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quinta-feira, 12 de março de 2009

Um constante processo

«A Quaresma é uma ocasião para "nos tornarmos de novo" cristãos, mediante um constante processo de mudança interior e de progresso no conhecimento e no amor de Cristo.

A conversão nunca é de uma vez para sempre, mas é um processo, um caminho interior de toda a nossa vida. Este itinerário de conversão evangélica certamente não pode limitar-se a um período particular do ano: é um caminho de cada dia, que deve abraçar toda a existência, todos os dias da nossa vida.
Nesta óptica, para cada cristão e para todas as comunidades eclesiais, a Quaresma é o tempo espiritual propício para se exercitar com maior tenacidade na busca de Deus, abrindo o coração a Cristo. (…)



Converter-se significa então não perseguir o nosso sucesso pessoal que é passageiro mas, abandonando qualquer segurança humana, pôr-se com simplicidade e confiança no seguimento do Senhor.»


Bento XVI, 21/02/2007

quinta-feira, 5 de março de 2009

Uma oração para a Quaresma

Senhor e Mestre da minha vida,
afasta de mim o espírito de preguiça,
de desalento, de domínio, de loquacidade.

Concede a mim, teu servo, um espírito de temperança,
de humildade, de paciência e de amor.

Sim, Senhor e Rei,
concede ver os meus pecados e não julgar os meus irmãos,
porque és bendito pelos séculos dos séculos.
Amen.


Oração de Santo Efrém o Sírio, Monge e Doutor da Igreja (Séc. IV)




Neste tempo quaresmal, esta pequena e simples oração de Santo Efrém ocupa um lugar importante na Liturgia Bizantina, porque enumera, de modo singular, todos os elementos positivos e negativos do arrependimento, e constitui, de algum modo, uma espécie “checking list” do esforço individual da Quaresma.

Este esforço aponta primeiro a libertação de algumas enfermidades espirituais que tornam impossível iniciar um regresso a Deus.
Preguiça, desalento, domínio, loquacidade são assim os quatro “objectos” negativos do arrependimento, são os obstáculos a serem removidos, que só Deus pode expulsar, por isso, como um grito do fundo do desamparo humano, começa esta oração quaresmal.

A seguir, a oração impele para atitudes positivas do arrependimento, que também são quatro: temperança, humildade, paciência e amor.

Tudo é resumido e reunido na súplica conclusiva da oração: “ver os meus pecados e não julgar os meus irmãos”, porque em último caso, só há um perigo: o orgulho, que é a fonte do mal, e todo o mal é orgulho.

Após cada petição da oração realiza-se uma prostração, sinal de arrependimento e de humildade, de adoração e de obediência.
Reza-se com a alma, mas também com o corpo!
Pois no longo e difícil esforço de conversão, não se pode separar a alma do corpo.
O homem completo caiu e se afastou de Deus.
O homem completo foi restaurado.
O homem inteiro é que deve regressar a Deus.
A salvação e o arrependimento não são desprezo do corpo ou a sua negação, mas a restauração da sua verdadeira função: ser templo da alma.
O ascetismo cristão é uma luta, não contra, mas em favor do corpo.
Por esta razão, o homem completo, alma e corpo, deve arrepender-se.
O corpo participa na oração da alma, assim como a alma ora através e no interior do corpo.

Deus nos permita viver esta Quaresma de modo adequado, fortalecendo-nos, para vivermos na verdade a temperança, a humildade, a paciência e o amor.
Este é o convite! Em nós está a decisão de segui-lo!

Para aprofundar a meditação desta Oração de Santo Efrém

terça-feira, 3 de março de 2009

É uma limpeza necessária

O jejum mais importante é aquele que tem como objectivo esvaziar o nosso coração de inutilidades para o enchermos do que é valioso. É uma limpeza necessária a fim de arranjarmos espaço na alma para as realidades sublimes para que Deus nos criou:
Procuremos jejuar de julgar os outros, descobrindo o Cristo que vive neles.
Jejuemos de palavras ofensivas, enchendo-nos e pronunciando expressões edificantes.
Jejuemos de descontentamento, enchendo-nos de gratidão.
Jejuemos de irritações, enchendo-nos de paciência.
Jejuemos de pessimismo, enchendo-nos de esperança cristã.
Jejuemos de preocupações, enchendo-nos de confiança em Deus.
Jejuemos de lamentações, enchendo-nos do apreço pela maravilha que é a vida.
Jejuemos de pressões que nunca mais acabam, enchendo-nos duma oração permanente.
Jejuemos de amargura, enchendo-nos de perdão.
Jejuemos de dar importância a nós mesmos, enchendo-nos de amor pelos outros.
Jejuemos de ansiedade sobre as nossas coisas, comprometendo-nos na propagação do Reino.
Jejuemos de desalento, enchendo-nos do entusiasmo da fé.
Jejuemos de pensamentos mundanos, enchendo-nos das verdades que fundamentam a santidade.
Jejuemos de tudo o que nos separa de Jesus, enchendo-nos daquilo que d’Ele nos aproxima.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Nesta Quaresma, esforcemo-nos

