terça-feira, 30 de outubro de 2007

Rosto de: Franz Jägerstätter

No passado dia 26 de Outubro de 2007, em Linz, Áustria, foi beatificado Franz Jägerstätter, um camponês e católico austríaco, pai de três filhas, objector de consciência durante a II Guerra Mundial, que aos 36 anos de idade, foi decapitado a 9 de Agosto de 1943, em Berlim. A sua esposa, Franziska, de 94 anos, esteve presente na celebração da beatificação.
Em 1938, o Beato Franz, citando uma passagem das cartas de São Pedro: "Há que obedecer a Deus antes de obedecer aos homens", declinou integrar qualquer organização politica, declarando-se abertamente oposto ao Nacional-Socialismo de Hitler.
Na sua aldeia, ele foi o único a votar contra o “Anschluss”- Anexação da Áustria pela Alemanha Nazi, e a recusar combater pelo Terceiro Reich.
Preso, julgado “desertor e traidor” por um tribunal militar, foi condenado à decapitação, morrendo mártir da fé aos olhos da Igreja.
Franz Jägerstätter, “um homem comum, um cidadão normal, um vulgar chefe de família, que não exercia qualquer ministério na Igreja, nem tão pouco era teólogo, nem sequer um homem letrado, foi contudo capaz de entender, viver e testemunhar a sua fé em Jesus Cristo até às últimas consequências, até ao derramamento do sangue.”
Pouco antes da sua morte, escrevia numas notas:
“Escrevo com as mãos amarradas, mas mais vale assim do que ter a vontade acorrentada.”
“Nem a prisão, nem as correntes e nem sequer a morte podem separar um homem do amor de Deus e roubar-lhe a sua livre vontade. A potência de Deus é invencível.”

“Se Deus não me tivesse dado a graça e a força de morrer, se necessário, para defender a minha fé, provavelmente faria a mesma coisa que faz simplesmente a maior parte das pessoas. Na verdade, Deus pode conceder a própria graça a cada um de nós tal como Ele quer. Se outros tivessem recebido as muitas graças que eu recebi, provavelmente, teriam feito muitas mais coisas e melhores que eu.
Talvez muitos pensam que são obrigados a suportar o martírio e a morrer pela própria fé só quando se pretende que abandonem a Igreja. Eu atrevo-me a dizer muito abertamente que quem está pronto para sofrer e para morrer, em vez de ofender Deus com o mais pequeno pecado venial, está também disposto a morrer pela sua fé. Estes terão maior mérito do que quem é condenado por recusar abjurar publicamente a Igreja, porque neste caso existe simplesmente o dever, se não se quer cometer pecado grave, de morrer em vez de obedecer.”

Estas palavras são de facto um grande testemunho de fé, transponível para a sociedade actual.
Até onde aguentaríamos a provação, a perseguição por causa das nossas convicções?
Até onde iríamos?
Franz Jägerstätter foi até ao fim…com a fé no paraíso!



Fotos: Beato Franz Jägerstätter e o seu túmulo, encostado à Igreja paroquial da sua aldeia natal.

sábado, 27 de outubro de 2007

Consciência da sua fragilidade

«Naquele tempo, Jesus disse a seguinte parábola
para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros:
«Dois homens subiram ao templo para orar;
um era fariseu e o outro publicano.
O fariseu, de pé, orava assim:
‘Meu Deus, dou-Vos graças
por não ser como os outros homens,
que são ladrões, injustos e adúlteros,
nem como este publicano.
Jejuo duas vezes por semana
e pago o dízimo de todos os meus rendimentos’.
O publicano ficou a distância
e nem sequer se atrevia a erguer os olhos ao Céu;
Mas batia no peito e dizia:
‘Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador’.
Eu vos digo que este desceu justificado para sua casa
e o outro não.
Porque todo aquele que se exalta será humilhado
e quem se humilha será exaltado.»

