Mostrar mensagens com a etiqueta Sacerdócio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sacerdócio. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Mártir de Cristo Rei

Miguel Agostinho Pró Juarez nasce em 1891 em Guadalupe, no México, numa família abastada e profundamente cristã.
O pequeno 'Miguelito', como é chamado, mostra ser um rapaz muito alegre e brincalhão. Crescido, ele abandona durante algum tempo a prática religiosa, mas volta a ela, movido pela entrada da sua irmã num convento … é o ponto de partida da sua vocação.
Aos 20 anos, junta-se aos jesuítas e faz os seus primeiros votos a 15 de Agosto de 1913. Atormentados pelo governo mexicano anti-clerical, os jesuítas em formação exilam-se para os Estados Unidos. Miguel irá também para Espanha, Nicarágua, e Bélgica, onde completará a sua formação na casa dos jesuítas franceses, também exilado pelo seu governo. Apesar da sua débil saúde e contínuas dores no estômago, o jovem jesuíta se distingue pela sua alegria constante e expansiva. É ordenado sacerdote com 34 anos na cidade de Amiens (França), em Agosto de 1925. Ele que é de uma família rica, podendo até suceder a seu pai, preferiu os pobres, em particular, os mineiros belgas e franceses, interessando-se pela pastoral do trabalho e a JOC (Juventude Operária Católica).
Apesar da escalada de perseguições no México com a chegada ao poder do General Calles, os superiores jesuitas pensam que o ar do país poderia ser benéfico à saúde do Padre Miguel. Ele regressa ao país natal em 1926, poucos dias depois de um decreto proibir a presença de sacerdotes. Na Cidade do México, durante mais de um ano, ele exerce o seu ministério clandestinamente. As igrejas estão fechadas e o culto público proibido. Mas o Padre Miguel Pró tem a arte de agir sem ser apanhado. Faz-se chamar "Cocol '(nome de um pão doce que ele gostava na sua infância), usa todo o tipo de disfarces, como vestir-se de agente da polícia para visitar as prisões. Um dia, quando a casa onde ele se escondia é cercada, ele finge ser inspector de polícia, queixando-se a outro agente de não se empenhar o suficiente para apanhar “aquele maldito Pró”, prometendo intensificar a investigação. Outra vez, apertado pela presença policial, ele agarra a mão de uma jovem mulher pedindo: "Ajuda-me, sou um padre”, e assim, o pseudo casal passa despercebido frente às forças da lei.
Nesta vida de proscrito, a Eucaristia é a força que anima o Padre Pró, e para alimentar o seu rebanho, ele organiza "estações eucarísticas”: missas celebradas todos os dias numa casa diferente; arrisca-se ainda mais em ser preso, adicionando ao seu ministério espiritual secreto, o serviço caritativo aos pobres.
Mas um dia, ele é apanhado, erradamente suspeito de conspirar com o seu irmão, também sacerdote, de um ataque contra o ex-presidente, o General Obregon. Todos sabem da sua inocência, mas o Padre Miguel Pró é sumariamente condenado… o General Calles não tolera a actividade deste sacerdote tão esperto.
A 23 de Novembro de 1927, Pró é levado ao lugar de execução.
Lá, depois de rezar e recusar ser vendado, ele levanta a voz, poderosa, perdoando a todos e clamando a Deus a sua inocência. Em seguida, ele abre os braços em cruz, segurando um crucifixo numa mão e um rosário na outra, e antes de ser fuzilado, ele grita: "Viva Cristo Rei!"
Para o seu funeral, qualquer manifestação pública é proibida, mas mais de 20 mil pessoas seguem o cortejo às janelas ou em silêncio nas ruas. Entre os sacerdotes mártires deste período, o Padre Miguel Pró é o mais conhecido.
Ele é beatificado pelo Papa João Paulo II a 25 de Agosto de 1988



Fotos do Martírio do Beato Miguel Pró

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O "Encontro das 21 horas"

A “Comunidade São Martinho” (Communauté Saint Martin) é uma associação clerical pública que reúne sacerdotes e diáconos que desejam viver em comum o seu ministério. Foi fundada em 1976, pelo Padre Jean-François Guerin (1929-2005), sacerdote da diocese de Tours (França), e é reconhecida pela Igreja.
Em 2002,a comunidade tomou a iniciativa de praticar e divulgar a “Presença trinitária” do Sr. Albert Freyre, que consiste em oferecer cada dia, fielmente, um curto tempo de oração pelos “pobres”.

