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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Mártir de Cristo Rei

Miguel Agostinho Pró Juarez nasce em 1891 em Guadalupe, no México, numa família abastada e profundamente cristã.
O pequeno 'Miguelito', como é chamado, mostra ser um rapaz muito alegre e brincalhão. Crescido, ele abandona durante algum tempo a prática religiosa, mas volta a ela, movido pela entrada da sua irmã num convento … é o ponto de partida da sua vocação.
Aos 20 anos, junta-se aos jesuítas e faz os seus primeiros votos a 15 de Agosto de 1913. Atormentados pelo governo mexicano anti-clerical, os jesuítas em formação exilam-se para os Estados Unidos. Miguel irá também para Espanha, Nicarágua, e Bélgica, onde completará a sua formação na casa dos jesuítas franceses, também exilado pelo seu governo. Apesar da sua débil saúde e contínuas dores no estômago, o jovem jesuíta se distingue pela sua alegria constante e expansiva. É ordenado sacerdote com 34 anos na cidade de Amiens (França), em Agosto de 1925. Ele que é de uma família rica, podendo até suceder a seu pai, preferiu os pobres, em particular, os mineiros belgas e franceses, interessando-se pela pastoral do trabalho e a JOC (Juventude Operária Católica).
Apesar da escalada de perseguições no México com a chegada ao poder do General Calles, os superiores jesuitas pensam que o ar do país poderia ser benéfico à saúde do Padre Miguel. Ele regressa ao país natal em 1926, poucos dias depois de um decreto proibir a presença de sacerdotes. Na Cidade do México, durante mais de um ano, ele exerce o seu ministério clandestinamente. As igrejas estão fechadas e o culto público proibido. Mas o Padre Miguel Pró tem a arte de agir sem ser apanhado. Faz-se chamar "Cocol '(nome de um pão doce que ele gostava na sua infância), usa todo o tipo de disfarces, como vestir-se de agente da polícia para visitar as prisões. Um dia, quando a casa onde ele se escondia é cercada, ele finge ser inspector de polícia, queixando-se a outro agente de não se empenhar o suficiente para apanhar “aquele maldito Pró”, prometendo intensificar a investigação. Outra vez, apertado pela presença policial, ele agarra a mão de uma jovem mulher pedindo: "Ajuda-me, sou um padre”, e assim, o pseudo casal passa despercebido frente às forças da lei.
Nesta vida de proscrito, a Eucaristia é a força que anima o Padre Pró, e para alimentar o seu rebanho, ele organiza "estações eucarísticas”: missas celebradas todos os dias numa casa diferente; arrisca-se ainda mais em ser preso, adicionando ao seu ministério espiritual secreto, o serviço caritativo aos pobres.
Mas um dia, ele é apanhado, erradamente suspeito de conspirar com o seu irmão, também sacerdote, de um ataque contra o ex-presidente, o General Obregon. Todos sabem da sua inocência, mas o Padre Miguel Pró é sumariamente condenado… o General Calles não tolera a actividade deste sacerdote tão esperto.
A 23 de Novembro de 1927, Pró é levado ao lugar de execução.
Lá, depois de rezar e recusar ser vendado, ele levanta a voz, poderosa, perdoando a todos e clamando a Deus a sua inocência. Em seguida, ele abre os braços em cruz, segurando um crucifixo numa mão e um rosário na outra, e antes de ser fuzilado, ele grita: "Viva Cristo Rei!"
Para o seu funeral, qualquer manifestação pública é proibida, mas mais de 20 mil pessoas seguem o cortejo às janelas ou em silêncio nas ruas. Entre os sacerdotes mártires deste período, o Padre Miguel Pró é o mais conhecido.
Ele é beatificado pelo Papa João Paulo II a 25 de Agosto de 1988



Fotos do Martírio do Beato Miguel Pró

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Rosto: Isabel da Trindade

Isabel Catez nasceu em 1881 em Dijon.
Ela é uma menina muito viva, ama a vida: viagens, concertos, amizades, serviço da Igreja. Ela é sensível à beleza, e porque começou cedo a arte da música, ela obtém o primeiro prémio de piano no conservatório da sua cidade.
Ela é também irresistivelmente atraída por Deus. “Sinto-O tão vivo na minha alma. Só tenho que recolher-me para encontrá-Lo dentro de mim, e faz toda a minha felicidade. Ele colocou no meu coração uma sede infinita e uma tão grande necessidade de amar, que só Ele pode saciar.”

Aos 21 anos, ela entra no Carmelo de Dijon.
No seu convento, ela escreve inúmeras cartas à família e aos amigos. Ela guarda a preocupação do mundo e da Igreja. “A minha alma agrada-se em unir-se à vossa, numa mesma oração, para a Igreja e a diocese.” Ela acompanha o percurso espiritual dos seus íntimos na vida comum de leigos, “todos chamados, todos amados”. “Mesmo no meio do mundo, pode-se ouvir Deus no silêncio de um coração que só deseja pertencer-Lhe.”

No fim da sua vida, atingida por uma doença incurável, ela transcreve a sua experiência e a sua oração em cadernos. “Quando o peso do corpo se faz sentir e cansa a vossa alma, não desesperais, mas ide pela fé e o amor Àquele que disse: ‘Vinde a mim e Eu vos aliviarei.‘ Para aqueles que perseverem animados, não vos deixeis abater no pensamento das vossas misérias. O grande Apóstolo Paulo disse: ‘Onde o pecado abundou, a graça superabundou.’ "
Isabel morre a 9 de novembro de 1906, após 9 meses de agonia. As suas últimas palavras são: “Eu vou para a Luz, o Amor, a Vida.”

Isabel da Trindade foi beatificada pelo Papa João Paulo II a 25 de novembro de 1984.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Ao pé do Sacrário estamos todos perto

«Hoje saí de casa quando começava a anoitecer. Atravessei as ruas principais da cidade e, um pouco aturdido com o barulho das pessoas, dos carros e as luzes, me dirigi aonde meu espírito necessitava, a Casa de Deus. Estava quase deserta; uma mulher recitava orações diante de um altar mal iluminado; outro grupo de mulheres cochichavam junto a um confessionário, e o Senhor, Deus da criação, o Juiz dos vivos e dos mortos, estava no Sacrário esquecido pelos homens. Na paz e no silêncio da Igreja, minha alma se abandonava em Deus. Via passar diante de mim todas as misérias e todas as desgraças dos homens, seus ódios e suas lutas, e pensava que se este Deus que se oculta num pouco de pão não estivesse tão abandonado, os homens seriam mais felizes, mas não querem sê-lo.»



«Uma multidão de Sacrários existem na terra, mas somente um Deus, que é Jesus Sacramentado. Consoladora verdade que faz estar tão unidos o monge no seu Coro, o missionário em terra de infiéis e o secular na sua paróquia. Não há distâncias, nem há idades. Ao pé do Sacrário estamos todos perto. Deus nos une. Peçamos-Lhe, por mediação de Maria, que algum dia no céu, possamos contemplar a esse Deus que por amor ao homem se oculta sob as espécies do pão e do vinho. Assim seja.»



São Rafael Arnaiz Baron (1911-1938)
Monge espanhol da Ordem de Cister,
canonizado a 11/10/2009 pelo Papa Bento XVI.



