas do homem, o estado de felicidade suprema e definitiva» (Catecismo 1024). Este estado de gozo ultrapassa o nosso entendimento e as nossas representações. A Sagrada Escritura descreve o paraíso, o céu, com as imagens das bodas, da casa do Pai, da Jerusalém celeste onde tudo é vida, luz e alegria, mas "os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano jamais imaginou, o que Deus tem preparado para aqueles que o amam" (1Cor 2, 9).

E O LIMBO?
Esta palavra é utilizada para falar do destino das crianças mortas sem receber o Baptismo. Recentemente, a Comissão Teológica Internacional referiu que o limbo permanece uma opinião teológica possível mas que já não é ensinamento comum da Igreja.


«O tempo é o nosso tesouro,
o "dinheiro" para comprarmos a eternidade.»

São Josémaria Escriva

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Novíssimos...uma realidade (1ª parte)

Neste mês de Novembro, a Igreja convida cada um de nós a aprofundar as verdades da fé sobre o fim último e eterno do homem…os novíssimos: morte, juízo particular, céu e inferno.
Tema tabu nas homilias, na catequese ou simplesmente numa conversa entre cristãos, os novíssimos não são nenhuma lenda piedosa, mas uma realidade espiritual que «desde os primeiros tempos (…) influenciou os cristãos até na sua própria vida quotidiana enquanto critério segundo o qual ordenar a vida presente, enquanto apelo à sua consciência e, ao mesmo tempo, enquanto esperança na justiça de Deus» (Bento XVI, Spes Salvi 41).
Mas parece que esta perspectiva fundamental seja relegada para segundo plano, apesar da meditação sobre os novíssimos supor o entendimento do que somos enquanto vivos…

O SER HUMANO E A MORTE
O ser humano é constituído de duas realidades, uma material (corpo), e outra, espiritual (alma).
O Concílio Vaticano II afirma: “O homem, ser uno, composto de corpo e alma, sintetiza em si mesmo, pela sua natureza corporal, os elementos do mundo material, os quais, por meio dele, atingem a sua máxima elevação e louvam livremente o Criador. (…) Ao reconhecer, pois, em si uma alma espiritual e imortal, (…) ele atinge a verdade profunda das coisas” (Gaudium et Spes 14).
A morte é a separação da alma e do corpo. “Parte, ó alma cristã…confio-te ao Criador, para que voltes Àquele que te formou do pó da terra. Que na hora em que a tua alma sair do teu corpo venha ao teu encontro a Virgem Maria, os Anjos e todos os Santos” (Oração de encomendação da alma).
A fé cristã confessa a vida e a subsistência da alma após a morte.
O corpo cai na corrupção, enquanto a alma comparece diante de Deus para ser julgada (Juízo particular).
A alma reunir-se-á ao corpo ressuscitado no dia do Juízo, quando Cristo voltará na sua glória.


O JUIZO PARTICULAR
“Os homens morrem uma só vez, e depois vem o juízo” (Heb 9,27).
Não se deve entender o juízo de Cristo de uma forma legalista e humana…seria um grande contra-senso, e não corresponderia à mensagem evangélica. Na linguagem bíblica, julgar significa conduzir, dirigir, proteger, salvar. A justiça de Deus não é justiça que castiga mas que justifica, faz justiça e salva. Cristo revela que o critério do juízo é o amor ao próximo (Mt 25), que Ele próprio praticou.
A palavra “juízo” não deve assustar-nos. Recordemos que “Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. E a causa da condenação é esta: a luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz porque as suas obras eram más. Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para não serem postas a descoberto a suas obras. Mas quem pratica a verdade, aproxima-se da luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, pois são feitas em Deus” (Jo 3, 17.19-21).
O juízo particular é por isso uma revelação da nossa própria vida à luz divina que no faz totalmente justiça. A alma assume por isso, para sempre, o que ela escolheu durante a sua vida terrena: “o acesso à bem-aventurança do céu, imediatamente ou depois de uma purificação, ou então à condenação eterna do inferno” (Compêndio nº208).




«Quando pensares na morte, não tenhas medo, apesar dos teus pecados.
Porque Ele já sabe que O amas... e de que massa és feito.
Se tu O procurares, Ele acolher-te-á como o pai ao filho pródigo.
Mas tens de O procurar!»


São Josémaria Escriva

terça-feira, 4 de novembro de 2008

O santo ilumina

O santo não é um herói que se admira de longe.
A celebridade, a vedeta brilha…o santo ilumina!
Os dois atraem, mas não irradiam da mesma forma.