«Que cada um se examine agora para saber em que estado está, e esforcemo-nos em progredir todos os dias, porque é avançando na virtude que veremos o Deus dos deuses, na Sião celeste. É sobretudo neste tempo que nos devemos aplicar em viver na pureza; durante este tempo, digo, em que é concedido à fragilidade humana um número de dias certos mas curtos, para que ela não desanime. Porque se nos é dito a toda a hora: 'levai uma vida pura', quem não se desencorajaria de a conseguir? Ora, somos convidados neste tempo de pouca dura a reparar as negligências do resto do ano, e a viver de maneira a que no resto do tempo, se veja brilhar as marcas desta santa quarentena na nossa conduta.
Esforcemo-nos então, meus irmãos, em passar este tempo em exercícios piedosos, e em restaurar as nossas armas espirituais. De facto, nesta época do ano, parece que todo o universo, com o Salvador à frente, caminha como um exército contra o diabo.
Bem-aventurados os que terão combatido com valentia sob tal governo.»


São Bernardo, 7º sermão para a Quaresma





Senhor meu Deus, fazei que o meu coração Vos deseje;
e que desejando Vos procure;
procurando, Vos encontre;
encontrando, Vos ame;
e amando-Vos, sejam perdoados os meus pecados;
e uma vez perdoados, que eu não volte a cometê-los.

Senhor meu Deus,
dai a penitência ao meu coração,
a contrição ao meu espírito,
as lágrimas aos meus olhos,
a liberalidade da esmola às minhas mãos.

Ó meu Rei, apagai em mim a concupiscência da carne
e acendei o fogo do vosso amor.
Ó meu Redentor, apartai de mim o orgulho,
e que a vossa benevolência me conceda a humildade.
Ó meu Salvador, afastai de mim a cólera
e que a vossa bondade me dê o escudo da paciência.
Ó meu Criador, tirai da minha alma o ressentimento
para lá derramar a mansidão.

Pai bondoso,dai-me a fé recta,
a esperança certa e a caridade perfeita.
Vós que me guiais,
afugentai de mim a vaidade da alma,
a inconstância do espírito,
a confusão do coração,
as vanglórias da boca,
a altivez dos olhos.


Ó Deus misericordioso,
por vosso muito amado Filho,
eu Vos peço,
fazei que eu viva a misericórdia,
a sincera devoção,
a compaixão pelos aflitos
e a partilha com os pobres.


Santo Anselmo (1033-1109), Oratio X

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Como uma peregrinação virtual

Já vamos a meio da Quaresma, e se este tempo é um apelo para ir ao deserto, ele é também um convite à caminhada, acompanhando Jesus na sua subida para Jerusalém onde Ele sofrerá a sua Paixão.
Chegada esta altura do ano, facilmente anseio pela Terra Santa.
Aliás, a Quaresma é para mim como uma renovação anual de um desejo e de uma esperança: pisar um dia a terra onde Jesus nasceu, viveu, morreu e ressuscitou…passar por onde o Senhor passou.
Desde os primeiros séculos, os cristãos peregrinam para a Palestina e de modo particular para Jerusalém. O que viam e viviam lá os estimulava a perpetuar a experiência do país de Jesus nas suas cidades e aldeias natais…não deve ser fácil esquecer aquela terra.
Por isso surgiram por toda a Europa, na Idade Média, pela mão dos Franciscanos, guardiães dos lugares santos, pequenas reproduções da Paixão de Cristo: a Via-Sacra. Os cristãos começaram assim a percorrer nas terras onde viviam, o caminho doloroso de Jesus, como outrora os peregrinos o percorriam nas ruas de Jerusalém, do palácio de Pilatos ao Santo Sepulcro, meditando os sofrimentos de Cristo.
Como uma peregrinação virtual, o exercício da Via-Sacra é uma caminhada, que podemos seguir fisicamente numa igreja, parando diante de 14 estações, ou até sem nos mover (o importante é caminhar e parar espiritualmente em cada estação), meditando os vários episódios da Paixão de Jesus.
Esta caminhada de comunhão aos sofrimentos de Cristo e de compaixão torna-se também caminho de conversão. Seguindo Jesus no caminho da cruz, percebemos o quanto Ele nos amou e como devemos imitá-l’O nesse amor, para assim ter parte na sua Ressurreição.