Blog sobre São Rafael Arnaiz Baron


Não conhecia a figura deste monge espanhol...gostei logo.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Como flores cheirosas

«Consagrei-os e chamei-os “meus Cristos”, porque os incumbi de me dar a vós.
Coloquei-os como flores cheirosas no corpo místico da Santa Igreja.
O anjo não possui esta dignidade, dei-a aos homens que escolhi como ministros.
Estabeleci-os como anjos, e eles devem ser anjos terrestres nesta vida.
Peço a qualquer alma a pureza e a castidade; desejo que ela me ame e ame ao próximo, ajudando-o como pode, com as suas orações, vivendo em união com ele.
Mas exijo ainda mais pureza dos meus ministros.
Peço-lhes um maior amor para comigo e para com o próximo, a quem eles devem administrar o Corpo e Sangue de meu Filho, com o ardor da caridade e a fome da salvação das almas, para glória e honra do meu nome.
Assim como os sacerdotes desejam a pureza do cálice onde é feito o sacrifício, Eu desejo a pureza e a clareza dos seus corações, das suas almas e dos seus espíritos.
E porque o corpo é o instrumento da alma, quero que eles o guardem numa pureza perfeita e não o manchem.
Que eles não se encham de orgulho, nem da ambição por altas distinções.
Que eles não sejam cruéis para com eles próprios e para com o próximo, pois eles não podem ser cruéis para com eles próprios sem o ser para com o próximo.
Se eles são cruéis para eles próprios, eles são cruéis para com as almas, porque não dão o exemplo de uma santa vida, não trabalham para livrar as almas do demónio e distribuir o Corpo e Sangue de meu Filho único, e a Mim, a verdadeira Luz, nos sacramentos da Igreja.»



Santa Catarina de Sena
Tratado sobre a oração
CXIII - A grandeza do SS. Sacramento
deve fazer entender a dignidade dos sacerdotes,
chamados a uma maior perfeição.





«Desejo que eles (os sacerdotes) sejam respeitados, não por eles mas por Mim e por causa da autoridade com que os revesti.
Este respeito nunca deve diminuir, mesmo quando a virtude diminuiria neles. Ele deve conservar-se para os maus e para os bons, porque Eu os fiz ministros do Sol, isto é, do Corpo e Sangue de meu Filho nos sacramentos.
Os bons e os maus têm a mesma dignidade.
Todos estão revestidos das mesmas funções, mas mostrei-te que os perfeitos têm as qualidades do sol porque iluminam e aquecem o próximo pelo fogo da sua caridade. Este fogo produz frutos e faz nascer virtudes nas almas daqueles que lhes são confiados. (…)
Deveis honrá-los, quaisquer sejam seus defeitos, por amor de Mim que os envio, e por amor da vida da graça que encontrareis no grande tesouro que eles vos dão, porque eles vos distribuem o Deus-Homem todo inteiro, isto é, o Corpo e Sangue de meu Filho, unido à minha natureza divina.
Deve-se lamentar e detestar as suas faltas; deve-se tentar agasalha-los do zelo da vossa caridade e da santidade das vossas orações; deve-se lavá-los de suas manchas com as vossas lágrimas, e Me apresentá-los com sincera intenção, para que a minha bondade os cubra da veste da caridade. (…)
Deveis orar por eles e não julgá-los, deixar-me ser Eu julgá-los.
Desejo poder fazer-lhe misericórdia pelas vossas orações.
Se eles não se converterem, a dignidade que eles receberam será a ruína deles; e se não mudarem, se não aproveitarem a grandeza da minha misericórdia, Eu, o Juiz supremo, não os atenderei na hora da morte, e enviá-los-ei para o fogo eterno.»



Santa Catarina de Sena,
Tratado sobre a oração
CXX – Respeito aos sacerdotes, bons e maus.



Catarina de Sena nasceu no ano 1347. Entrou na Ordem Terceira de S. Domingos quando era ainda adolescente. Trabalhou incansavelmente pela paz e concórdia entre as cidades, defendeu com ardor os direitos e a liberdade do Santo Padre e promoveu a renovação da vida religiosa. Escreveu importantes obras de espiritualidade. Morreu a 29 de Abril de 1380.
Em 1970, o Papa Paulo VI declarou-a Doutora da Igreja, sendo a única leiga a obter esta distinção. O Papa João Paulo II declarou-a co-padroeira da Europa, juntamente com Santa
Brígida da Suécia e Santa Teresa Benedita da Cruz.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Fora e dentro da Religião, serviu a Deus em toda a vida

D. Nuno Álvares Pereira, Nuno de Santa Maria, será a partir de 26 de Abril o novo Santo português, juntando assim o seu nome a uma lista que se estende desde antes do início da nacionalidade. A última canonização de um português aconteceu quando Paulo VI, a 3 de Outubro de 1976, declarou Santa a religiosa Beatriz da Silva.
Fundador da Casa de Bragança, D. Nuno nasceu em Santarém a 24 de Junho de 1360. Como Condestável do reino de Portugal, foi militar invencível; mas, vencendo se a si mesmo, pediu a admissão, como irmão leigo, na Ordem do Carmelo.
Morreu no domingo da Ressurreição do ano 1431 (1 de Abril).



«Admirável foi este santo varão pelas muitas e especiais virtudes que cultivou, não só depois do divórcio que fez com o mundo, mas também antes de receber o hábito religioso. (…)Exemplaríssima foi a humildade com que, fora e dentro da Religião, serviu a Deus em toda a vida. Como árvore frutífera cujos ramos mais se inclinam quando é maior o peso dos seus frutos, assim este virtuoso varão mais submisso se mostrava com os triunfos e com as virtudes. (…)
Depois de religioso, foi o servo de Deus mais admirável nos exercícios da caridade. Não se contentava com distribuir as esmolas pelo seu pagador, como no século fazia; mas pelas próprias mãos, na portaria deste convento, remediava a cada um a sua necessidade.Não menos caritativo era para com o seu próximo nas ocasiões que se lhe ofereciam de lhe acudir nas enfermidades. Assistia aos pobres nas doenças, não só com os alimentos necessários, mas com os regalos administrados por suas próprias mãos.Velava noites inteiras por não faltar com a assistência aos que nas doenças perigavam.Continuando o Venerável Nuno de Santa Maria as asperezas da vida, sem nunca afrouxar dos seus primeiros fervores, chegou ao ano de 1431 tão destituído de forças, que no corpo apenas conservava alguns alentos para poder mover se.Entrando enfim na última agonia, rogou que, para consolação do seu espírito, lhe lessem a Paixão de Cristo escrita pelo evangelista São João; logo que chegou à cláusula do Evangelho onde o mesmo Cristo, falando com sua Mãe Santíssima a respeito do amado discípulo, lhe diz: Eis o vosso filho, deu ele o último suspiro e entregou sua ditosa alma ao mesmo Senhor que a criara.»


Da Crónica dos Carmelitas da antiga e regular observância nos Reinos de Portugal


Combati o bom combate,
terminei a carreira,
guardei a fé.
O Senhor me dará a coroa da justiça.

(2 Tim 4, 7-8)

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Rosto de Clara de Assis

«Coloca o teu espírito diante do espelho da eternidade, deixa a tua alma envolver-se no esplendor da glória, une-te de coração Àquele que é a incarnação da essência divina, e por esta contemplação, transforma-te toda à imagem da sua divindade. Conseguirás assim experimentar o que só os seus amigos sentem; provarás a doçura escondida que o próprio Deus reservou, desde o princípio, àqueles que O amam.
Sem conceder um só olhar a todas as seduções enganadoras pelas quais o mundo aprisiona os pobres cegos que se agarram a ele, ama então de todo o teu ser Aquele que por teu amor se entregou todo também, Ele cuja beleza é admirada pelo sol e pela lua, Ele que garante recompensas de grandeza e valor sem limites. Falo do Filho do Altíssimo que a Virgem deu à luz sem deixar de ser virgem. Associa-te a esta doce Mãe que deu ao mundo esta criança que os céus não podiam conter; ela que no entanto O albergou no pequeno claustro de seu ventre e O levou no seu seio virginal. (…)
Assim como a gloriosa Virgem das virgens O levou materialmente, assim poderás sempre levá-l’O espiritualmente no teu corpo casto e virginal se seguires o seu exemplo, particularmente a sua humildade e a sua pobreza; poderás conter em ti Aquele que te contem, a ti e ao universo, possuindo-O de maneira bem mais real e concreta do que poderias possuir os bens perecíveis deste mundo.»