“21 horas” é a hora de entrada na noite,
hora em que as ansiedades ressurgem,
que as angústias e a solidão se manifestam,
que as trevas do pecado se intensificam…
hora em que o homem não precisa sentir-se só diante do sofrimento.
Esta hora pode então tornar-se numa grande onda de oração que se eleva dos nossos corações, para que o Coração de Cristo toca com seu amor o coração dos mais pobres!
Leigo, consagrado, padre, jovem ou velho, doente ou saudável, todos podem juntar-se a este “Encontro das 21 horas”, com qualquer oração, fielmente, cada noite.



Oração para o "Encontro das 21 horas"

Meu Deus,
neste início da noite,
rogo-Vos por todos aqueles que estão na prisão,
por todos os idosos,
por todos aqueles que estão sós, doentes, abandonados,
por todos aqueles que não aguentam mais,
por todos aqueles que estão desesperados,
por todos aqueles que esta noite vão pecar.

Eterno Pai que nos criastes,
Filho, Redentor do mundo que nos remistes,
Espírito de Amor que nos santificais,
tende piedade de nós.

E vós, Maria Imaculada,
Mãe do Redentor,
Suplicante poderosíssima,
Refúgio dos pecadores,
Consoladora dos aflitos,
Auxílio dos cristãos,
Mãe do Belo Amor,
rogai por nós.

Santos Anjos da Guarda,
disponde-nos a receber favoravelmente a graça de Deus.



* * *



Nascido em 1921, Albert Freyre é impedido pelo seu estado de saúde de aceder ao sacerdócio. No entanto, ele quer fazer da sua vida um testemunho cristão, principalmente junto dos marginalizados. Um dia, numa visita, um prisioneiro confessou o conforto que trazia o tempo passado na companhia do Albert. Diante da impossibilidade de se encontrar juntos todos os dias, a ideia surgiu de se unir todas as noites através da oração. Esse encontro espiritual seria fixado às 21 horas… hora em que as luzes se apagam na prisão. Percebendo a esperança suscitada por este encontro, à hora em que surge a escuridão, o Sr. Freyre decide formar um grande movimento de oração. Umas monjas são as primeiras a juntar-se à iniciativa, oferecendo o ofício da noite. Hoje, quase 600 pessoas são fiéis ao "Encontro das 21 horas".
No lar de idosos de Pontarlier (França), é Albert Freyre que recebe agora as visitas , sempre amigável com quem o procura.

(do site da Communauté Saint Martin)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Porque um Ano Sacerdotal?

«Na sexta-feira passada, 19 de Junho, Solenidade do Sagrado Coração de Jesus e dia tradicionalmente dedicado à oração pela santificação dos sacerdotes, tive a alegria de inaugurar o Ano Sacerdotal, proclamado por ocasião do 150º aniversário do “nascimento ao Céu” do cura d’Ars, São João Maria Baptista Vianney. (…)
Porque um Ano Sacerdotal?
Porque precisamente na recordação do santo cura d’Ars, que aparentemente não fez nada de extraordinário? (…)

O objectivo deste Ano Sacerdotal, como escrevi na carta enviada aos sacerdotes para esta ocasião, consiste em renovar em cada presbítero a aspiração “à perfeição espiritual, motor de eficácia de seu ministério”, ajudar os sacerdotes e, com eles, todo o Povo de Deus, a redescobrir e revigorar a consciência do extraordinário e indispensável dom da Graça que o ministério ordenado representa para quem o recebeu, para toda Igreja e para o mundo, que sem a presença real de Cristo, estaria perdido. (…)