Lc 18,9-14




Reza-se verdadeiramente quando se tem consciência da sua fragilidade, da sua precariedade. Toda a Sagrada Escritura dá testemunho disso. É no meio das provações e nas fraquezas que o povo de Israel descobre o amor de Deus.
No Evangelho deste Domingo, Jesus nos dá dois exemplos de oração, a de um fariseu e a de um publicano.
Apesar de ser verdadeiro e fiel na prática da Lei, o fariseu eleva uma oração imbuída de orgulho, onde ele não faz mais do que contemplar-se em vez de contemplar a Deus. De facto, ele não precisa de nada; a única coisa que o interessa é a conta dos seus méritos.
Mas a oração do publicano, homem mal visto pela sociedade, é verdadeira diante do Senhor porque reconhece a própria fragilidade e precariedade. É a oração de um homem que se sabe pecador, que tem consciência que não ama o suficiente ou que ama mal. Ele percebe que algumas páginas da sua vida não foram brilhantes. Ele vê a trave que está no seu olho ao ponto de já não ver o argueiro no olho do irmão. Este homem sabe que o perdão só vem de Deus. É esta oração que permite ao pecador acolher o amor de Deus. O Evangelho diz que o publicano “voltou justificado”. De facto, o justo é aquele que se ajusta a Deus numa confiança absoluta, acolha a vontade do Senhor, desejando permanecer nela custa o que custar. O publicano é justo porque se deixou justificar por Deus em vez de se justificar a ele próprio.
O ideal seria que estes dois homens tão diferentes se pusessem a orar juntos diante de Deus, dizendo a uma só voz: “Tem piedade de nós porque somos pecadores… tem piedade de mim que prejudiquei o meu próximo…tem piedade de mim que me acho superior aos outros… tem piedade de nós quando estamos zangados uns com os outros…” e o Senhor diria: “Quando dois ou três estiverem reunidos em meu nome, Eu estarei no meio deles.” É esta oração conjunta que nos permite aproximar-nos de Deus e dos outros, porque o Senhor se torna presente para nos dizer que Ele se reconhece em cada um de nós. Ele vem ensinar a olhar uns pelos outros, não com desprezo ou altivez, mas como verdadeiros irmãos e irmãs.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Um único sermão e 3000 pessoas se convertem!

«De pé, com os Onze, Pedro ergueu a voz e dirigiu-lhes então estas palavras:
‘Homens de Israel, escutai estas palavras: Jesus de Nazaré, Homem acreditado por Deus junto de vós, com milagres, prodígios e sinais que Deus realizou no meio de vós por seu intermédio, como vós próprios sabeis, este, depois de entregue, conforme o desígnio imutável e a previsão de Deus, vós o matastes, cravando-o na cruz pela mão de gente perversa.
Mas Deus ressuscitou-o, libertando-o dos grilhões da morte, pois não era possível que ficasse sob o domínio da morte.’
Os que aceitaram a sua palavra receberam o baptismo e, naquele dia, juntaram-se a eles cerca de três mil pessoas.»


Actos dos Apóstolos, 2, 4.14.22-24.41




Um único sermão e 3000 pessoas se convertem!
Como? A resposta é o Espírito Santo. Ele é oferecido e vem cumprir maravilhas no coração do homem. Sem o Espírito Santo, não se pode entender o amor de Deus. Podemos ter o mais belo discurso do mundo com as mais belas palavras que existem, mas sem Ele, é impossível.
A Igreja, os cristãos, são chamados a testemunhar Cristo, anunciá-lo, mas na desapropriação deste mesmo anúncio porque “só Deus se dá aos corações e se propõe à sua liberdade.” (Madalena Delbrel)
Somos fracos, pobres. Nas nossas mãos Deus colocou um tesouro que não nos pertence: o Evangelho, que deve ser por nós proclamado, “Ide e anunciai…”; mas que não podemos impor.
O amor é proposto à liberdade e não imposto.
Bernardete, a vidente de Lurdes, dizia aos detractores das aparições: “A Virgem incumbiu-me dizer, não de convencer.”
A Boa Nova que os cristãos são chamados a anunciar é que Cristo ressuscitou de entre os mortos para nos dar a vida. É por amor que o mistério da Redenção aconteceu. “Não há maior prova de amor do que dar a vida.”
“Evangelizar um homem, é dizer-lhe que ele é amado por Deus, e não é só dizer-lhe, mas mostrar-lhe, e não é só mostrar-lhe, mas manifestar com a nossa atitude que ele é único aos olhos de Deus.”Mais que um discurso, é um olhar ou um gesto que evangeliza.
Mas para anunciar o amor redentor de Deus, é necessário sermos também nós convencidos de que Deus nos ama.
Este amor de Deus significa que Deus nos ama pessoalmente, que Ele olha amorosamente para cada um de nós, nos levanta e nos ama como somos. Na nossa pobreza e miséria, Deus manifesta o seu amor.