3ª carta de Santa Clara de Assis a Inês de Praga



* * *

Santa Clara nasceu em Assis, Itália, por volta de 1194, numa família rica e nobre.
Clara era filha primogénita de Favarone e Hortulana e tinha mais duas irmãs, Inês e Beatriz.
Clara sonhava com uma vida cheia de sentido, que lhe trouxesse uma verdadeira felicidade.
Depois de conversar muito com Francisco de Assis, seduzida pelo estilo de vida de seu amigo que deixara tudo para seguir a Cristo, saiu de casa no Domingo de Ramos de 1212, sorrateiramente em plena noite, acompanhada apenas de sua prima Pacífica e de outra fiel amiga. Foi procurar Francisco na Igreja de Santa Maria dos Anjos, e lá, frente ao altar, o Povorello lhe cortou os longos e dourados cabelos, cobrindo-lhe a cabeça com um véu, sinal de que Clara seria doravante Esposa de Cristo. Nem a ira de seus parentes, nem as lágrimas de seus pais conseguiram fazê-la retroceder no seu propósito. Poucos dias depois, a sua irmã Inês juntou-se a ela, imbuída do mesmo ideal. Mais tarde é a sua mãe, Hortulana, juntamente com a terceira filha Beatriz, que seguiriam Clara, indo morar com ela no convento de São Damião, que foi a primeira moradia das seguidoras de São Francisco.
Ao longo dos tempos, rainhas, princesas e humildes mulheres, escolheram seguir o exemplo de Clara de Assis, para viver, à luz do Evangelho, a fascinante aventura das Damas Pobres, muitas das quais se tornaram grandes exemplos de santidade para toda a Igreja.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Dois rostos de desejo ecuménico

Leopoldo Mandic nasceu na Dalmácia, actual Croácia, em 12 de Maio de 1866. Os pais, católicos fervorosos, deram-lhe o nome de Bogdan, que significa "dado por Deus". Desde pequeno apresentou como características a constituição física débil e o carácter forte e determinado.
Nessa época, a região da Dalmácia vivia um ambiente social e religioso, marcados por profundas divisões entre católicos e ortodoxos. Essa situação incomodava o espírito do pequeno Bogdan, que decidiu dedicar a sua vida à reconciliação dos cristãos orientais com Roma.
Aos 16 anos ingressou na Ordem de São Francisco de Assis, em Údine, Itália, adoptando o nome de Leopoldo. Foi ordenado sacerdote em Veneza em 1890.
Leopoldo foi destinado aos serviços pastorais nos conventos capuchinhos, por causa da saúde precária. Assim, com grande espírito de fé, iniciou o ministério do confessionário, onde este homem de pequena estatura (1m40) se tornou o "gigante do confessionário", exercendo até à sua morte.
Estabelecido na cidade de Pádua, famosa pelos restos mortais de Santo António (de Lisboa), Leopoldo dedicava quase doze horas por dia ao ministério da confissão. Sua fama espalhou-se e todos o solicitavam como confessor.
Todo o seu apostolado foi num cubículo de madeira, durante trinta e três anos seguidos, sem tirar um só dia de férias ou de descanso…tudo oferecido alegremente a Deus.
Frei Leopoldo Mandic morreu no dia 30 de Julho de 1942 em Pádua. O seu funeral provocou uma forte adesão popular e a fama de sua santidade se difundiu, sendo beatificado em 1976. O Papa João Paulo II o incluiu no catálogo dos santos, em 1983, declarando-o herói do confessionário e "apóstolo da unidade dos cristãos", um modelo para os que se dedicam ao ministério da reconciliação.



Maria Gabriella Sagheddu nasceu em Dorgali, na Sardenha, no ano de 1914 numa família de pastores.
Aos 21 anos decidiu consagrar-se a Deus e entrou no Mosteiro Cistercense de Grottaferrata, uma comunidade pobre, governada pela Madre M. Pia Gullini que tinha uma grande sensibilidade e um grande amor pela causa ecuménica.
Quando a Madre M. Pia, solicitada pelo Pe. Couturier, apóstolo do ecumenismo e impulsionador da Semana de oração pela Unidade, apresentou à comunidade o pedido de orações e de oferecimentos pela grande causa da Unidade dos Cristãos, a Irmã Maria Gabriella sentiu-se logo comprometida e chamada a oferecer a sua jovem vida."Sinto que o Senhor me pede", confessara à Abadessa. "Sinto-me chamada mesmo quando não o quero pensar."
Foi através de um caminho rápido e direito, entregue à obediência, consciente de sua fragilidade, e tendo como único desejo "a vontade de Deus e a Sua glória", que Gabriella alcançou aquela liberdade que a impelia a conformar-se a Jesus na sua Paixão. Oferecendo a Deus a sua doença (tuberculose) e após meses de sofrimento, foi na tarde do dia 23 de Abril de 1939, Domingo do Bom Pastor, no qual o evangelho proclamava:"Haverá um só rebanho e um só Pastor", que Gabriella morre.
Seu corpo, encontrado intacto quando foi feito o reconhecimento em 1957, repousa agora numa capela adjacente ao Mosteiro de Vitorchiano, para onde se transferiu a comunidade de Grottaferrata.
Foi beatificada por João Paulo II a 25 de Janeiro de 1987, quarenta e quatro anos depois da sua morte, na Basílica de São Paulo, no dia da Festa da Conversão do Apóstolo e da conclusão da Semana de Orações pela Unidade dos Cristãos.


São Leopoldo Mandic, Beata Maria Gabriella, rogai por nós!
Rogai para que haja um só rebanho e um só Pastor!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Foi o mistério da Encarnação que me converteu!

Natal 1856, na paróquia de um bairro popular da cidade de Lião, França, António Chevrier, sacerdote há 6 anos, contempla o presépio.
Meditando na pobreza e na humildade de Cristo, ele recebe a graça de entrar profundamente no mistério da Encarnação, Deus que se faz homem.
Na sua oração, ele constata também que a humanidade continua a afundar-se, os pobres não são evangelizados, a Igreja e o mundo dos trabalhadores estão cada vez mais separados.
Ele percebe que deve converter-se a uma existência mais evangélica, viver o mistério da pobreza no seguimento de Jesus para “trabalhar eficazmente na salvação das almas”.
Conhecer Cristo, unir-se a Ele e fazê-l’O conhecer…tudo isso determina a sua vida de sacerdote.
Se Cristo convida os pobres ao banquete do reino, então ele, sacerdote, “outro Cristo”, também deve servi-los.
Primeiro os mais jovens. Em 1860, o padre Chevrier compra o “prado”, um antigo salão de dança. Lá, ele acolha, instrui e catequiza os filhos de operários.
Depois, ele procura formar padres pobres para os pobres. Assim nascem os sacerdotes e as religiosas do Instituto do Prado. Hoje a família do Prado está presente em 50 países.
A humildade de Chevrier é tão grande como o seu zelo, mas este “São Francisco de Assis da era industrial”, esgotado pelo trabalho e pela doença, morre aos 53 anos.
Em 1986, aquando da sua beatificação, João Paulo II deixou aos padres, religiosas e leigos do Prado, quatro grandes orientações, que servem perfeitamente para cada cristão:
“Ide ao encontro dos pobres para fazer deles verdadeiros discípulos de Jesus Cristo”;
“Que o vosso sinal distintivo seja sempre a simplicidade e a pobreza”;
“Falai de Jesus Cristo com a mesma intensidade de fé como o Padre Chevrier”;
“Apoiai-vos sempre em Jesus Cristo e na Igreja”.
Se o Natal transformou a vida do padre Chevrier, porque não a nossa?