“Alter Christus”, o sacerdote está profundamente unido ao Verbo do Pai, que ao encarnar-se, tomou a forma de servo, fez-se servo.
O sacerdote é servo de Cristo, no sentido de que a sua existência, configurada ontologicamente com Cristo, assume um carácter essencialmente relacional: ele está em Cristo, para Cristo e com Cristo ao serviço dos homens.
Precisamente porque pertence a Cristo, o sacerdote está radicalmente ao serviço do homem: ele é ministro de sua salvação, de sua felicidade, de sua autêntica libertação, amadurecendo, nesta assunção progressiva da vontade de Cristo, na oração, “num coração a coração” com Ele.»



Bento XVI,
Audiência Geral 24/06/2009

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Em primeiro lugar, ele deve ser

Na véspera da sua viagem para África, o Papa Bento XVI fez um discurso perante a sessão plenária dos membros da Congregação para o Clero. Esta congregação se reúne uma vez por ano a fim de abordar um tema específico. Este ano, o tema era: "A identidade missionária do sacerdote na Igreja."

O Santo Padre aproveitou a ocasião para fazer um anúncio: «em vista de favorecer esta tensão dos sacerdotes para a perfeição espiritual da qual sobretudo depende a eficácia do seu ministério, decidi proclamar um especial "ano sacerdotal", que irá de 19 de Junho próximo ao dia 19 de Junho de 2010. Efectivamente, celebra-se o 150º aniversário da morte do Santo Cura d'Ars, João Maria Vianney, verdadeiro exemplo de Pastor ao serviço da grei de Cristo».
O "ano sacerdotal" terá por tema: "Fidelidade a Cristo, Lealdade do sacerdote."
Começará com as Vésperas da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, e terminará um ano mais tarde com um encontro mundial de sacerdotes em Roma. Neste ano dos sacerdotes, São João Maria Vianney será proclamado padroeiro de todos os sacerdotes.



Este “ano sacerdotal” será muito importante para cada sacerdote, mas também para todos os fiéis, na percepção do que é verdadeiramente um padre...uma concepção deste ministério muitas vezes distorcida, desarticulada.
Julga-se frequentemente as acções de um sacerdote pelo exterior:
quantas comunidades paroquiais assiste;
como é capaz de coordenar as suas acções, organizar-se;
quantos colaboradores tem;
quantos compromissos tem na sua agenda;
quantas igrejas renovou;
quantos fiéis convenceu em participar na vida da paróquia etc…
Tudo isto é bom. É positivo ver um padre lutar pelo Reino de Deus, pela sua comunidade.
Mas o"agir" é apenas um aspecto.
Há outro aspecto, mais importante, e que é a causa de qualquer acção externa, é o "ser"…é a identidade do sacerdote.
A identidade é como a resposta do jovem debaixo da árvore a quem é perguntado: "O que estás a fazer?" E ele responde: "Eu sou".
É a esta resposta que é chamado o padre, porque, em primeiro lugar, ele deve ser:
ser sacerdote;
ser um “homem de Deus";
um “homem pelo qual vem a graça”;
ser aquele que é chamado e enviado;
ser um sacerdote com todo o coração e com alegria;
ser um servo de Deus, que não se produz a si mesmo,
mas que, como o Profeta Jeremias, faz suas as palavras do Senhor.
Um homem que, com todo o seu ser, orienta os homens para Deus.

domingo, 3 de maio de 2009

Nos seus passos, como Ele

«Jesus Cristo quer apascentar na pessoa dos pastores, e os pastores na pessoa de Jesus Cristo. Os pastores glorificam-se, mas quem se gloria deve gloriar-se em Jesus Cristo.
Apascentar por Cristo, apascentar em Cristo e apascentar com Cristo, não é apascentar para si mesmo senão para Cristo. (...)
Todos os pastores devem por isso o ser num só Pastor, todos devem senão fazer ouvir a voz d'Ele às ovelhas, para que as ovelhas sigam o seu único Pastor, e não este ou aquele; todos devem ter n’Ele o mesmo discurso sem pronunciar ensinamentos distintos.»


