segunda-feira, 30 de julho de 2007

A sua vontade

«Não peças para que as tuas vontades se cumpram: elas não concordam necessariamente com a vontade de Deus.
Pede antes, segundo o ensinamento recebido, dizendo: ‘Faça-se a tua vontade em mim’; em tudo, pede-Lhe que a sua vontade seja feita; pois Ele deseja o bem e os obséquios da tua alma, enquanto tu, não procuras necessariamente isso.»

Evagre le Pontique, Tratado sobre a oração

sábado, 28 de julho de 2007

O Pai-nosso de Francisco de Assis

Santíssimo Pai nosso, nosso Criador, nosso Redentor, nosso Salvador e Consolador!

Que estás nos céus:
Nos anjos e nos santos, iluminando-os, para que te conheçam, porque tu, Senhor, és luz; inflamando-os, para que te amem, porque tu és amor; habitando neles e enchendo-os, para que gozem a bem-aventurança, porque tu, Senhor, és o sumo bem, o bem eterno, donde procede todo o bem, e sem o qual não há bem algum.

Santificado seja o teu nome:
Que o conhecimento de ti mais se clarifique em nós, para conhecermos qual a largueza dos teus benefícios, a grandeza das tuas promessas, a alteza da tua majestade, e a profundeza dos teus juízos (Ef 3, 18).

Venha a nós o teu Reino:
De modo a reinares em nós pela graça, e a levares-nos a entrar no teu Reino, onde a visão de ti é clara, o amor por ti é perfeito, ditosa a tua companhia e gozaremos de ti para sempre.

Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu:
Para te amarmos de todo o coração (Lc 10, 27), pensando sempre em ti; sempre a ti desejando com todo o nosso espírito; sempre a ti dirigindo todas as nossas intenções, e em tudo procurando a tua honra; e com todas as veras empregando todas as nossas forças e potências do corpo e da alma ao serviço do teu amor e de nada mais. E para amarmos o nosso próximo como a nós mesmos, atraindo todos, quanto possível, ao teu amor, alegrando-nos dos bens dos outros como dos nossos, e compadecendo-nos dos seus males, e não fazendo a ninguém qualquer ofensa (2 Cor 6, 3).

O pão nosso de cada dia, o teu dilecto Filho nosso Senhor Jesus Cristo, nos dá hoje, para memória, e inteligência e reverência do amor que nos teve, e de quanto por nós disse, fez e suportou.

E perdoa-nos as nossas ofensas:
Por tua inefável misericórdia, por virtude da Paixão do teu amado filho Nosso Senhor Jesus Cristo, e pelos méritos e intercessão da bem-aventurada Virgem Maria e de todos os Santos.

Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido:
E o que não perdoamos plenamente, faz, Senhor, que plenamente perdoemos, a fim de que, por teu amor, amemos de verdade os inimigos, e por eles a ti devotamente intercedamos, a ninguém pagando mal com mal. (1 Ts 5, 15) e em ti procuremos ser úteis em tudo.

E não nos deixes cair em tentação:
oculta ou manifesta, súbita ou renitente.

Mas livra-nos do mal:
passado, presente e futuro.


São Francisco de Assis


quinta-feira, 26 de julho de 2007

Os cristãos do Oriente

Desde os primeiros tempos da evangelização, os cristãos se espalharam na Mesopotâmia, na Península arábica, nas margens do Nilo e do Mediterrâneo. A presença do Cristianismo é bem anterior à do Islão (século VII).

Hoje, estima-se perto de 11 milhões de cristãos no Médio-Oriente, mas é difícil ter um número real por causa do seu êxodo massivo desde há umas duas décadas nalguns países. Estes cristãos são repartidos no seio de 11 Igrejas orientais de ritos diferentes.