"Quem quiser seguir-me,
negue-se a si mesmo,
toma a sua cruz e siga-me".
(Mt 16,24)

“Se morremos com Cristo,
também com Ele viveremos;
se sofremos com Cristo,
também com Ele reinaremos”.
(2 Tm 2, 11-12)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Já começaram a revestir-se de roxo

Estamos em plena Quaresma, e algumas cidades e aldeias daqui do Minho, já começaram a revestir-se de roxo e de símbolos alusivos à Paixão de Cristo, afim de preparar a Semana Santa, conclusão do tempo quaresmal, na qual a Igreja se prepara para a Páscoa, meditando os últimos dias da vida do seu Senhor.
Se a Quaresma é essencialmente um tempo de renovação interior, que transforma o exterior sem grande ruído, mas tudo com discrição, ela torna-se aqui no norte do país, uma manifestação bem visível e pública da fé de um povo num Deus que aceitou morrer para redimir os pecados de todos os homens.
Assim, muitos cristãos do Minho se preparam para a Páscoa, “coração e centro do ano litúrgico e da nossa existência”, através dos sacramentos, de uma oração mais intensa, de um jejum que abre a Deus, ao essencial da vida e à partilha com o próximo, mas também, com vias-sacras, procissões e sermões públicos, ao modo e segundo os costumes de cada comunidade.
Admito que, às vezes, o estilo barroco de muitas igrejas de Braga e arredores, com a sua talha dourada ostensiva, a sobrecarga de elementos decorativos, ou algumas procissões, pesadas com tanta magnificência ou ruidosas por causa da falta de respeito dos espectadores, me perturbam. Mas nesta altura do ano, parece-me quase essencial e normal que seja assim.
Cortejos “bíblicos” ou reconstituições “históricas” da caminhada de Jesus para o Calvário também são ofertas de vivência da Semana Santa em muitas comunidades cristãs, sobretudo onde não existe uma grande tradição ligada aos últimos dias da Quaresma.
Apesar de eu não aderir muito, e preferir o recolhimento, a intimidade e a simplicidade, gosto de saber que tudo isso acontece, porque cada um deve procurar viver o mistério da Paixão de Jesus segundo o que mais lhe toca no coração. Uns de uma maneira, outros, de outra.
O essencial é celebrar o amor de Cristo por nós, que se manifesta na sua morte na cruz.



Barcelos, Famalicão, Guimarães e quase todas as sedes de concelho da região de Braga têm as suas procissões dos “Passos” ou do “Enterro do Senhor”.
Fica aqui o site da Semana Santa em Braga (basta clicar).

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

É preciso...

“O jejum físico, que durante algum tempo não estava na modo, aparece hoje como necessário.(…) O jejum físico é uma coisa importante, porque somos corpo e alma, e a disciplina do corpo, a disciplina também material, é importante para a vida espiritual que é sempre uma vida encarnada numa pessoa que é corpo e alma.
Este é um aspecto. Hoje outros aspectos se desenvolvem e se manifestam.
Parece-me que o tempo da Quaresma poderia precisamente ser também um tempo de jejum de palavras e de imagens. Precisamos de um pouco de silêncio, precisamos de um espaço sem um bombardeamento permanente de imagens. Por isso é muito importante hoje tornar acessível e compreensível o significado dos 40 dias de disciplina exterior e interior, para nos ajudar a entender que uma dimensão da Quaresma, esta disciplina física e espiritual, é a de criar espaços de silêncio e também espaços sem imagens, para abrir de novo o coração à verdadeira imagem e à verdadeira palavra.”


Bento XVI aos sacerdotes de Roma 07/02/2008


É preciso...
Jejuar para ter fome de Deus...
Calar-se para deixar Deus falar...
Criar silêncio para escutar Deus...
Fechar os olhos para contemplar a Deus…

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Deserto e monte

Há já alguns dias que, tomando com Jesus o caminho do deserto, caminhamos para a Páscoa.
O deserto é uma experiência:
- de descoberta de nós próprios, da nossa fragilidade;
- de encontro com Deus.
É também ponto de partida para uma nova missão.
Podemos encontrar algumas semelhanças entre a experiência do deserto e aquilo que nos proporciona a subida de um monte, recordando ainda o Evangelho da Transfiguração do 2º Domingo da Quaresma.