Se o santo ilumina, é porque, aos poucos, ele deixou crescer nele o desejo de amar a Deus e os homens. Para isso, «somos todos destinados…tu, eu e os outros. É uma tarefa acessível, pois aprendendo a amar, aprendemos a ser santos» (Beata Teresa de Calcutá).

“Aprender a ser santo” envolve também as nossas imperfeições: pela fraqueza humana, Deus age.
Como o demonstrou Santa Teresa do Menino Jesus, este caminho de humildade e de benevolência para consigo próprio, é praticada nos actos banais da vida. Deus, na sua misericórdia, nos quer junto d’Ele, sem esperar grandes feitos da nossa parte. «No combate, o herói é aquele que consegue vencer; o santo, é aquele que deixa triunfar Deus na sua pessoa» (Pe. Marie-Eugène do Menino Jesus). É pela nossa fraqueza que Deus pode “trabalhar-nos”. É pela humildade que a santidade cresce no homem. Como uma semente germina e se desenvolve até chegar à sua plenitude, a santidade é a plenitude do ser humano. Um trabalho humilde e paciente à imagem do agricultor que trabalha a terra.

A santidade é para todos mas com algumas exigências. «Se alguém quiser seguir-Me, nega-se a si mesmo, toma a sua cruz e siga-me» (Mt 16,24). Seguir Cristo é ser convidado a imitá-lo, como todos os santos O imitaram.

«Para ser santo, não se trata de realizar actos e obras extraordinárias, nem possuir carismas excepcionais; trata-se de seguir Jesus, ouvir e segui-l’O, sem se deixar abater nas dificuldades» (Bento XVI). Todo um programa…

sábado, 1 de novembro de 2008

Ó vós que bebeis da torrente das delícias eternas

Rainha de todos os santos,
gloriosos Apóstolos e Evangelistas,
Mártires invencíveis,
generosos Confessores,
sábios Doutores,
ilustres Eremitas,
Monges e Sacerdotes devotos,
Virgens puras e mulheres piedosas,
alegro-me da glória inefável à qual fostes elevados
no reino de Jesus Cristo, nosso divino Mestre.
Bendigo o Altíssimo,
pelos dons e favores admiráveis com que Ele vos cumulou,
e pela insigne ordem a que Ele vos elevou, ó amigos de Deus!



Ó vós que bebeis da torrente das delícias eternas,
e que morais esta pátria imortal, esta ditosa cidade,
onde abunda as riquezas irrevogáveis!
Poderosos protectores,
olhai para nós que combatemos, gemendo ainda no exílio,
e alcançai-nos na nossa fraqueza, a fortaleza e o auxílio,
para conseguir as vossas virtudes, perpetuar os vossos triunfos
e partilhar as vossas coroas.
Ó bem-aventurados cidadãos do céu, santos amigos de Deus,
que atravessastes o mar tempestuoso desta vida perecível,
e que merecestes entrar no porto tranquilo da paz soberana e do eterno descanso!
Ó santas almas do Paraíso,
que estais agora ao abrigo dos obstáculos e das tempestades,
gozando de uma felicidade infinita,
peço-vos, em nome da caridade que enche o vosso coração,
em nome d’Aquele que vos escolheu e que vos fez tal como sois,
ouvi a minha prece.

Tomai parte aos nossos trabalhos e combates,
vós que trazeis nas vossas frontes vencedoras uma coroa incorruptível de glória;
tende piedade das nossas inúmeras misérias,
vós que para sempre fostes resgatados deste triste exílio;
lembrai-vos das nossas tentações,
vós que fostes firmes na justiça;
preocupai-vos com a nossa salvação,
vós que não tendes mais nada a temer para a vossa;
sentados serenamente no monte Sião,
não esquecei aqueles que ainda jazem neste vale de lágrimas.
Poderoso exército dos santos,
bem-aventurada multidão dos Apóstolos e Evangelistas,
dos Mártires, Confessores e Eremitas,
dos Monges e Sacerdotes,
das Santas Mulheres e Virgens puras,
rogai sem cessar por nós, pecadores.
Vinde em nosso auxílio;
afastai das nossas cabeças culpadas, a sentença afiada de Deus;
pelas vossas orações,
fazei entrar o nosso navio no porto da Bem-aventurança eterna.



Atribuído a Santo Agostinho