Egipto: 8 a 10 milhões de cristãos (principalmente coptas), ou seja, 10% da população. 225 mil católicos.
Líbano: 1,5 milhões de cristãos, 40 % da população. 1 milhão de católicos (maronitas, melquitas, latinos…). A diáspora representa 6 milhões de pessoas.
Síria: 850 000 cristãos, 4,5% da população.
Iraque: 600 000 cristãos (menos de 3% de população). 400 000 caldeus (católicos). O Iraque contava perto de 1 milhão de cristãos em 1980, e 1,2 milhões em 1987. Por causa da situação caótica do país, a avaliação numérica fica aleatória.
Jordânia: 350 000 cristãos (6% da população). 120 000 católicos.
Israel: 150 000 cristãos (2& da população).
Territórios palestinianos: 60 000 cristãos (menos de 2% da população).
Irão: 135 000 cristãos (0,3% da população). 20 000 católicos.
Turquia: 80 000 cristãos (0,1% da população). 10 000 católicos.

Fonte: Obras do Oriente 2006




«No Médio Oriente, junto com sinais de esperança no diálogo entre Israel e a Autoridade Palestiniana, nada de positivo, infelizmente, vem do Iraque, ensanguentado por contínuas matanças, enquanto fogem as populações civis; no Líbano a paralisia das instituições políticas põe em perigo o papel que o País está chamado a desempenhar na área do Médio Oriente e hipoteca gravemente seu futuro. Não posso esquecer, enfim, as dificuldades que as comunidades cristãs enfrentam quotidianamente e o êxodo dos cristãos daquela Terra bendita que é o berço da nossa fé. Àquelas populações renovo com afecto minha proximidade espiritual.»

Bento XVI, Ubi et Orbi Páscoa 2007


Foto: A Cúpula da Rocha (Mesquita de Omar) em Jerusalém, visto pelas janelas da Igreja das Nações no Monte das Oliveiras.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Rosto de: Charbel Makhlouf

A Igreja de Cristo é bela, porque celebra no seu calendário litúrgico, tantos santos de etnias e culturas diferentes…sinais da presença do Evangelho em todo o mundo!

A 24 de Julho, celebra-se a memória de São Charbel (ou Sarbélio) Makhlouf, símbolo de união entre Oriente e Ocidente.
Beatificado no dia 5 de Dezembro de 1965 e canonizado no dia 9 de Outubro de 1977, foi o primeiro confessor do Oriente venerado de acordo com o procedimento da Igreja Católica.
Libanês, São Charbel foi membro da Ordem Libanesa Maronita e filho da Igreja Maronita.
“Maronita” porque deve o seu nome a um anacoreta oriental, São Maron (Marun), falecido em 410.
A Igreja Maronita, cujo centro se encontra no Líbano, tem como língua litúrgica o aramaico, a língua falada por Cristo; e ao longo dos séculos permaneceu sempre católica, apostólica, romana. Ela foi à única Igreja oriental que ficou sempre ligada ao Santo Padre.

São Charbel, nasceu em 1828, numa pequena aldeia chamada Beka´Kafra, no Líbano.Desde criança sentia-se atraído pelo Senhor.
Gostava de rezar nas grutas para satisfazer a sua sede de Deus.
Aos 23 anos de idade, percebeu que era o momento de se entregar a Deus como monge, na Ordem Libanesa Maronita.
Deixou a sua casa, sem se despedir da mãe e família. Não queria que eles sofressem com a dor da despedida.
Mudou o seu nome de Yússef (José) para Charbel (um mártir do século II). Desse modo, esquecia o passado, morrendo para o mundo e vivendo para Deus. Fez os votos de pobreza, castidade e obediência.
Após seis anos de preparação, foi ordenado sacerdote e passou a viver no mosteiro de Annaya. Jamais se queixou da vida comunitária ou das incompreensões que sofria.
Era profundamente humilde e, anos mais tarde, pediu permissão para viver isolado, como eremita, consagrando-se ao trabalho no campo, à oração e à penitência.
No dia 16 de dezembro de 1898, o P. Charbel ao recitar durante a Missa a prece "Pai da verdade, eis o Vosso Filho, vítima do vosso agrado! Aceitai-o", foi atacado pela paralisia. Depois de dias de agonia, na noite do Natal desse mesmo ano, deixou a vida terrena, e nasceu para o céu.
No mosteiro de Annaya (Líbano), o túmulo de São Charbel é visitado por muitos peregrinos ao longo do ano. Além de muitas graças e curas alcançadas ao visitar o sepulcro do santo eremita, numerosos cristãos afastados dos sacramentos ou mesmo da Igreja, mudam de conduta e adoptam uma vida coerente e cristã.