S. Agostinho, Padre e Doutor da Igreja
Sermão XLVI. O único Pastor.




O 4º Domingo da Páscoa é tradicionalmente chamado “Domingo do Bom Pastor”, pois o Evangelho deste dia convida-nos a reflectir de modo particular na imagem do Pastor que dá a sua vida pelas suas ovelhas. Jesus quis que nos seus passos, como Ele, houvesse uma multidão de pastores, que, por sua vez, desse a sua vida para guardar as ovelhas e trazer de volta aquelas que se perderam.
Ele quis que cada sacerdote se assemelhasse com Ele, cumprisse com a sua graça a tarefa de conduzir o seu rebanho para as pastagens do Céu...os Sacramentos da Igreja são feitos para isto.
O “Domingo do Bom Pastor” é por isso um dia especial para os homens que se colocaram ao serviço exclusivo do Bom Pastor que é Cristo. Rezemos fervorosamente pelos exigentes e difíceis desafios e responsabilidades da cada pastor, e que no mundo haja muitos e santos sacerdotes!

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Como flores cheirosas

«Consagrei-os e chamei-os “meus Cristos”, porque os incumbi de me dar a vós.
Coloquei-os como flores cheirosas no corpo místico da Santa Igreja.
O anjo não possui esta dignidade, dei-a aos homens que escolhi como ministros.
Estabeleci-os como anjos, e eles devem ser anjos terrestres nesta vida.
Peço a qualquer alma a pureza e a castidade; desejo que ela me ame e ame ao próximo, ajudando-o como pode, com as suas orações, vivendo em união com ele.
Mas exijo ainda mais pureza dos meus ministros.
Peço-lhes um maior amor para comigo e para com o próximo, a quem eles devem administrar o Corpo e Sangue de meu Filho, com o ardor da caridade e a fome da salvação das almas, para glória e honra do meu nome.
Assim como os sacerdotes desejam a pureza do cálice onde é feito o sacrifício, Eu desejo a pureza e a clareza dos seus corações, das suas almas e dos seus espíritos.
E porque o corpo é o instrumento da alma, quero que eles o guardem numa pureza perfeita e não o manchem.
Que eles não se encham de orgulho, nem da ambição por altas distinções.
Que eles não sejam cruéis para com eles próprios e para com o próximo, pois eles não podem ser cruéis para com eles próprios sem o ser para com o próximo.
Se eles são cruéis para eles próprios, eles são cruéis para com as almas, porque não dão o exemplo de uma santa vida, não trabalham para livrar as almas do demónio e distribuir o Corpo e Sangue de meu Filho único, e a Mim, a verdadeira Luz, nos sacramentos da Igreja.»



Santa Catarina de Sena
Tratado sobre a oração
CXIII - A grandeza do SS. Sacramento
deve fazer entender a dignidade dos sacerdotes,
chamados a uma maior perfeição.