«Foi ao meditar a pobreza de Nosso Senhor e da sua humilhação no meio dos homens que resolvi deixar tudo para viver o mais pobremente possível. Foi o mistério da Encarnação que me converteu!... Então decidi-me a seguir Nosso Senhor Jesus Cristo de mais perto. E o meu desejo é que vós próprios sigais de perto Nosso Senhor.»

«Dizia para mim mesmo: 'o Filho de Deus desceu à terra para salvar os homens e converter os pecadores. No entanto, que vemos? Quantos pecadores existem neste mundo!' Então resolvi seguir Nosso Senhor Jesus Cristo de mais perto para me tornar capaz de trabalhar eficazmente na salvação das almas.»


Beato António Chevrier

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Rosto de: Franz Jägerstätter

No passado dia 26 de Outubro de 2007, em Linz, Áustria, foi beatificado Franz Jägerstätter, um camponês e católico austríaco, pai de três filhas, objector de consciência durante a II Guerra Mundial, que aos 36 anos de idade, foi decapitado a 9 de Agosto de 1943, em Berlim. A sua esposa, Franziska, de 94 anos, esteve presente na celebração da beatificação.
Em 1938, o Beato Franz, citando uma passagem das cartas de São Pedro: "Há que obedecer a Deus antes de obedecer aos homens", declinou integrar qualquer organização politica, declarando-se abertamente oposto ao Nacional-Socialismo de Hitler.
Na sua aldeia, ele foi o único a votar contra o “Anschluss”- Anexação da Áustria pela Alemanha Nazi, e a recusar combater pelo Terceiro Reich.
Preso, julgado “desertor e traidor” por um tribunal militar, foi condenado à decapitação, morrendo mártir da fé aos olhos da Igreja.
Franz Jägerstätter, “um homem comum, um cidadão normal, um vulgar chefe de família, que não exercia qualquer ministério na Igreja, nem tão pouco era teólogo, nem sequer um homem letrado, foi contudo capaz de entender, viver e testemunhar a sua fé em Jesus Cristo até às últimas consequências, até ao derramamento do sangue.”
Pouco antes da sua morte, escrevia numas notas:
“Escrevo com as mãos amarradas, mas mais vale assim do que ter a vontade acorrentada.”
“Nem a prisão, nem as correntes e nem sequer a morte podem separar um homem do amor de Deus e roubar-lhe a sua livre vontade. A potência de Deus é invencível.”

“Se Deus não me tivesse dado a graça e a força de morrer, se necessário, para defender a minha fé, provavelmente faria a mesma coisa que faz simplesmente a maior parte das pessoas. Na verdade, Deus pode conceder a própria graça a cada um de nós tal como Ele quer. Se outros tivessem recebido as muitas graças que eu recebi, provavelmente, teriam feito muitas mais coisas e melhores que eu.
Talvez muitos pensam que são obrigados a suportar o martírio e a morrer pela própria fé só quando se pretende que abandonem a Igreja. Eu atrevo-me a dizer muito abertamente que quem está pronto para sofrer e para morrer, em vez de ofender Deus com o mais pequeno pecado venial, está também disposto a morrer pela sua fé. Estes terão maior mérito do que quem é condenado por recusar abjurar publicamente a Igreja, porque neste caso existe simplesmente o dever, se não se quer cometer pecado grave, de morrer em vez de obedecer.”

Estas palavras são de facto um grande testemunho de fé, transponível para a sociedade actual.
Até onde aguentaríamos a provação, a perseguição por causa das nossas convicções?
Até onde iríamos?
Franz Jägerstätter foi até ao fim…com a fé no paraíso!



Fotos: Beato Franz Jägerstätter e o seu túmulo, encostado à Igreja paroquial da sua aldeia natal.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Rosto de: Charbel Makhlouf

A Igreja de Cristo é bela, porque celebra no seu calendário litúrgico, tantos santos de etnias e culturas diferentes…sinais da presença do Evangelho em todo o mundo!

A 24 de Julho, celebra-se a memória de São Charbel (ou Sarbélio) Makhlouf, símbolo de união entre Oriente e Ocidente.
Beatificado no dia 5 de Dezembro de 1965 e canonizado no dia 9 de Outubro de 1977, foi o primeiro confessor do Oriente venerado de acordo com o procedimento da Igreja Católica.
Libanês, São Charbel foi membro da Ordem Libanesa Maronita e filho da Igreja Maronita.
“Maronita” porque deve o seu nome a um anacoreta oriental, São Maron (Marun), falecido em 410.
A Igreja Maronita, cujo centro se encontra no Líbano, tem como língua litúrgica o aramaico, a língua falada por Cristo; e ao longo dos séculos permaneceu sempre católica, apostólica, romana. Ela foi à única Igreja oriental que ficou sempre ligada ao Santo Padre.

São Charbel, nasceu em 1828, numa pequena aldeia chamada Beka´Kafra, no Líbano.Desde criança sentia-se atraído pelo Senhor.
Gostava de rezar nas grutas para satisfazer a sua sede de Deus.
Aos 23 anos de idade, percebeu que era o momento de se entregar a Deus como monge, na Ordem Libanesa Maronita.
Deixou a sua casa, sem se despedir da mãe e família. Não queria que eles sofressem com a dor da despedida.
Mudou o seu nome de Yússef (José) para Charbel (um mártir do século II). Desse modo, esquecia o passado, morrendo para o mundo e vivendo para Deus. Fez os votos de pobreza, castidade e obediência.
Após seis anos de preparação, foi ordenado sacerdote e passou a viver no mosteiro de Annaya. Jamais se queixou da vida comunitária ou das incompreensões que sofria.
Era profundamente humilde e, anos mais tarde, pediu permissão para viver isolado, como eremita, consagrando-se ao trabalho no campo, à oração e à penitência.
No dia 16 de dezembro de 1898, o P. Charbel ao recitar durante a Missa a prece "Pai da verdade, eis o Vosso Filho, vítima do vosso agrado! Aceitai-o", foi atacado pela paralisia. Depois de dias de agonia, na noite do Natal desse mesmo ano, deixou a vida terrena, e nasceu para o céu.
No mosteiro de Annaya (Líbano), o túmulo de São Charbel é visitado por muitos peregrinos ao longo do ano. Além de muitas graças e curas alcançadas ao visitar o sepulcro do santo eremita, numerosos cristãos afastados dos sacramentos ou mesmo da Igreja, mudam de conduta e adoptam uma vida coerente e cristã.

O insistente apego dos cristãos maronitas pelas montanhas libanesas, faz com que São Charbel, como São Marun (séc IV-V), o Beato Nimatullah Kassab Al-Hardini (séc XIX) e a Beata Rafqa (séc XIX-XX), sejam símbolos de resistência e defesa ao longo de séculos, da fé e identidade cristãs do Líbano no meio de um Islão imponente.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Rosto de: Bartolomeu dos Mártires

Dom Frei Bartolomeu dos Mártires foi muito cedo reconhecido pelo Povo de Deus como o “Arcebispo Santo”... no entanto, poucos portugueses o conhecem.

Bartolomeu do Vale, nascido em Lisboa em 1514, adoptou o nome de Bartolomeu dos Mártires por devoção a Nossa Senhora dos Mártires, em cuja paróquia foi baptizado. Professou aos 15 anos na Ordem de S. Domingos, onde recebeu sólida formação religiosa e doutrinal. Foi Mestre de Filosofia e Teologia nas escolas dominicanas de S. Domingos de Benfica, Batalha e Évora, contribuindo para a renovação dos estudos teológicos em Portugal.