O insistente apego dos cristãos maronitas pelas montanhas libanesas, faz com que São Charbel, como São Marun (séc IV-V), o Beato Nimatullah Kassab Al-Hardini (séc XIX) e a Beata Rafqa (séc XIX-XX), sejam símbolos de resistência e defesa ao longo de séculos, da fé e identidade cristãs do Líbano no meio de um Islão imponente.

domingo, 22 de julho de 2007

Acolher

«Abraão estava sentado à entrada da sua tenda, no maior calor do dia.
Ergueu os olhos e viu três homens de pé diante dele.
Logo que os viu, deixou a entrada da tenda e correu ao seu encontro;
prostrou-se por terra e disse:
’Meu Senhor, se agradei aos vossos olhos,
não passeis adiante sem parar em casa do vosso servo.’»

Gn 18,1-3

«Naquele tempo, Jesus entrou em certa povoação e uma mulher chamada Marta recebeu-O em sua casa.
Ela tinha uma irmã chamada Maria, que, sentada aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra.»

Lc 10, 38-42



Há muitas maneiras de acolher as pessoas.
Cheio de delicadeza, Abraão vai ter com os seus três misteriosos visitantes, prosterna-se diante deles, convida-os a não passar sem parar diante da sua casa, prepara um festim…
Também Marta prepara uma refeição que certamente partilhará com os seus irmãos, Lázaro e Maria, para o amigo convidado, Jesus.
Outra maneira de acolher é a de Maria, irmã de Lázaro e Marta. Ela senta-se aos pés de Jesus, o escuta, fazendo-lhe companhia.

Os portugueses têm fama de acolher bem…e quase sempre à volta da mesa. Há sempre algo para petiscar com as visitas.
Acolher é uma bela maneira de amar o próximo.
O Senhor convida-nos a sermos também nós, outros Abraão, Marta, Maria, no acolhimento que Lhe reservamos, na escuta da sua Palavra, mas também, no amigo, no vizinho, no pobre, no refugiado, no marginalizado. Podemos reconhecer o próprio Jesus na visita que bate à nossa porta.
A nós de ouvir a Palavra do Senhor e de a pôr em prática.
“Se alguém me tem amor guardará minha palavra, meu Pai o amará e nós viremos a ele, e faremos nele a nossa morada.” Jo 14, 23

sexta-feira, 20 de julho de 2007

O pai, os filhos, a mãe...a oração

«Ouçam: um pai fazia anos.
Organizaram uma pequena festa em sua casa.
Chega a hora; ele já sabe da festa e diz: “Vamos ver as coisas bonitas que me vão mostrar!”.
Vem primeiro o filho mais novo, a quem ensinaram um poema, que ele decorou. Pobre menino! Lá, na frente do pai, recita o seu poema. “Parabéns!”, diz o pai, “gostei muito, estiveste muito bem, querido”. De cor.

