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quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

A presença do Mal no mundo é um mistério

A presença do Mal no mundo é um mistério que não entendemos plenamente e ao qual nenhuma religião dá uma resposta completamente satisfatória.
No século XVIII, alguns filósofos afirmavam rigorosamente que: “Ou Deus não tem poder de impedir o Mal, e então não é todo-poderoso; ou então pode, mas, por sadismo não o faz, e por isso não é bom. Se Ele não é todo-poderoso, não é Deus, e se não é bom, pouco interessa, é melhor não acreditar n’Ele.”
O problema do Mal parece justificar o ateísmo.
No entanto, os cristãos sempre viram as coisas de outra maneira. O Deus em que acreditam não é indiferente, nem sádico, mas ama os homens, e é à luz dessa relação de Deus com eles que os cristãos tentam ler o enigma do Mal.
A Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja ajudam a entender melhor o mistério do Mal.
Se Deus é amor, isso implica que Ele nos criou livres. O amor sem liberdade é violação, é escravidão.
Deus é o primeiro a sofrer com o Mal e é inocente do Mal. Nunca o desejou e não o criou, mas deixou ao homem o tesouro da liberdade, da livre escolha e vontade. Tesouro que o homem desviou de Deus. Assim o pecado, com a morte e o sofrimento, pôde entrar no mundo.
Esta liberdade de acção, o ser humano pode orientá-lo para o bem como para o mal, para caminhos de vida que Deus aponta, ou para caminhos de morte.
Não é preciso ser doutor em teologia para distinguir duas formas de Mal: o Mal “culpável” e o Mal “inocente” (mortes e catástrofes naturais).
O Mal “culpável” é causado pelos homens. Genocídios, campos de concentração e guerras não são acidentes naturais. A responsabilidade do Mal "culpável" é do homem.
Se Deus abrisse os céus para preservar cada criança que morre por causa da guerra, onde estaria a liberdade dos assassinos?
Então, o Deus dos cristãos é um mero espectador lá do alto, a ver os homens a bulha?
Não, Ele desce desse alto!
Em Jesus Cristo, Deus vem à Terra viver como homem, no meio dos homens.
E se Ele partilhou os trabalhos, as refeições e as festas com eles, também como eles, padeceu no corpo e na alma, e morreu.
E porque na cruz, Jesus, por amor, tomou sobre Si todo o sofrimento, qualquer homem que sofre pode unir-se à paixão de Jesus. Todo o homem pode encontrar em Cristo a força de amar apesar de sofrer, tornando o sofrimento uma ligação misteriosa a Deus e ao próximo.
Estranha resposta de Deus ao problema do Mal…Em vez de explicar ao homem donde vem o Mal, Ele o vive. Em vez de tirar a “varinha mágica” de Deus omnipotente para tornar o mundo melhor, Ele se faz pequeno e humilha-se.
Assim, os cristãos afirmam que Deus não é insensível ao homem que sofre, mas, cheio de compaixão, vem tomar sobre Si o sofrimento. A participação divina às dores humanas é intemporal porque Deus abraça a eternidade num só presente. Por isso, Deus partilha ainda hoje todos os nossos sofrimentos, e podemos dizer que “Jesus está em agonia até ao fim do mundo” (Blaise Pascal).


Mas não podemos ficar no calvário…devemos ir até ao sepulcro vazio!
A ressurreição de Jesus ao terceiro dia é a grande vitória de Deus sobre o Mal, que Ele abraçou para triunfar dele, mergulhando nos abismos da morte para de lá sair.
Para os cristãos, a morte e ressurreição de Cristo são a prova que Deus toma sobre Ele o problema do Mal, que o combate e o vence misteriosamente. E porque Ele é infinitamente bom, Ele deseja associar todos os homens nesta vitória.
Os cristãos não podem, como também os outros homens, explicar o Mal, mas eles acreditam, muitas vezes sem bem entendê-lo, que a ressurreição de Jesus inaugura um novo tempo onde o Mal já foi vencido.