Nomeado Arcebispo de Braga em 1558, entregou-se inteiramente à sua missão episcopal. Chamado a participar no Concílio de Trento, as suas intervenções influenciaram a orientação do Concílio, evidenciando dotes de Pastor zeloso e humilde, vigoroso e competente. S. Carlos Borromeu considerou-o “modelo de bispos e espelho de virtudes cristãs”. Após o regresso, empenhou-se na dedicação pastoral às comunidades da diocese, formação dos ministros do Evangelho, introdução de reformas preconizadas pelo Concílio de Trento e luta pela liberdade da Igreja de Braga face às autoridades civis, entre outros aspectos.


Pediu a resignação do cargo de Arcebispo Primaz em 1581, pedido que foi aceite no ano seguinte. Continuou o trabalho de pregação e de formação catequética, até ao fim da sua vida terrena, a 16 de Julho de 1590, em Viana do Castelo. Desde cedo se espalhou a sua fama de santidade, sendo designado pelo povo de Braga e Viana como “O Santo”.


A proclamação oficial da santidade de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires processou-se em ritmo lento. Introduzida a causa de Beatificação em 1631, o reconhecimento da heroicidade das suas virtudes só se verificou em 1845, por decreto do Papa Gregório XVI. Ele só será beatificado em Roma pelo Papa João Paulo II, 411 anos após a sua morte, no dia 4 de Novembro de 2001.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Rosto de: Agostinho Zhao Rong

Nos últimos dias de Junho , o Papa Bento XVI mandou uma carta aos católicos da China, que, infelizmente, segundo algumas associações de defesa dos direitos humanos e organizações católicas, foi censurada na Internet pelas autoridades chineses, e que agora circula “discretamente”, de mão em mão, entre os membros das comunidades cristãs daquele país.
Segundo as mesmas fontes, logo a seguir à divulgação da carta do Santo Padre, de manhã cedo, o governo chinês convidou os bispos da Igreja "oficial" a uma sessão de esclarecimento da leitura que devia ser feita do documento papal.
Para saber mais sobre a situação da Igreja Católica na China,
clique aqui.

Hoje, a liturgia faz memória de Santo Agostinho Zhao Rong e companheiros mártires, recordando assim aos cristãos espalhados por todo o mundo, o anúncio do Evangelho na China, proclamado muitas vezes com o sangue daqueles que escolheram seguir a Cristo e a sua Igreja.

Agostinho Zhao Rong era um soldado chinês que escoltou Monsenhor Dufresse até a cidade de Beijin e o acompanhou até sua execução por decapitação. Ele ficou muito impressionado com a serenidade e a força espiritual de Defresse que, apesar de torturado, não renegou a fé em Cristo. Foi assim que Agostinho se viu tocado pela luz da fé e rogou para que Defresse o convertesse. Depois, foi baptizado e enviado ao Seminário de onde saiu ordenado sacerdote diocesano. Quando foi reconhecido como cristão, ele também sofreu terríveis suplícios antes de morrer decapitado, em 1815. ..mas nunca renegou a sua fé em Cristo.

Após a II Guerra Mundial ocorreu a revolução comunista chinesa, provocada por motivos políticos reprimidos há anos, com novas ondas de perseguições aos cristãos. Porém, o motivo foi exclusivamente religioso, como comprovaram os documentos históricos. Desde então uma sangrenta exterminação aconteceu matando um número infindável de catequistas leigos, chineses convertidos, sacerdotes chineses e igrejas. Todos os nomes não puderam ser localizados, porque a destruição e os incêndios continuaram ao longo do novo regime político chinês. A última execução em massa de cristãos na China, que se tem notícia, foi em 25 de Fevereiro de 1930.

No ano do Jubileu de 2000, o Papa João Paulo II canonizou Agostinho Zhao Rong e 119 Companheiros Mártires da China. Eles passaram a ser venerados no dia 09 de Julho, pois constituem um exemplo de coragem e de coerência para todos os cristãos do mundo.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

O homem das oito bem-aventuranças

Hoje é dia de Santa Isabel de Portugal, mas prefiro falar de um jovem italiano do início do século XX, que no 4 de julho de há 82 anos, regressou para a casa do Pai, deixando um exemplo de entrega ao próximo por amor de Deus.

Natural de Turim, Pedro Jorge (Pier Giorgio) Frassati nasceu em 6 de abril de 1901, de pais ricos, mas quase sem vida religiosa. A mãe, Adelaide Ametis, era pintora; o pai, Alfredo Frassati, fundou o jornal “La Stampa” e destacou-se como senador e embaixador da Itália na Alemanha.
Espontaneamente o pequeno Frassati absorveu os ensinamentos do Evangelho mergulhando, por escolha pessoal, numa fé viva ao descobrir a força da presença de Jesus na Eucaristia. Passava horas em adoração diante do sacrário, ali encontrando sentido para sua vida.
Contra a vontade da família, o rapaz se inscreveu na Acção Católica. Um dia, na universidade onde estudava Engenharia de Minérios, perguntaram-lhe se ele era beato… “Não, sou cristão!”, respondeu ele com bondade. Em 1918, Pedro Jorge, dono de bela aparência e de físico de atleta – ele praticava alpinismo – inscreveu-se na Conferência de São Vicente de Paulo. Foi logo considerado um dos melhores confrades, o mais generoso nas ofertas, o que visitava mais famílias, o mais ponctual e o que mais observava a regra.
Luciana, sua irmã e confidente, revelou que o rapaz decidira viver no mais absoluto desprendimento. Em casa, ele era tido como um tolo por ser visto sempre com poucas liras no bolso porque, pensava, para ajudar as pessoas pobres devia dar, não o supérfluo, mas o necessário. Procurava convencer os outros a fazer o mesmo. Um amigo contou que Frassati o convidara para ser vicentino. Ele, porém, lhe disse que sentia dificuldade de entrar nas casas dos pobres, pois temia contrair doenças. Pedro Jorge, com muita simplicidade, respondeu-lhe que visitar os pobres era visitar Jesus.
Entre os sofrimentos de Pedro Jorge, merece ser lembrado o seu amor profundo por Laura Hidalgo, uma jovem de condição humilde, sentimento que ele teve de renunciar pelos preconceitos da família.
No fim de junho de 1925, quando começa a sentir enxaqueca e falta de apetite, ninguém lhe dá atenção porque a sua avó estava agonizante e ele parecia um rapaz robusto. Atingido por poliomielite fulminante, os pais, apavorados, perceberam a gravidade da doença mas já tarde.
Antes de morrer, Frassati pediu à irmã para buscar na escrivaninha uma caixa de injecções que não tinha conseguido entregar a um dos seus pobres e quis escrever um bilhete com as instruções e o endereço. Tentou, mas devido à paralisia só saiu um rascunho de letras quase incompreensível. É o seu testamento…as últimas energias para a última caridade. Faleceu em 4 de julho de 1925, aos 24 anos de idade.
Chamado de “O homem das oito bem-aventuranças” por João Paulo II durante a cerimónia da sua beatificação, em 20 de maio de 1990, o saudoso Papa fez uma tocante confissão: “Frassati era um jovem de uma alegria transbordante, uma alegria que superava também muitas dificuldades da sua vida porque o período juvenil é sempre um período de prova de forças... Também eu, na minha juventude, senti a influência de Pedro Jorge e, como estudante, fiquei impressionado com a força do seu testemunho cristão”.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Rosto de: Karl Leisner, matrícula 22356, padre

Há dias, tomei conhecimento de um belo testemunho de amor ao sacerdócio: Karl Leisner, que hoje, quero partilhar convosco.