Apresenta-se o segundo filho, que já está na escola. Ah, ele não se contentou em aprender um poemazinho de cor; preparou um pequeno discurso, coisa dele, farinha do seu saco. Mesmo sendo breve, ele faz-se de orador. “Eu nunca poderia acreditar”, diz o pai, “que fosses tão bom para fazer discursos, querido”. O pai está contente: veja só, que belos pensamentos!... Não é uma obra-prima, mas...
Terceira: a menina, a filhinha. Ela preparou simplesmente um ramo de cravos vermelhos. Não diz nada. Vai até o pai, não solta um pio: mas está comovida, fica tão vermelha que não se sabe quem é mais vermelho, ela ou os cravos. E o pai diz: “Dá para ver como gostas de mim; estás tão emocionada”. E nem sequer uma palavra. Mas ele agradece as flores, especialmente porque a vê tão comovida e tão cheia de afeição. Depois vem a mãe, a esposa. Não dá nada. Ela olha para seu marido e ele olha para ela: simplesmente um olhar. São tantas coisas. Aquele olhar traz de volta todo o passado, toda uma vida. O bem, o mal, as alegrias, as dores da família. Não há mais nada.
Estes são os quatro tipos de oração.
O primeiro é a oração vocal: quando rezo o Rosário com atenção, quando rezo o Pai-Nosso, a Ave-Maria; então somos pequenas crianças.
O segundo, o pequeno discurso, é a meditação. Sou eu que penso e faço o meu discurso ao Senhor: belos pensamentos e até sentimentos profundos…fiquemos bem entendidos.
O terceiro, o ramo de cravos, é a oração afectiva. A menina, tão emocionada e tão afectuosa. Aqui não são necessários muitos pensamentos, basta deixar falar o coração. “Meu Deus, eu amo-Te.” Mesmo que alguém faça só cinco minutos de oração afectiva, é melhor do que a meditação.
A quarta, a esposa, é a oração da simplicidade e do simples olhar, como se diz. Ponho-me diante do Senhor, e não digo nada. Olho para ele da maneira como puder. Essa oração parece valer pouco, mas pode ser superior às outras.
Considerem cada uma dessas formas: oração.
A primeira também. Costuma-se dizer: é a de uma criança, está apenas a começar. Mas Santa Teresa (de Ávila) escreveu que a pessoa pode tornar-se santa com a primeira oração. Determinadas pessoas, muito humildes, não aprenderam a meditar, mas rezam bem as orações vocais, com o coração.»

D. Albino Luciani (João Paulo I, o Papa do sorriso)

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Rosto de: Bartolomeu dos Mártires

Dom Frei Bartolomeu dos Mártires foi muito cedo reconhecido pelo Povo de Deus como o “Arcebispo Santo”... no entanto, poucos portugueses o conhecem.

Bartolomeu do Vale, nascido em Lisboa em 1514, adoptou o nome de Bartolomeu dos Mártires por devoção a Nossa Senhora dos Mártires, em cuja paróquia foi baptizado. Professou aos 15 anos na Ordem de S. Domingos, onde recebeu sólida formação religiosa e doutrinal. Foi Mestre de Filosofia e Teologia nas escolas dominicanas de S. Domingos de Benfica, Batalha e Évora, contribuindo para a renovação dos estudos teológicos em Portugal.


Nomeado Arcebispo de Braga em 1558, entregou-se inteiramente à sua missão episcopal. Chamado a participar no Concílio de Trento, as suas intervenções influenciaram a orientação do Concílio, evidenciando dotes de Pastor zeloso e humilde, vigoroso e competente. S. Carlos Borromeu considerou-o “modelo de bispos e espelho de virtudes cristãs”. Após o regresso, empenhou-se na dedicação pastoral às comunidades da diocese, formação dos ministros do Evangelho, introdução de reformas preconizadas pelo Concílio de Trento e luta pela liberdade da Igreja de Braga face às autoridades civis, entre outros aspectos.


Pediu a resignação do cargo de Arcebispo Primaz em 1581, pedido que foi aceite no ano seguinte. Continuou o trabalho de pregação e de formação catequética, até ao fim da sua vida terrena, a 16 de Julho de 1590, em Viana do Castelo. Desde cedo se espalhou a sua fama de santidade, sendo designado pelo povo de Braga e Viana como “O Santo”.


A proclamação oficial da santidade de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires processou-se em ritmo lento. Introduzida a causa de Beatificação em 1631, o reconhecimento da heroicidade das suas virtudes só se verificou em 1845, por decreto do Papa Gregório XVI. Ele só será beatificado em Roma pelo Papa João Paulo II, 411 anos após a sua morte, no dia 4 de Novembro de 2001.