«Desejo que eles (os sacerdotes) sejam respeitados, não por eles mas por Mim e por causa da autoridade com que os revesti.
Este respeito nunca deve diminuir, mesmo quando a virtude diminuiria neles. Ele deve conservar-se para os maus e para os bons, porque Eu os fiz ministros do Sol, isto é, do Corpo e Sangue de meu Filho nos sacramentos.
Os bons e os maus têm a mesma dignidade.
Todos estão revestidos das mesmas funções, mas mostrei-te que os perfeitos têm as qualidades do sol porque iluminam e aquecem o próximo pelo fogo da sua caridade. Este fogo produz frutos e faz nascer virtudes nas almas daqueles que lhes são confiados. (…)
Deveis honrá-los, quaisquer sejam seus defeitos, por amor de Mim que os envio, e por amor da vida da graça que encontrareis no grande tesouro que eles vos dão, porque eles vos distribuem o Deus-Homem todo inteiro, isto é, o Corpo e Sangue de meu Filho, unido à minha natureza divina.
Deve-se lamentar e detestar as suas faltas; deve-se tentar agasalha-los do zelo da vossa caridade e da santidade das vossas orações; deve-se lavá-los de suas manchas com as vossas lágrimas, e Me apresentá-los com sincera intenção, para que a minha bondade os cubra da veste da caridade. (…)
Deveis orar por eles e não julgá-los, deixar-me ser Eu julgá-los.
Desejo poder fazer-lhe misericórdia pelas vossas orações.
Se eles não se converterem, a dignidade que eles receberam será a ruína deles; e se não mudarem, se não aproveitarem a grandeza da minha misericórdia, Eu, o Juiz supremo, não os atenderei na hora da morte, e enviá-los-ei para o fogo eterno.»



Santa Catarina de Sena,
Tratado sobre a oração
CXX – Respeito aos sacerdotes, bons e maus.



Catarina de Sena nasceu no ano 1347. Entrou na Ordem Terceira de S. Domingos quando era ainda adolescente. Trabalhou incansavelmente pela paz e concórdia entre as cidades, defendeu com ardor os direitos e a liberdade do Santo Padre e promoveu a renovação da vida religiosa. Escreveu importantes obras de espiritualidade. Morreu a 29 de Abril de 1380.
Em 1970, o Papa Paulo VI declarou-a Doutora da Igreja, sendo a única leiga a obter esta distinção. O Papa João Paulo II declarou-a co-padroeira da Europa, juntamente com Santa
Brígida da Suécia e Santa Teresa Benedita da Cruz.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Versus ad Orientem

Desde a nomeação de um novo cerimonário, Monsenhor Guido Marini, as celebrações em Roma têm cada vez mais elementos tradicionais litúrgicos pré-conciliares. Tronos, candelabros, crucifixos, paramentos de outros tempos voltaram nas celebrações papais. Atitudes, colocação dos celebrantes e acólitos também recordam um certo passado da Igreja.
No último domingo, na Missa da Solenidade do Baptismo do Senhor que ocorreu na Capela Sixtina, foi usado o altar encostado à parede do fundo do edifício. Por isso, o Santo Padre, que seguia o Missal de Paul VI (o actual), celebrou “em alguns momentos, de costas para os fiéis, com o olhar voltado para a Cruz, orientando assim a atitude e disposição de toda a assembleia”.
Algo de pouco habitual… e que não vai contra o Concílio Vaticano II, uma vez que os textos conciliares nunca fazem menção de altar voltado para o povo. Também a reforma litúrgica de Paulo VI não mudou a posição do sacerdote durante a Missa mas permitiu celebrar o Santo Sacrifício versus ad populum, virada para o povo.


Alguns analistas comentam esta escolha de Bento XVI como um desejo de mostrar que o Concílio Vaticano II e a Liturgia renovada não se inscrevem na ruptura mas na continuidade da Tradição litúrgica. Assim, para estes, a introdução de elementos da Missa Tridentina (que nunca foi revogada pelos Padres Conciliares) na Missa segundo o Missal de Paul VI, ajudariam a marcar melhor o carácter sagrado da Eucaristia e a evitar abusos nas celebrações, desejos e preocupações já referidos pelo Santo Padre na exortação apostólica “Sacramento da caridade”.
Missa de costas para o povo ou Missa versus ad Orientem, voltada para o Oriente?
Prefiro a segunda terminologia, pelo significado cristológico (Cristo =Oriente, Sol nascente).
Nos nossos dias, já não será bem assim por causa da construção das igrejas, cujo altar já não está obrigatoriamente dirigido para Leste.
Destas escolhas litúrgicas do Santo Padre, como o “Motu proprio” que liberaliza o Rito Tridentino, o mais difícil para mim é mesmo distanciá-los daqueles que defendem a superioridade da Missa de São Pio V, condenam Vaticano II e defendem o rosto de uma Igreja majestosa e poderosa. Por isso, ao princípio, fiquei um pouco perplexo com as mudanças papais, mas procurei aprofundar o tema e, realmente, não há nada de polémico, como fiéis de extremos (tradicionalistas e progressistas) o desejariam.
Mas a grande questão litúrgica é a beleza.
O Papa Bento XVI tem razão quando diz que a beleza litúrgica pressupõe arquitectura, textos e música de qualidade para exprimir a fé de uma comunidade… não para dar um espectáculo, mas para criar um clima de oração e transformar a vida.