Desde sempre, o monte é associado a crenças religiosas.
A montanha transmite poder, força, eternidade.
Ao subí-la, o céu, habitual residência de Deus, fica mais perto.
Por isso, na tradição bíblica, o monte é lugar de encontro com Deus, lugar de culto e de revelação.
No monte do Horeb e no Sinai, Moisés ouve o apelo de Deus na sarça ardente, e recebe as tábuas da Lei como sinal de aliança.
O profeta Elias também sobe à montanha para receber a revelação de Deus, já não no meio de trovões mas num vento suave.
No Evangelho, Jesus retira-se frequentemente para o monte afim de rezar.
É também lá que Ele se revela: não cedendo à tentação do poder, ensinando a nova lei das bem-aventuranças, e aparecendo transfigurado a Pedro e aos irmãos Zebedeu.
Perto da sua Paixão, é no monte das Oliveiras que Cristo se recolhe, e é no Calvário, pequena colina, que Ele morre.
É ainda do monte que Jesus envia os discípulos em missão.

Nesta Quaresma, subamos também ao monte, onde Deus se revela, procurando nele um pouco de frescura e de calma, um lugar onde possamos meditar, orar, abrir-nos à presença divina.
Quem sobe adivinha o esforço que o espera. Não vai ser fácil, mas a visão do alto já o habita.
Quem sobe, sabe que não pode ir muito carregado, ou cansará depressa, e que só deve levar o essencial.
Um bom guia é certamente necessário, e este guia é Jesus, mais ainda, o próprio Jesus é o cume para onde o caminhante se dirige.
Como o deserto, a subida do monte é caminho de conversão, onde o esforço, a procura do essencial e a graça divina permitem chegar à meta.


"Quem poderá subir à montanha do Senhor?
O que tem as mãos inocentes e o coração limpo,
o que não ergue o espírito para as coisas vãs."
(Salmo 24)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

O mundo promete

A Quaresma é tempo para voltar ao essencial, de libertação…de regresso a Deus.
Uma oportunidade para ler algumas frases da Irmã Lúcia, que faleceu por estes dias há 3 anos, e que certamente nos ajudarão nesta caminhada quaresmal.
«O mundo promete facilidades e prazeres e rodeia-nos de muitas tentações aliciadores, mas falsas e nascidas da ignorância, porque o mundo ou, antes, os que seguem as máximas do mundo desconhecem o bem que rejeitam e perdem, quando se afastam de Deus. Todos correm em busca da felicidade, mas não encontram, porque a procuram onde ela não existe, e assim, como é errada a estrada, quanto mais a seguem mais se afastam da felicidade.
Deus é o único Ser onde está a felicidade, para a qual, aliás, nos criou. Mas Deus não está na satisfação dos prazeres sensuais da carne, dos sentidos, nem das paixões, do orgulho, da soberba, da cobiça, etc.
Deus encontra-Se nas almas puras, nos corações humildes e nas consciências rectas, livres do apego às coisas da terra, como sejam honras, prazeres, riquezas, etc. É que as pessoas assim libertas identificam-se com Deus, e a vida de Deus nelas; e Ele comunica-lhes uma participação sempre crescente nos Seus dons.»



Irmã Lúcia, Apelos da Mensagem de Fátima



Ontem, o Cardeal Saraiva Martins, em Coimbra, anunciou a antecipação, por decisão de Bento XVI, do início do processo de beatificação da mais velha dos pastorinhos de Fátima.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Deserto da tentação...deserto da libertação

"Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto,
a fim de ser tentado pelo Demónio"
(Mt 4, 1)

A tentação faz parte inevitavelmente da vida do homem, e sem as tentações do deserto, Jesus, o Verbo de Deus que se fez carne, não teria assumido plenamente a sua condição humana.
Assim, como verdadeiro homem, Jesus, Filho de Deus, também viveu o que Santo Agostinho um dia disse sobre a experiência humana da tentação:
«Na sua viagem terrena, a nossa vida não pode escapar-se à provação da tentação, porque o nosso progresso se realiza pela nossa provação; ninguém se conhece a si mesmo sem ter sido provado, e não pode ser coroado sem ter vencido, não pode vencer sem ter combatido, e não pode combater se não encontrou o inimigo e as tentações.»
Desde o princípio, o homem leve este combate contra o inimigo e as tentações.
No deserto, Cristo vem reviver concretamente este combate velho como o mundo e dar-lhe um novo desfecho.
Três tentações, três vitórias de Jesus, pelas quais o homem reencontra a sua liberdade original.
«Jesus Cristo, no deserto foi tentado pelo demónio. Mas em Cristo, és tu que eras tentado, porque Cristo tinha de ti a carne, para te dar a salvação; tinha de ti a morte, para te dar a vida; tinha de ti os ultrajes, para te dar as honras; por isso tinha de ti as tentações para te dar a vitória. Se é n’Ele que somos tentados, é n’Ele que dominamos o demónio. (…) Se Ele não tinha sido tentado, Ele não te teria ensinado, a ti que deves ser submetido à tentação, como alcançar a vitória.» (S. Agostinho)
Com Jesus, homem livre, não tenhamos medo de enfrentar o deserto da tentação que é também o deserto da libertação!
Afinal, Cristo mostrou-nos, quando colocados diante de escolhas que devemos fazer, a maneira de agir num acto livre: seguir a Palavra de Deus.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Deus, na sua sabedoria, nos deu a Quaresma