Nascido na Alemanha em 1915, Karl passa a sua juventude em Clèves onde participa activamente nos movimentos da juventude católica nos anos 30.

Estes anos são também determinantes para a sua evolução espiritual e religiosa: os seus jornais e as suas meditações mostram a importância que atribui à leitura da Palavra de Deus e à Eucaristia. Animado de um sentido profundo de responsabilidade, quer transpor a sua fé católica na sua vida, ir mais longe na oração e no amor do próximo. Mesmo nas situações mais difíceis, no campo de concentração, ele guardará a alegria, a paz, que tocarão os soldados SS. O seu amor pela liberdade, pelas discussões sem constrangimento, pela natureza, fazem dele um excelente director de jovens, mas tornarão mais duros os rigores da detenção.

No início dos anos 30, Karl Leisner é estudante em Clèves. Aplica-se em estabelecer uma disciplina interior e a conservar uma vida espiritual intensa. Esta vontade de viver de acordo com as regras que se fixou o ajude a proteger-se da influência nazi, e mais tarde a sobreviver nas condições mais difíceis. No sofrimento, encontrará ainda a força de vir em ajuda aos outros. A partir de 1933, é um oponente determinado à Hitler e ao seu regime.

Antes mesmo de passar o "baccalauréat", em 1934, escolhe fazer estudos de teologia para se tornar padre. Durante o seu primeiro semestre em Münster, é-lhe confiado a responsabilidade dos movimentos da juventude diocesanos. Tenta continuar a reunir os jovens e dar-lhes armas, no plano interior, de modo que sejam capazes de opor-se ao nazismo. As suas actividades são supervisionadas pela Gestapo que confisca os jornais que redige.

Em 1936-37, durante um semestre de estudos à Fribourg-en-Brisgau, encontra uma jovem rapariga e pensa abandonar o apelo ao sacerdócio para fundar uma família. Sai deste tempo de dúvidas, reforçado na sua vocação: a sua vida será doravante orientada pelo desejo de se tornar padre. As linhas que escreve durante este período contêm meditações de uma grande riqueza: “Deves crer, deves ousar. Vai de Cristo no nosso país. É o que há de maior! Sacrifício, combate, coragem! ““Cristo, minha vida, meu amor, minha paixão, abraça-me, ilumina-me " (14 de Abril de 1938).

A 25 de Março de 1939, é ordenado diácono; mas pouco depois, atingido de tuberculose, interrompe qualquer actividade para se tratar. Denunciado à Gestapo devido a comentários imprudentes contra o regime, é encarcerado em Fribourg-en-Brisgau antes de ser conduzido ao campo de Sachsenhausen.

O 13 de Dezembro de 1940, é transferido ao campo de Dachau sob o número 22356. Cerca de 2800 padres alemães, austríacos, polacos e de outros países da Europa, bem como pastores protestantes, são presos no “Block 26”. Há lá padres de 144 dioceses, de 40 ordens diferentes. A partir de 1941, os padres têm o direito de celebrar a missa todos os dias numa capela, da manhã até às 17 horas, antes da chamada. Os padres esforçam-se sempre por manter no campo uma vida espiritual.
As privações, o trabalho e os rigores do inverno agravam a doença de Karl que, a partir de 1941, é obrigado a juntar-se ao “block” dos doentes, barraca onde os enfermos apinham-se num espaço estreito. Karl Leisner guarda contudo sempre à esperança a ser ordenado padre.

A detenção e a transferência para Dachau de Dom Piguet, bispo de Clermont-Ferrand, no Outono 1944, tornam possível a ordenação de Karl no campo. Um padre jesuita encarrega-se de convencer Dom Piguet da importância e do valor simbólico desta ordenação : “A ordenação de um padre neste campo de exterminação de padres seria uma vingança de Deus e um sinal de vitória do sacerdócio sobre o nazismo.» Os preparativos começam secretamente: conseguir a autorização do bispo da diocese e a do bispo de Münster, arranjar os óleos santo e os ornamentos necessários, criar um anel de bispo e uma croça episcopal sobre a qual são gravadas as palavras “Victor dentro vinculis" (Vencedor dos grilhões), palavras que resumem a situação. Karl Leisner é ordenado clandestinamente na capela do campo de Dachau a 17 de Dezembro de 1944. A sua primeira missa é a 26 de Dezembro de 1944.
A sua doença entra numa fase final. É libertado do campo a 4 de Maio de 1945 e transferido imediatamente ao sanatório de Planegg, perto de Munique, onde morre a 12 de Agosto de 1945.

Karl Leisner torna-se muito rapidamente um modelo para os jovens da sua região. A 23 de Junho de 1996, no estádio olímpico de Berlim, o papa João Paulo II beatifica Karl Leisner, e também Bernhard Lichtenberger, sacerdote e teólogo, que morreu no campo de concentração de Dachau em 1943.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Rosto de: Faustina Kowalska

O próximo 2º Domingo de Páscoa, que celebraremos daqui alguns dias, é também dia da Festa da Divina Misericórdia, festa que nasceu de um desejo de Cristo, revelado à uma religiosa polaca do século XX, Irmã Faustina, e que João Paulo II instituiu em 2000, no dia da canonização dessa mesma irmã.

Irmã Faustina nasceu a 25 de Agosto de 1905 na Polónia. Era a terceira de dez filhos de Estanislau e Marian Kowalska, e recebeu como nome de baptismo: Helena.
Desde a infância, nutriu um gosto especial pela oração. Em casa, trabalhava muito, sempre obediente aos pais e compassiva para com os pobres. Frequentou somente três anos o ensino escolar, devido à escassa situação financeira da família. Adolescente, foi empregada de uma casa burguesa da cidade.

Aos 20 anos, ingressou no Convento das religiosas de Nossa Senhora da Misericórdia, e tomou o hábito com o nome de Irmã Maria Faustina. Viveu 13 anos na Congregação, desempenhando de modo exemplar as funções de cozinheira, jardineira e porteira.

A sua vida, aparentemente muito simples, escondia uma vida riquíssima de união com Deus. Desde a sua tenra idade, a irmã Faustina desejava ser uma grande santa, e assim correspondeu. Colaborava com a graça de Jesus na salvação dos pecadores até ao ponto de oferecer a sua vida em holocausto por eles. A sua vida religiosa era impregnada de sofrimentos mas também de graças extraordinárias…místicas.
Cristo dialogava com ela e lhe conferiu uma missão:
- Lembrar a verdade fundamental da nossa fé, revelada nas Escrituras, de que Deus ama cada ser humano de um Amor Misericordioso, mesmo o maior pecador.
- Transmitir a devoção à Divina Misericórdia.
- Inspirar um grande movimento de apóstolos da Divina Misericórdia, afim de fazer renascer a fé dos fiéis, no espírito desta devoção, para uma confiança evangélica de infância espiritual em Deus e no amor ao próximo.

Atingida por tuberculose, a Irmã Faustina oferece os seus sofrimentos pela conversão dos pecadores e sempre fiel às revelações que ela beneficiou, morre a 5 de Outubro de 1938 com 33 anos.
A 18 de Abril de 1993, o Papa João Paulo II beatificou-a, e canonizou esta grande Apóstola da Divina Misericórdia a 30 de Abril de 2000.


Para saber mais sobre a devoção à Divina Misericórdia, clique:
Apostolado da Divina Misericórdia

terça-feira, 13 de março de 2007

Rosto de: Clara Badano

Clara Badano nasceu em 1971 em Sassello (Itália), filha de Ruggero e Teresa.

Aos nove anos, pelo Movimento dos Focolares, conheceu outras crianças, que já tinham como objectivo “escolher Deus” como ideal, na sua vida.