Mas será para isso necessário ir buscar aos armários paramentos e atitudes de outro tempo, que não tem tanto a ver com a tradição litúrgica mas mais com estilos de época?


Ó Cristo,
Sol nascente do Oriente ,
conduz os fiéis da tua Igreja
à unidade da fé,
na celebração dos teus mistérios divinos.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Foi o mistério da Encarnação que me converteu!

Natal 1856, na paróquia de um bairro popular da cidade de Lião, França, António Chevrier, sacerdote há 6 anos, contempla o presépio.
Meditando na pobreza e na humildade de Cristo, ele recebe a graça de entrar profundamente no mistério da Encarnação, Deus que se faz homem.
Na sua oração, ele constata também que a humanidade continua a afundar-se, os pobres não são evangelizados, a Igreja e o mundo dos trabalhadores estão cada vez mais separados.
Ele percebe que deve converter-se a uma existência mais evangélica, viver o mistério da pobreza no seguimento de Jesus para “trabalhar eficazmente na salvação das almas”.
Conhecer Cristo, unir-se a Ele e fazê-l’O conhecer…tudo isso determina a sua vida de sacerdote.
Se Cristo convida os pobres ao banquete do reino, então ele, sacerdote, “outro Cristo”, também deve servi-los.
Primeiro os mais jovens. Em 1860, o padre Chevrier compra o “prado”, um antigo salão de dança. Lá, ele acolha, instrui e catequiza os filhos de operários.
Depois, ele procura formar padres pobres para os pobres. Assim nascem os sacerdotes e as religiosas do Instituto do Prado. Hoje a família do Prado está presente em 50 países.
A humildade de Chevrier é tão grande como o seu zelo, mas este “São Francisco de Assis da era industrial”, esgotado pelo trabalho e pela doença, morre aos 53 anos.
Em 1986, aquando da sua beatificação, João Paulo II deixou aos padres, religiosas e leigos do Prado, quatro grandes orientações, que servem perfeitamente para cada cristão:
“Ide ao encontro dos pobres para fazer deles verdadeiros discípulos de Jesus Cristo”;
“Que o vosso sinal distintivo seja sempre a simplicidade e a pobreza”;
“Falai de Jesus Cristo com a mesma intensidade de fé como o Padre Chevrier”;
“Apoiai-vos sempre em Jesus Cristo e na Igreja”.
Se o Natal transformou a vida do padre Chevrier, porque não a nossa?

«Foi ao meditar a pobreza de Nosso Senhor e da sua humilhação no meio dos homens que resolvi deixar tudo para viver o mais pobremente possível. Foi o mistério da Encarnação que me converteu!... Então decidi-me a seguir Nosso Senhor Jesus Cristo de mais perto. E o meu desejo é que vós próprios sigais de perto Nosso Senhor.»

«Dizia para mim mesmo: 'o Filho de Deus desceu à terra para salvar os homens e converter os pecadores. No entanto, que vemos? Quantos pecadores existem neste mundo!' Então resolvi seguir Nosso Senhor Jesus Cristo de mais perto para me tornar capaz de trabalhar eficazmente na salvação das almas.»