«Caríssimos, no propósito de vos falar do santo jejum da Quaresma, como poderia começar melhor o meu sermão senão pelas palavras do Apóstolo, mensageiro de Jesus Cristo, repetindo estas palavras que acabamos de ler: ‘Eis o tempo favorável, eis o dia da salvação’ (2 Cor 6, 2)?
Apesar de o Senhor nos cumular de graças a toda a hora, e a sua divina misericórdia nos ajudar sempre, é no entanto necessário que a alma se entregue com maior zelo à prática da virtude, e abrace maiores esperanças neste tempo, onde o cumprimento dos mistérios da nossa redenção nos convida especialmente a exercer muitos actos de piedade, para podermos celebrar com pureza de coração e de espírito, o mistério santo e incomparável da Paixão de nosso Senhor.
Deveríamos adorar constantemente estes divinos mistérios com a mesma piedade, com o mesmo amor, e sermos sempre puros diante de Deus como o devemos ser pela festa da Páscoa.
Mas poucas pessoas possuem fervor suficiente para isso; a fraqueza da carne nos impede de perseverar na recta observância destes divinos preceitos; e as tarefas e preocupações desta vida causam tão grande distracção que até as almas mais virtuosas não conseguem preservar-se do pó do mundo; por isso, Deus, na sua sabedoria, nos deu a Quaresma para purificar as nossas almas, e pelas nossas boas acções e o nosso piedoso jejum, resgatar as faltas que cometemos ao longo do ano.»


São Leão Magno, Sermão I sobre a Quaresma





Como se manifesta a penitência na vida cristã?
A penitência manifesta-se de muitas maneiras, em especial pelo jejum, a oração e a esmola. Estas e muitas outras formas de penitência podem ser praticadas na vida quotidiana do cristão, especialmente no tempo da Quaresma e no dia penitencial de Sexta-feira.


Compêndio do Catecismo da Igreja Católica



quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

É o primeiro passo

Quarta-feira de Cinzas é o primeiro dia da Quaresma, este período de 40 dias que nos separa da Páscoa. Para os cristãos, é dia de jejum e de abstinência. Por jejum, não se entende privação total de alimento, mas uma ascese que consiste em libertar-se do supérfluo, do inútil, e Deus sabe o quanto somos tentados pelo inútil, quer na alimentação, quer nos prazeres da vida, aos quais muitas vezes somos incapazes de renunciar.
Hoje, a Igreja convida a jejuar e a abster-se de tudo o que é inútil na nossa vida. A cada um de encontrar aquilo a que renunciará, não num espírito de “mortificar-se por mortificar-se”, nem por dolorismo, mas tudo para reencontrar o desejo de Deus, e através disso, melhor escutá-l’O e ir ao encontro do próximo.


Também hoje, a Igreja nos convida na Eucaristia a receber as “cinzas”. Por meio deste rito, o sacerdote diz a cada um dos participantes: “Convertei-vos e acreditai no Evangelho!”, isto é, ao longo deste tempo quaresmal que começa agora, afastemo-nos das faltas, renunciemos ao egoísmo, à violência…voltemo-nos para Aquele que nos cura. Voltemo-nos para Aquele que se prepara para morrer na cruz.
Por isso, Quarta-feira de Cinzas é um dia importante: é o primeiro passo que acompanha os passos de Cristo até à sua paixão, até à sua morte e ressurreição.

Bom início de Quaresma a todos!

sexta-feira, 16 de março de 2007

A Primavera vem depois do Inverno

Daqui alguns dias, entraremos oficialmente na Primavera.
Mas para aqueles que param um pouco nas suas vidas agitadas, para olhar à sua volta, fazendo das coisas pequeninas do dia a dia, breves momentos de contemplação e de meditação, estes, já repararam que a natureza está diferente…mais florida, mais viva. Tudo puxa e cresce…a Primavera vem depois do Inverno. A vida triunfa na Criação.
Muitos já não sabem valorizar o milagre anual das árvores em flor, das sementes a crescerem, dos bolbos enterrados a germinar, saindo da terra pequenas flores que desabrocham nos nossos quintais, nas bermas das estradas.
Tudo isso é uma antevisão daquilo que os cristãos celebrarão dentro de algumas semanas, e do qual ainda se preparem neste tempo quaresmal. Se ainda vivem o deserto, e dentro de alguns dias, entrarão em Jerusalém e assistirão à Paixão e Morte de Jesus, a meta é a Páscoa…o Domingo em que Cristo vivo triunfa na Criação.