Senhor faz-me viver do teu amor
para anunciá-lo a todos os homens!


terça-feira, 23 de outubro de 2007

“Arregaçar as mangas”

A Agência Ecclesia publicou no seu site uma entrevista a Dom Carlos Azevedo, Secretário da Conferência Episcopal Portuguesa, que analisa as mudanças do catolicismo em Portugal antes da visita “Ad limina” dos bispos ao Vaticano.
Reconheço que aprecio muito este bispo pela sua maneira clara de comunicar o Evangelho e as suas ideias sobre a sociedade. Se o Senhor dá a cada um, carismas, talentos para render, D. Carlos tem claramente o de comunicar. Com ele, os Bispos do Porto e de Leiria-Fátima mostram um rosto mais luminoso, mais compreensível da doutrina da Igreja…talvez por eles aparecerem mais nos meios de comunicação social, mas mesmo assim, a postura, a linguagem e sobretudo as ideias destes bispos convidam a ouvi-los e a pensar no que dizem.
Transcrevo aqui uma passagem da entrevista, mas para lê-la em completo, clique aqui

Há ou não há reflexão sobre estas questões (a diminuição da prática dominical)?
Dom Carlos Azevedo
– «Houve reflexão, mas depois não existiu um conjunto de medidas eficazes e operacionais que atendessem a estes problemas. Podemos dizer que é inevitável - as pessoas têm outras prioridades - mas, daquilo que depende de nós, não se faz muito. As celebrações continuam a ter pouca beleza. Muitas vezes, as homilias são mal preparadas. A música litúrgica não aumenta de qualidade. As propostas de oferta de celebração não são as mais adequadas. Por outro lado, a formação de cristãos com sentido de vida comunitária também é escassa.
Quando se fazem actos relacionados com a religião individual - caso das procissões ou grandes festas - as pessoas aderem. Todavia, isto não significa nada do ponto de vista comunitário porque muitas vezes não passa de uma mera religião natural que tem pouco fundamento cristão e evangélico. Perante a leitura dos dados é fundamental “arregaçar as mangas” para formar cristãos.»

sábado, 20 de outubro de 2007

Dia Mundial das Missões

Este domingo, a Igreja celebra o Dia mundial das Missões. Podemos dizer que se este Dia das Missões é mundial, é porque o Evangelho deve ser anunciado ao mundo inteiro, mas sobretudo, porque todos os baptizados, espalhados por toda a terra, são chamados a ser missionários.
Quando se fala de missionários, pensa-se logo nos religiosos e leigos que partem para países distantes anunciar o Evangelho e dar esperança às gentes daquelas nações. Esta realidade missionária corresponde à verdade, mas é óbvio que ela não está ao alcance de todos. Como qualquer vocação, é necessário sentir-se chamado, mas também ter disponibilidades e capacidades para ser missionário.
Mas qualquer baptizado, como dizia o Papa João Paulo II, “ é um evangelizado e um evangelizador”, um missionado e um missionário ao mesmo tempo.
Assim, o cristão deve procurar viver o Evangelho e aprender com ele, mas também anunciá-lo. Por isso, se não podemos ser missionário longe, devemos sê-lo em casa e à nossa volta, todos os dias, vivendo simplesmente os ensinamentos de Jesus, colocando os nossos passos nos passos de Cristo. Esta maneira da fazer, muitas vezes silenciosa e discreta, constitui um testemunho eloquente e um exemplo que fala às pessoas, que evangeliza.
Ser missionário é descobrir no outro, não necessariamente do outro lado do mundo mas bem perto de casa, a dor que abala o coração e a alma, ser presente, ouvir, ajudar e amar; é desenvolver o reflexo de fé de ver no próximo o próprio Cristo que tem fome, que precisa de atenção, da nossa presença, de afecto e de oração.

«O mandato missionário confiado por Cristo aos Apóstolos diz respeito verdadeiramente a todos nós. O Dia Missionário Mundial seja, portanto, ocasião propícia para dele tomar mais profunda consciência e para juntos elaborar itinerários espirituais e formativos apropriados, que favoreçam a cooperação entre as Igrejas e a preparação de novos missionários, para a difusão do Evangelho neste nosso tempo. Contudo não esqueçamos que o primeiro e prioritário contributo, que somos chamados a oferecer à acção missionária da Igreja, é a oração. ‘A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos diz o Senhor.
Pedi, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe’»


Bento XVI, mensagem para o Dia Mundial das Missões 2007

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

A atitude do cristão, da Igreja

Jesus disse ainda a quem O tinha convidado:
«Quando ofereceres um almoço ou um jantar,
não convides os teus amigos nem os teus irmãos,
nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos,
não seja que eles por sua vez te convidem
e assim serás retribuído.
Mas quando ofereceres um banquete,
convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos;
e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te:
ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.»