Beato António Chevrier

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

O seminário é tempo de caminho

«Caros amigos, é este o mistério da chamada, da vocação; mistério que abrange a vida de cada cristão, mas que se manifesta com maior evidência naqueles que Cristo convida a deixar tudo para segui-Lo mais de perto. O seminarista vive a beleza da chamada no momento que podemos definir como "enamorar-se". O seu ânimo está cheio de admiração que lhe faz dizer na oração: Senhor, por que exactamente eu? Mas o amor não tem um "por quê", é dom gratuito, ao qual se responde com o dom de si.
O seminário é tempo destinado à formação e ao discernimento. A formação, como bem sabeis, tem muitas dimensões, que convergem para a unidade da pessoa: ela compreende os âmbitos humano, espiritual e cultural. O seu objectivo mais profundo é fazer conhecer intimamente aquele Deus que em Jesus Cristo nos mostrou o seu rosto. Para isso, é necessário um profundo estudo da Sagrada Escritura como também da fé e da vida da Igreja, na qual a Escritura permanece como palavra viva.(…)
O seminário é tempo de caminho, de busca, mas sobretudo de descoberta de Cristo. De facto, somente na medida em que faz uma experiência pessoal de Cristo, o jovem pode compreender verdadeiramente a sua vontade e em consequência a própria vocação. Quanto mais conheceis Jesus tanto mais o seu mistério vos atrai; quanto mais O encontrais tanto mais estais impulsionados a procurá-Lo. É um movimento do espírito que dura toda a vida, e que encontra no seminário uma estação repleta de promessas, a sua "primavera".»


Bento XVI aos seminaristas, Colónia, 19 de Agosto de 2005



«Queridos Diáconos e Seminaristas, a vós também que ocupais um lugar especial no coração do Papa, uma saudação muito fraterna e cordial.
A jovialidade, o entusiasmo, o idealismo, o ânimo em enfrentar com audácia os novos desafios, renovam a disponibilidade do Povo de Deus, tornam os fiéis mais dinâmicos e fazem a Comunidade Cristã crescer, progredir, ser mais confiante, feliz e optimista.
Agradeço o testemunho que ofereceis, colaborando com os vossos Bispos nos trabalhos pastorais das dioceses. Tenhais sempre diante dos olhos a figura de Jesus, o Bom Pastor, que "veio não para ser servido, mas para servir e dar sua vida para resgatar a multidão" (Mt 20,28).
Sede como os primeiros diáconos da Igreja: homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo, de sabedoria e de fé (Act 6, 3-5).
E vós, Seminaristas dai graças a Deus pelo apelo que Ele vos faz. Lembrai-vos que o Seminário é o "berço da vossa vocação e palco da primeira experiência de comunhão". Rezo para que sejais, se Deus quiser, sacerdotes santos, fiéis e felizes em servir a Igreja!»


Bento XVI na Basílica de Aparecida, 12 de Maio de 2007

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Rosto de: Karl Leisner, matrícula 22356, padre

Há dias, tomei conhecimento de um belo testemunho de amor ao sacerdócio: Karl Leisner, que hoje, quero partilhar convosco.

Nascido na Alemanha em 1915, Karl passa a sua juventude em Clèves onde participa activamente nos movimentos da juventude católica nos anos 30.

Estes anos são também determinantes para a sua evolução espiritual e religiosa: os seus jornais e as suas meditações mostram a importância que atribui à leitura da Palavra de Deus e à Eucaristia. Animado de um sentido profundo de responsabilidade, quer transpor a sua fé católica na sua vida, ir mais longe na oração e no amor do próximo. Mesmo nas situações mais difíceis, no campo de concentração, ele guardará a alegria, a paz, que tocarão os soldados SS. O seu amor pela liberdade, pelas discussões sem constrangimento, pela natureza, fazem dele um excelente director de jovens, mas tornarão mais duros os rigores da detenção.