Olhar para os narcisos, os lírios, as tulipas, que, ainda há dias estavam escondidos na terra, desenvolveram-se, e agora resplandecem de beleza, é olhar para a nossa conversão em crescimento, ainda escondida no nosso coração, e que pelo Domingo da Ressurreição, se manifestará na alegria d’Aquele que voltou à vida.
Este fenómeno é também um recordar daquilo que é a vida do homem, daquilo que Jesus nos alcançou. Após os tempos invernosos da provação, da dificuldade, da cruz, às vezes muito longos, vem sempre o tempo da primavera, da alegria desejada em que a vida prevalece e vence.
Se as árvores, as flores, que são obrigados a seguir o processo natural das coisas, não optem por si passar do Inverno à Primavera, para o homem…já é diferente. Mesmo se o desejo de viver na verdade está profundamente enraizado no ser humano…tudo isso releva da escolha…da liberdade que Deus deu a cada um, ver e viver as coisas à sombra da cruz e à luz da Ressurreição.

“Troquemos o instante pelo eterno,
sigamos o caminho de Jesus.
A Primavera vem depois do Inverno,
a alegria virá depois da cruz.

Passa o tempo, com ele, as nossas vidas;
tal como passa o bem, passa a desgraça.
Passam todas as coisas conhecidas...
só o nome de Deus é que não passa.

Farei da fé, vivida cada dia,
a luz interior que me conduz,
à luz de Deus, da paz e da alegria,
à luz da glória eterna, à Luz da Luz.”

Hino da Liturgia da Horas

sexta-feira, 9 de março de 2007

Hão-de olhar para Aquele que trespassaram

“A Quaresma é tempo propício para aprender a deter-se com Maria e João, o discípulo predilecto, ao lado d’Aquele que, na Cruz, cumpre pela humanidade inteira o sacrifício da sua vida (cf. Jo 19, 25). Portanto, dirijamos o nosso olhar com participação mais viva, neste tempo de penitência e de oração, para Cristo crucificado que, morrendo no Calvário, nos revelou plenamente o amor de Deus.”

Bento XVI, Mensagem para a Quaresma 2007

quarta-feira, 7 de março de 2007

Queres jejuar esta Quaresma ?

Jejua evitando de julgar o próximo ;
e enche-te de JESUS de Nazaré que está ao teu lado.

Jejua das palavras que magoam;
e enche-te de PALAVRAS AMÁVEIS.

Jejua do teu descontentamento;
e enche-te de GRATIDÃO.

Jejua das tuas vãs cóleras;
e enche-te de PACIÊNCIA.

Jejua do teu pessimismo;
e enche-te de CONFIANÇA EM DEUS.

Jejua das tuas preocupações;
e enche-te das MARAVILHAS que te rodeiam.

Jejua do teu contínuo stress;
e enche-te de ORAÇÃO que gera a calma.

Jejua da tua amargura ;
e enche-te de PERDÃO.

Jejua do teu desespero ;
e enche-te de ESPERANÇA.

Jejua dos teus pensamentos de fraqueza,
e enche-te das PROMESSAS que te fez o Senhor.

sexta-feira, 2 de março de 2007

Jejuar para partilhar

O jejum tem como objectivo dar fome e sede de Deus e da sua Palavra. Abster-se ou renunciar a algo não é somente um gesto de penitência mas também um gesto de solidariedade com os pobres e um convite à partilha e à esmola.

No tempo da Quaresma, em todas as dioceses portuguesas, existe uma recolha de fundos chamada “Contributo penitencial”, que visa apoiar iniciativas locais mas também estrangeiras, para o desenvolvimento de projectos pastorais e de ajuda ao próximo. Os donativos dos cristãos neste contributo poderiam resultar da vivência do jejum e das renúncias quaresmais.