À medida que vai crescendo, sobressai nela o olhar límpido e a beleza. Aplica-se-lhe a expressão de S. Agostinho: “O amor torna-nos bonitos”. É uma grande desportista e gosta muito de cantar e dançar, vestindo-se com elegância. É muito exigente com os seus sentimentos. Está sempre rodeada de amigos e amigas.

Aos 17 anos, diante de uma reprovação a Matemática, procura amar o rosto abandonado de Jesus nessa contrariedade. Depois num certo dia, ao jogar ténis, sente uma dor fortíssima nas costas. Algumas recaídas levam a aprofundar os exames médicos e, por fim, chega o diagnóstico: um tumor dos mais graves e dolorosos. Recebe a notícia em silêncio e sem chorar.

No hospital, preocupa-se com os outros e esquece-se do forte sofrimento para ajudar uma rapariga toxicodependente. Depois de duas operações, a quimioterapia faz-lhe cair o cabelo. Diante de cada madeixa de cabelo que perde, repete um intenso: “Por ti, Jesus”.

Os pais ajudam-na a intuir que o amor de Deus se esconde nas situações mais incríveis. Ela aceita e coloca-se no amor. Assim, oferece as suas poupanças a um amigo que vai partir para África. A força vem-lhe de Jesus na Eucaristia, que recebe frequentemente e com muita alegria.

Os médicos espantam-se com a sua maturidade. O próprio cardeal de Turim vai visitá-la e pergunta-lhe: “Tens uns olhos estupendos, uma luz maravilhosa. De onde te vêm?” Ela responde: “Procuro amar muito Jesus”.

As últimas palavras para a mãe foram: “Sê feliz, porque eu sou feliz”. Duas mil pessoas participaram no funeral, experimentando uma serenidade e santidade contagiosas, sentindo-se levadas a escolher Deus como o tudo da sua vida.

Ainda hoje, Clara continua a entusiasmar muitos jovens a amarem Jesus como o grande segredo da felicidade…


O desafio de viver – Manual do 9º ano de Catequese
Ed. do Secretariado Nacional da Educação Cristã

Ler no site dos Focolares:
Clara (Chiara) Luce Badano

quinta-feira, 8 de março de 2007

O louco de Deus

Nestes últimos dias, os trechos diárias do Evangelho da liturgia convidam os cristãos a adoptar uma atitude de serviço para com o próximo à imitação de Cristo Mestre.
Hoje, a Igreja universal faz memória de um “Santo da Caridade”, de um homem que nasceu em Portugal mas passou a grande parte da sua vida em Espanha, e que fez dos seus actos um verdadeiro testemunho de serviço e de amor para com os enfermos e os pobres.
Este homem é João de Deus, contagiado pela loucura de Deus “que dá asas ao ser humano e o faz voar até ao irmão que sofre”(1), no caso deste nosso Santo, até ao irmão doente mental.

“Se consideramos atentamente a misericórdia de Deus, nunca deixaremos de fazer o bem de que formos capazes: com efeito, se damos aos pobres por amor de Deus aquilo que Ele próprio nos dá, Ele promete-nos o cêntuplo na felicidade eterna. Feliz pagamento, ditoso lucro! Quem não dará a este bendito mercador tudo o que possui, se Ele procura o nosso interesse e, com os braços abertos, insistentemente pede que nos convertamos a Ele, que choremos os nossos pecados e tenhamos caridade para com as nossas almas e para com o próximo? Porque assim como o fogo apaga a água, assim a caridade apaga o pecado.”

Carta de São João de Deus à Duquesa de Sessa.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

O pastorinho Francisco

O cristão é um discípulo de Cristo em constante conversão.
Ele necessita de arrepender-se, mudar, melhorar, conformar continuamente a sua vida ao Evangelho, para assim amar verdadeiramente a Deus e ao próximo como a si próprio.

Foi na escola de Maria e do seu Rosário que, ao sair da adolescência, despertei para um compromisso mais sério com Cristo…foi a mão da Mãe que me empurrou para um seguimento mais consciente do Filho. A mensagem da Virgem em Fátima, por ser realmente evangélica, mudou e continua a mudar minha e muitas outras vidas.

Noutros tempos, a vida de três crianças, Francisco, Jacinta e Lúcia também “converteu-se”, transformou-se com as aparições e palavras da Mãe de Jesus, “vestida de branco, mais brilhante que o sol”.
Muitos cristãos têm um afecto profundo por Maria, com o título de “Senhora de Fátima”, e pelos pastorinhos. Permitam-me confidenciar-lhes que, entre os três primos, nutro uma estima especial para o Francisco, por ser um pouco parecido com ele, e sobretudo pelo exemplo que ele é (não desprezando as outras duas videntes).
O pastorinho, dócil e condescendente, era sensível à beleza da natureza, deleitava-se com a solidão dos montes e ficava extasiado perante o nascer e pôr-do-sol.
Chamava ao astro rei, “candeia de Nosso Senhor” e enchia-se de alegria ao aparecerem as estrelas, “candeias dos Anjos”, e a Lua, “candeia de Nossa Senhora”. Ele foi como outro Francisco, o de Assis, um amante das criaturas do céu e da terra.
O que mais impressionava o pastorinho, e o absorvia nas aparições, era Deus na “luz imensa que ardia mas não queimava”, que penetrava o seu íntimo e o das outras duas crianças. Só a ele porém, Deus se dera a conhecer “tão triste”. Desde então viveu movido pelo único desejo de “consolar e dar alegria a Jesus”.
Frequentemente escondia-se atrás das árvores para rezar sozinho. Subia outras vezes para lugares mais elevados e solitários para se entregar à uma intensa oração que o separava do resto do mundo…pois, nem ouvia as vozes dos que o chamavam, chegando assim a uma verdadeira forma de união mística com o Senhor.
Ele era um contemplador da presença de Cristo na Eucaristia, e passava muito tempo diante do sacrário, adorando o Santíssimo Sacramento que chamava ternamente “Jesus escondido”.
Na sua vida, que foi breve (1908-1919), Francisco não se limitou apenas a ser um mensageiro da oração e da penitência, mas conformou a sua vida, mais com os gestos do que com as palavras, com a mensagem que ele anunciou. Ele foi um verdadeiro testemunha…ele é um exemplo a seguir para as crianças e pelos adultos.

Enquanto Jacinta parecia preocupada com o único pensamento de converter pecadores e livrar as almas do Inferno, ele (Francisco) parecia só pensar em consolar Nosso Senhor e Nossa Senhora, que lhe tinha parecido estarem tão tristes.”

Irmã Lúcia

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Valentim, Cirilo, Metódio e companhia

Hoje, um pouco por todo o mundo, é festejado o Dia dos Namorados, o Dia de São Valentim (provavelmente um mártir romano do século III que celebrava casamentos às escondidas).
Quer queiramos, quer não, em Portugal, esta efeméride é essencialmente uma festa importada e comercial. O nosso país não tem tradições vincadas à volta do 14 de Fevereiro como outras nações (França e Inglaterra).
Mas a intenção de tal celebração tem o seu lado positivo. Afinal, trata-se de comemorar o amor entre duas pessoas, que acreditam e desejam a construção de um futuro comum.



No entanto, no calendário litúrgico da Igreja, assinale-se hoje, a festa de São Cirilo e São Metódio, dois irmãos que pregaram o Evangelho nas sociedades eslavas do século IX, inventando o alfabeto cirílico para anunciar Cristo. Foram proclamados por João Paulo II, co-padroeiros da Europa, juntando-se assim a São Bento.
Pouco tempo depois, Santa Brígida de Suécia, Santa Catarina de Sena e Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) reuniram-se aos três santos homens no patronato do Velho Continente.
Estes dois irmãos eslavos representam assim o segundo pulmão da Igreja na Europa…uma Europa que até bem pouco tempo estava dividida, mas que agora, se une na sua diversidade, em aspectos económicos, sociais, culturais e também religiosos, enriquecendo e inspirando assim de um novo alento um continente inteiro.