No início dos anos 30, Karl Leisner é estudante em Clèves. Aplica-se em estabelecer uma disciplina interior e a conservar uma vida espiritual intensa. Esta vontade de viver de acordo com as regras que se fixou o ajude a proteger-se da influência nazi, e mais tarde a sobreviver nas condições mais difíceis. No sofrimento, encontrará ainda a força de vir em ajuda aos outros. A partir de 1933, é um oponente determinado à Hitler e ao seu regime.

Antes mesmo de passar o "baccalauréat", em 1934, escolhe fazer estudos de teologia para se tornar padre. Durante o seu primeiro semestre em Münster, é-lhe confiado a responsabilidade dos movimentos da juventude diocesanos. Tenta continuar a reunir os jovens e dar-lhes armas, no plano interior, de modo que sejam capazes de opor-se ao nazismo. As suas actividades são supervisionadas pela Gestapo que confisca os jornais que redige.

Em 1936-37, durante um semestre de estudos à Fribourg-en-Brisgau, encontra uma jovem rapariga e pensa abandonar o apelo ao sacerdócio para fundar uma família. Sai deste tempo de dúvidas, reforçado na sua vocação: a sua vida será doravante orientada pelo desejo de se tornar padre. As linhas que escreve durante este período contêm meditações de uma grande riqueza: “Deves crer, deves ousar. Vai de Cristo no nosso país. É o que há de maior! Sacrifício, combate, coragem! ““Cristo, minha vida, meu amor, minha paixão, abraça-me, ilumina-me " (14 de Abril de 1938).

A 25 de Março de 1939, é ordenado diácono; mas pouco depois, atingido de tuberculose, interrompe qualquer actividade para se tratar. Denunciado à Gestapo devido a comentários imprudentes contra o regime, é encarcerado em Fribourg-en-Brisgau antes de ser conduzido ao campo de Sachsenhausen.

O 13 de Dezembro de 1940, é transferido ao campo de Dachau sob o número 22356. Cerca de 2800 padres alemães, austríacos, polacos e de outros países da Europa, bem como pastores protestantes, são presos no “Block 26”. Há lá padres de 144 dioceses, de 40 ordens diferentes. A partir de 1941, os padres têm o direito de celebrar a missa todos os dias numa capela, da manhã até às 17 horas, antes da chamada. Os padres esforçam-se sempre por manter no campo uma vida espiritual.
As privações, o trabalho e os rigores do inverno agravam a doença de Karl que, a partir de 1941, é obrigado a juntar-se ao “block” dos doentes, barraca onde os enfermos apinham-se num espaço estreito. Karl Leisner guarda contudo sempre à esperança a ser ordenado padre.

A detenção e a transferência para Dachau de Dom Piguet, bispo de Clermont-Ferrand, no Outono 1944, tornam possível a ordenação de Karl no campo. Um padre jesuita encarrega-se de convencer Dom Piguet da importância e do valor simbólico desta ordenação : “A ordenação de um padre neste campo de exterminação de padres seria uma vingança de Deus e um sinal de vitória do sacerdócio sobre o nazismo.» Os preparativos começam secretamente: conseguir a autorização do bispo da diocese e a do bispo de Münster, arranjar os óleos santo e os ornamentos necessários, criar um anel de bispo e uma croça episcopal sobre a qual são gravadas as palavras “Victor dentro vinculis" (Vencedor dos grilhões), palavras que resumem a situação. Karl Leisner é ordenado clandestinamente na capela do campo de Dachau a 17 de Dezembro de 1944. A sua primeira missa é a 26 de Dezembro de 1944.
A sua doença entra numa fase final. É libertado do campo a 4 de Maio de 1945 e transferido imediatamente ao sanatório de Planegg, perto de Munique, onde morre a 12 de Agosto de 1945.

Karl Leisner torna-se muito rapidamente um modelo para os jovens da sua região. A 23 de Junho de 1996, no estádio olímpico de Berlim, o papa João Paulo II beatifica Karl Leisner, e também Bernhard Lichtenberger, sacerdote e teólogo, que morreu no campo de concentração de Dachau em 1943.