Neste tempo de preparação para a Páscoa, algumas paróquias ou instituições escolares organizam várias iniciativas para fazer do jejum um verdadeiro momento de entreajuda.
Aqui em Portugal, sei que existe nalgumas dioceses, e até na Pastoral universitária, uma campanha que consiste em abdicar de uma refeição habitual para comer uma sanduíche, num ou em vários dias da Quaresma. Este gesto recorda que nem toda a gente come à sua fome, mas também, faz com que a diferença monetária da sanduíche com a refeição normal seja revertida a favor de uma associação de solidariedade ou de um projecto caritativo.
Em França, para ajudar o “Secours Populaire” (Caritas) e o “Comité Católico contra a Fome e para o Desenvolvimento” (CCFD), foi criada a campanha “Tigela de arroz”, que consiste no mesmo princípio do que a “sanduíche portuguesa”...só muda o alimento.
Pode-se adaptar estes exemplos ao gosto individual, em vez de pão ou de arroz, pode ser uma sopa ou outra refeição económica…o que interessa é jejuar para partilhar com quem necessita.

Outra iniciativa para viver o jejum com a esmola, é criar um “Mealheiro Quaresmal” em que todas as renúncias monetárias de tabaco, álcool, café, guloseimas e outras, segundo a criatividade e disponibilidade de cada um, podem ser poupadas e reunidas ao longo dos 40 dias numa caixinha, e depois, serem entregas a alguém ou a uma instituição que precisa da nossa ajuda monetária.

Mas o jejum não sendo só aplicável à comida, mas também ao tempo de lazer, de divertimento, de televisão, de Internet; a esmola pode ser vivida então como doação do seu tempo a favor do outro. Pode ser uma conversa mais atenta e demorada com um vizinho que vive só, algumas horas de participação nas actividades na Paróquia ou de trabalho voluntário nalguma associação.

Vivendo assim o jejum, na discrição que o Evangelho impõe e com alguma imaginação pessoal, vivemos a esmola, a partilha com o próximo...claro, sem esquecer a esmola do nosso amor a Deus na oração.

quinta-feira, 1 de março de 2007

A esmola

“'A oração, diz Santo Agostinho, tem duas asas que a fazem voar direito para o céu: o jejum e a esmola.' O capitulo 58 do livro de Isaías revela-nos a insuficiência do jejum que não é acompanhado de boas obras, eis as palavras que o profeta põe na boca de Javé como resposta ao seu povo que lamenta não ser atendido na oração: ‘O jejum que eu aprecio é este: abrir as prisões injustas, desatar os nós do jugo, deixar ir livres os oprimidos…repartir o teu pão com o esfomeado, dar abrigo aos infelizes sem asilo, vestir o nu.’ E o Evangelho, confirmando estes conselhos, lembra que os verdadeiros filhos do Pai que está nos céus devem ultrapassar em virtude e em boas obras os publicanos e os pagãos, aspirando em serem perfeitos como o Pai o é, amando até os inimigos, retribuindo-lhes o bem pelo mal, orando pelos seus perseguidores (Mt 5).
‘Desejais, diz São Cirilo de Alexandria, apresentar a Jesus Cristo um verdadeiro jejum, um jejum puro? Olhai favoravelmente aqueles que lutam contra a pobreza.’ A esmola deve ser ela também, uma companheira fiel do jejum. Jejuai, orai, partilhai, e vivereis perfeitamente a vossa Quaresma.”


Sermão de um dominicano - 1929

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Viver o deserto

A Quaresma, entre outros sentidos, recorda os 40 dias de Jesus no deserto, 40 dias de solidão, de silêncio e de oração.

Na Sagrada Escritura, este local inóspito aparece como lugar que permite a revelação de Deus, como aconteceu com Moisés e Elias.
Se a Igreja não nos pede para partir para o deserto como Cristo, podemos no entanto, no meio dos homens, permanecendo em contacto com eles, procurar também nós, viver o “deserto”, na oração, solidão, e fazer silêncio de realidades inúteis ou secundárias.
Jesus é o melhor exemplo para viver tudo isso. Muitas vezes, procurou a solidão e o silêncio, afastando-se dos amigos e das multidões, para poder falar a sós com o Pai, e pediu aos seus discípulos para também fazê-lo…”quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta”. (Lc 6,6)

Viver a Quaresma neste espírito do “deserto”, pode ser uma maneira de voltar a dar um carácter sério e sagrado à palavra. É bom fazer ascese de palavras, disciplinar aquilo que proferimos, para conseguir a harmonia pessoal, com Deus e o próximo, que procuramos alcançar neste tempo tão especial.
A nossa palavra inconsciente ou falsa pode ter consequências desastrosas, mas se ela for verdadeira, coerente com aquilo que acreditamos, ela pode transformar-se num testemunho vivo, numa semente de algo para descobrir para quem a ouvir. Afinal, “o homem não vive só de pão, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus”. (Mt 4,4)

Na nossa cultura moderna, a beleza da interioridade, que a solidão, o silêncio e a oração constroem, desaparece facilmente.
É-nos imposto uma necessidade constante de ruído. Quantas pessoas não ligam a televisão ou o rádio para não se sentirem só. O silêncio é visto como algo negativo, como ausência de algo, e não como algo para saborear, uma presença, condição para qualquer presença verdadeira.
O mundo silencioso não é um mundo vazio, mas oferece-nos a possibilidade de nos concentrar e ter uma vida interior…uma vida de intimidade que nos abra para Deus.