Lc 14, 12-14



Esta semana, tive daquelas conversas que interpelam e questionam a atitude do cristão e da Igreja, em relação aos seus membros entre eles, como para com aqueles que desconhecem ou rejeitam o Evangelho.
Lembrei-me desta passagem do evangelista Lucas, em que Jesus apresenta o Reino de Deus como um “banquete” onde todos – sem excepção – são convidados, inclusive aqueles que a cultura social e religiosa exclui e marginaliza.
Neste banquete, os que aceitam o convite, devem revestir-se de humildade, simplicidade e serviço, não podem agir por interesse ou esperar retribuição, mas devem fazer tudo com gratuidade e amor desinteressado.
Mas Jesus vai mais longe!
Para o banquete é preciso convidar “os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos”, considerados pecadores notórios e amaldiçoados por Deus.
Estes últimos representam todos aqueles que a religião oficial excluía da comunidade, da salvação. Apesar disso, Jesus diz que esses devem ser os primeiros convidados do banquete do Reino.
Como é que, no tempo presente, estes “pecadores notórios”, que podemos rever nos marginais, nos divorciados, nos homossexuais, nas prostitutas são acolhidos na Igreja?
Quais são as respostas ou a assistência que os cristãos, a Igreja, têm para eles?
Será que a resposta é de amor como nos manda Jesus?
No papel, certamente, pois vem no Evangelho, mas na prática?



“Todos os homens são filhos de Deus que os ama infinitamente: é então impossível amar, desejar amar a Deus, sem amar, desejar amar os homens.”


Beato Carlos de Foucauld

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Profundamente consolada

«Um dia, ao recitar o ‘Quicumque vult’*, foi-me revelado de maneira tão clara que existe um só Deus e três pessoas em Deus, que fiquei toda maravilhada e profundamente consolada. Resultou para mim num maior proveito para melhor conhecer a grandeza de Deus e as suas maravilhas. Assim, quando penso neste mistério ou quando ouço falar dele, parece-me entender como isso pode ser; e isto é para mim uma viva consolação.»


Santa Teresa de Ávila



Ainda inspirado do passado fim-de-semana mariano, onde o mistério do Deus-Trindade, revelado e contemplado em Fátima, foi celebrado com a dedicação da nova Igreja na Cova da Iria, é bom relembrar, neste dia da memória litúrgica de Santa Teresa de Ávila, Doutora da Igreja e reformadora da Ordem do Carmelo, esta meditação sobre a sua experiência trinitária, mistério central da nossa fé, inefável para a nossa razão mas tão consolador para quem o experimenta.
É também uma boa maneira de falar da experiência do pastorinho Francisco que, segundo a sua prima Lúcia, “ficava absorvido por Deus, pela Santíssima Trindade, nessa luz imensa que nos penetrava no mais íntimo da alma. Ele dizia: Nós estávamos a arder, naquela luz que é Deus, e não nos queimávamos. Como é Deus!!! Não se pode dizer! Isto sim, que a gente nunca pode dizer! Mas que pena Ele estar tão triste! Se eu O pudesse consolar!...”, “Do que gostei mais foi de ver a Nosso Senhor, naquela luz que Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus!”
O nosso pequeno pastorinho não só é consolado pela luz divina como deseja consolar a Deus. O amor recebido suscita um amor retribuído. O Francisco revela-se assim o mais contemplativo entre as três crianças.
A oração ensinada pelo Anjo, a experiência de fé dos pastorinhos na luz transmitida por Nossa Senhora, ou a teofania à Irmã Lúcia a 13 de Junho de 1929, em Tuy (Espanha), faz da mensagem de Fátima, uma mensagem profundamente marcada pelo mistério do Deus Único, Pai, Filho, Espírito Santo. A nova igreja vem afirmar, e para muitos revelar, a importância da Trindade na mensagem revelada em 1917.
Segundo o 'Quicumque vult', “a Fé Católica é esta: que adoremos um Único Deus em Trindade e a Trindade em Unidade.”
Então, Adoremo-l’O! Adoremo-l’O! Adoremo-l’O!



*Quicumque vult, Credo de Santo Atanásio