No nosso Velho Continente que parece esvaziar-se dos valores cristãos, é bom recordar as palavras de João Paulo II, que há uns anos atrás, desafiava a Europa a não temer a voz do Evangelho que interpela os corações :

“Não temas! O Evangelho não é contra ti, mas a teu favor. Confirma-o a constatação de que a inspiração cristã pode transformar a agregação política, cultural e económica numa convivência onde todos os europeus se sintam em casa própria e formem uma família de nações, na qual se possam frutuosamente inspirar outras regiões do mundo.

Tem confiança! No Evangelho, que é Jesus, encontrarás a esperança sólida e duradoura por que anseias. É uma esperança fundada na vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. Esta vitória, quis Ele que te pertencesse para tua salvação e alegria.

Podes estar certa! O Evangelho da esperança não desilude! Nas vicissitudes da história de ontem e de hoje, é luz que ilumina e orienta o teu caminho; é força que te sustenta nas provações; é profecia de um mundo novo; é indicação de um novo início; é convite a todos, crentes e não crentes, para traçarem caminhos sempre novos que desemboquem na «Europa do espírito» a fim de fazer dela uma verdadeira «casa comum» onde haja alegria de viver.”


(Exortação Apostólica “Ecclesia in Europa”)

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Rosto de: Lourenço da Ressurreição

Há pessoas que nos dizem muito. Se calhar, não dizem nada ao resto do mundo, mas para nós, elas são fonte de inspiração. Num post anterior, já tinha partilhado convosco a minha admiração pelo irmão universal, o Beato Carlos de Foucauld...hoje, apresento-vos um irmão carmelita, Lourenço da Ressurreição, que experimentou a Presença de Deus na vida do dia a dia. Ele fez dos pequenos actos e pensamentos quotidianos um encontro com o seu e meu Senhor.



Nicolau Herman (Lourenço da Ressurreição), nasceu em 1614, em Hériménil, Lorena (actual região do mesmo nome do Nordeste Francês), numa família profundamente cristã.

Aos 18 anos, num dia de Inverno, olhando a natureza despojada, pensando que dentro de pouco tempo as árvores desfolhadas voltariam a florescer, Nicolau é iluminado por uma evidência e uma simplicidade imediatas, percebendo que na base desse processo anual, existe um Ser pessoal, inteligente e cheio de amor. Então, a sua fé em Deus se personifica, recebendo essa graça da Providência e do poder de Deus, que admitirá mais tarde, nunca se ter apagado de sua alma.

Este mesmo ano, a Lorena era ocupada pela França, e o Duque Carlos IV, expulso do seu país, juntou tropas para reconquistar as suas terras. Nicolau alistou-se no exército do Duque de Lorena. Nessa Guerra de Trinta Anos, tristemente célebre pela crueldade desumana, os soldados não recuavam diante de pilhagens ou qualquer género de violência. Mais tarde, Nicolau lastimará o seu passado, deplorando os seus pecados diante de Deus. Se ignoramos naquilo que consistiam verdadeiramente, o que é certo é que a precedente graça tinha desaparecido da sua vida. Duas vezes se encontrará diante da morte; finalmente uma ferida o obrigará a deixar as armas aos 21 anos.

O tempo da cura para o corpo, foi-o também para a alma; e a experiência vivida aos 18 anos voltou à tona. Então resolveu entregar-se a Deus e mudar a conduta passada. Adoptou algum tempo a vida de eremita com outro companheiro. Mas, desconcertado ao ver que ele passava da alegria à tristeza, da paz à tribulação, do fervor à ausência de devoção, não perseverou neste caminho. Foi então para Paris onde foi mordomo na casa do senhor Fieubert, onde ele dirá ter sido “um pesadão que quebrava tudo.”

É aí que o Convento dos Carmelitas da rua Vaugirard (hoje, Instituto Católico) começou a atraí-lo; e mais, um dos seus tios era da Ordem. Nicolau decide aos 26 anos pedir a entrada como irmão converso (não sacerdote), e tomou por nome Irmão Lourenço da Ressurreição. Lourenço era o nome do santo patrono da sua paróquia natal; Ressurreição lhe recordara talvez o renascimento da árvore despojada a quando dos seus 18 anos.

Primeiro, foi cozinheiro ao longo de 15 anos, depois sapateiro do seu convento; após dez anos de penosa caminhada, num sentimento doloroso por causa dos seus pecados, um acto de abandono determinante o liberta, e pouco a pouco, faz-o encontrar o seu próprio caminho espiritual: viver o trabalho como tempo de oração, as tristezas, como as alegrias, na “Presença de Deus”; transformando todas as suas ocupações à “maneira de pequenas conversas com Deus, sem prever, como calhar…sem necessidade de delicadezas, estar com bondade e simplicidade.” O único método da vida espiritual do Irmão Lourenço foi de certo modo o exercício da Presença de Deus que consistiu em “agradar e acostumar-se na divina companhia, detendo-se amorosamente com Ele em todo o tempo.” Assim, a alma é conduzida “insensivelmente a este simples olhar, a esta visão amorosa de Deus em tudo, que é a mais santa e mais eficaz maneira de oração.” “Na via de Deus, os pensamentos são tidos em conta como pouco, o amor faz tudo.” O encanto do Irmão Lourenço atrai numerosas pessoas que lhe vem pedir conselhos: é assim que as suas cartas ou notas dados oralmente chegaram até nós.

No início de 1691, o Irmão Lourenço adoece. Como o seu mal aumentava, deram-lhe o Sacramento dos Enfermos. A um religioso que lhe perguntara o que ele fazia e com que ocupava o seu espírito, ele respondeu: “Faço o que farei na eternidade, bendigo a Deus, louvo a Deus, adoro e amo-O de todo o coração, eis o nosso trabalho, meus irmãos, adorar a Deus e amá-l’O, sem se preocupar do resto.” Depois, com a paz e a tranquilidade de alguém que adormece, o Irmão Lourenço morre em 12 de Fevereiro de 1691, aos 77 anos.

Pouco tempo depois, o abade José de Beaufort, vigário geral do cardeal de Noailles, e amigo do carmelita sapateiro ao longo de um quarto de século, fez conhecer a mensagem de Lourenço em duas obras biográficas que, em 1991, foram publicadas numa edição crítica. Selado com o selo da simplicidade e da verdade, essa mensagem não envelheceu em três séculos.

A prática da Presença de Deus, como maneira orante, aconselhada pelo Irmão Lourenço, valeu-lhe uma irradiação inter-confessional. A sua espiritualidade do dever de estado faz com que todos os estados de vida nele se encontrem. Se a sua insistência sobre as virtudes teologais, fé, esperança e caridade, lembram os ensinamentos de São João da Cruz, a locução de Lourenço denuncia uma familiaridade com Santa Teresa de Jesus, recordando em particular a “oração recolhida, de meditação”. Enfim, o quietismo não teve nenhuma influência nele: o seu abandono confiante inscreve-se na colaboração da alma à obra divina, e, a ascese como meio de dispor o corpo e o espírito ao encontro do Deus vivo.


Tradução da biografia de Lourenço da Ressurreição - Site do Carmelo de França



Irmão Lourenço da Ressurreição,
encontraste Deus no trabalho da tua cozinha.
Fostes para quem te conhecia
uma testemunha luminosa de Deus vivo e próximo.
Intercede (pela graça),
e roga ao Senhor para que, como tu,
eu toma consciência da sua Presença amada,
fazendo as pequenas coisas do meu dia
no seu amor e por aqueles que me rodeiam.
Ámen.