Meditemos as palavras que D. Jorge, Arcebispo de Braga, dirigiu aos cristãos na sua mensagem para a Quaresma:
“A solidão proporciona um encontro com o eu, com a Palavra meditada, com a análise serena dos acontecimentos da vida, com a companhia de um bom livro… (…)
Sugiro por isso, uma Quaresma de espaços de deserto onde se deixam as preocupações quotidianas e, com mais ou menos tempo, me encontro comigo ouvindo o silêncio interior.”


“Silencie-se diante deste Deus grandioso pois...
a linguagem que Ele mais ouve é a do amor silencioso.”
Santa Teresa de Jesus

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Redescobrir nesta Quaresma

Como aplicar os ensinamentos da Igreja sobre a Quaresma, e como a Quaresma pode influenciar realmente, e não somente exteriormente, a nossa existência?

Vivemos hoje numa sociedade mais urbana, até as aldeias vivem ao ritmo citadino, uma sociedade tecnológica, plural nas crenças religiosas e secular na sua visão do mundo.
A Quaresma já não é tão “visível”como noutros tempos.

No entanto, a Igreja convida-nos a encontrar outro ritmo, outro estilo de vida que se sintonizam com os objectivos deste tempo quaresmal…encontrar uma força espiritual na realidade quotidiana da nossa existência.

A Quaresma pode assim ser um momento privilegiado na procura do sentido, como vocação e apelo de Deus, da vida profissional, da relação com os outros, da amizade, da responsabilidade. Não existe nenhuma profissão, nenhuma vocação que não possa ser transformada, não em termos de maior eficácia ou melhor organização, mas em termos humanos.

Se a Quaresma pode ser para o homem uma redescoberta de ele próprio e da sua vida, ela deve ser ainda mais redescoberta da sua fé, do seu sentido divino e sagrado.
Será certamente neste contexto que se situa o verdadeiro sentido do jejum…muito debatido nos blogs e sites católicos neste início de Quaresma.

Eis algumas reflexões que surgiram das minhas leituras sobre o tema.
Abstendo-nos do alimento, redescobrimos a sua doçura e fineza que os excessos, a gula e a glutonaria destroem.
Reaprendemos a recebê-lo de Deus com alegria e gratidão, Ele que criou o alimento dos homens, “fruto da terra e do seu trabalho para que se tornem pão de vida.”
O alimento não é o único aspecto da vida do homem sujeito ao jejum. A música, o tempo frente à televisão, computador, Internet, os divertimentos, as conversações superficiais devem também ser reduzidos, redescobrindo assim o valor verdadeiro das relações humanas, do trabalho do homem e da sua arte.
E tudo isso é redescoberto porque redescobrimos o próprio Deus. Voltaremos, pela oração e na relação íntima de Pai e filho, para Ele, e n’Ele, a tudo o que Ele nos deu no seu amor.

Convido cada um, neste grande potencial do conhecimento que é a Internet, a procurar lindos textos sobre o valor e a riqueza do jejum e da ascese cristã como meditações quaresmais…ajudarão certamente todos os que têm sede de Deus a preparar ao longo destes 40 dias a grande festa da Páscoa.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

Senhor Jesus, contigo irei ao deserto

Senhor Jesus, contigo irei ao deserto,
impelido como Tu pelo Espírito.


Como Tu,
durante quarenta dias,
jejuarei aquilo que não é essencial na minha vida,
para comer a tua Palavra,
porque está escrito:
“Nem só de pão vive o homem,
mas de toda palavra que sai da boca de Deus.”

Como Tu,
deixarei os deuses do mundo:
o poder, o dinheiro, a fama,
para me prostrar diante do Pai,
porque está escrito:
“Ao Senhor teu Deus adorarás,
só a Ele prestarás culto.”

Como Tu,
renunciarei à minha vontade,
não desafiarei o Pai,
mas abandonar-me-ei nas suas mãos,
porque está mandado:
“Não tentarás o Senhor teu Deus”,
afinal, Ele sabe o que é melhor para mim.

Senhor Jesus, contigo irei ao deserto,
impelido como Tu pelo Espírito.