P.S: Este post, para não ser demasiado extenso, é um breve resumo de algumas leituras sobre o escândalo do Mal. Convido cada um a aprofundar o tema...

Ícone da "Descida de Jesus aos infernos"...Cristo Vencedor tira da morte Adão e Eva.

domingo, 25 de novembro de 2007

“Este é o rei dos judeus”.

“Este é o rei dos judeus”.
Esta inscrição colocada em cima da cabeça do Crucificado manifesta bem como Jesus é sinal de contradição. Os soldados zombam d’Ele devido ao contraste entre a sua impotência visível de condenado e esta realeza inconcebível para eles. O bom ladrão, cujo acto de fé repousa na realeza de Jesus, alcança logo a misericórdia e a entrada na vida eterna. Dois mil anos depois, professamos que este Crucificado é nosso rei e que Aquele de quem somos discípulos, não reina de outra maneira do que pela loucura desta cruz gloriosa, esperando a nossa salvação desta fé.
Esta realeza desprezada e misteriosa apareceu depois na luz do dia da Ressurreição, no momento da Ascensão, no Pentecostes que revelou que a salvação não tinha acontecido só para o povo judeu donde saiu o Messias, mas também por todos os que acreditariam em Cristo, pois Deus quer que todos os homens sejam salvos (1 Tm 2,4). Esta realeza universal de Jesus se manifestará no último dia, para alegria daqueles que o acolheram e para a confusão daqueles que o recusaram ou negaram.
“Então és rei?” perguntava Pilatos (Jo 18,37). Rei dos judeus, sim, mas mais ainda. Este pobre prisioneiro é o rei do mundo, do cosmos, do universo. Verbo feito homem, ele é o Filho, imagem de Deus invisível, o primogénito de toda a criatura (Col 1,16). Por Ele tudo foi criado e sem Ele nada foi feito (Jo 1,3). Por Ele e para Ele tudo foi criado (Col 1, 16). Ele é o alfa e o ómega da história de cada pessoa, das famílias, das nações e do género humano.




Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente...
Com o óleo da alegria
consagrastes Sacerdote eterno e Rei do universo
o vosso Filho, Jesus Cristo, Nosso Senhor,
para que, oferecendo-Se no altar da cruz,
como vítima de reconciliação,
consumasse o mistério da redenção humana
e, submetendo ao seu poder todas as criaturas,
oferecesse à vossa infinita majestade
um reino eterno e universal:
reino de verdade e de vida,
reino de santidade e de graça,
reino de justiça, de amor e de paz.


Prefácio da Solenidade de Cristo Rei

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Um único sermão e 3000 pessoas se convertem!

«De pé, com os Onze, Pedro ergueu a voz e dirigiu-lhes então estas palavras:
‘Homens de Israel, escutai estas palavras: Jesus de Nazaré, Homem acreditado por Deus junto de vós, com milagres, prodígios e sinais que Deus realizou no meio de vós por seu intermédio, como vós próprios sabeis, este, depois de entregue, conforme o desígnio imutável e a previsão de Deus, vós o matastes, cravando-o na cruz pela mão de gente perversa.
Mas Deus ressuscitou-o, libertando-o dos grilhões da morte, pois não era possível que ficasse sob o domínio da morte.’
Os que aceitaram a sua palavra receberam o baptismo e, naquele dia, juntaram-se a eles cerca de três mil pessoas.»


Actos dos Apóstolos, 2, 4.14.22-24.41




Um único sermão e 3000 pessoas se convertem!
Como? A resposta é o Espírito Santo. Ele é oferecido e vem cumprir maravilhas no coração do homem. Sem o Espírito Santo, não se pode entender o amor de Deus. Podemos ter o mais belo discurso do mundo com as mais belas palavras que existem, mas sem Ele, é impossível.
A Igreja, os cristãos, são chamados a testemunhar Cristo, anunciá-lo, mas na desapropriação deste mesmo anúncio porque “só Deus se dá aos corações e se propõe à sua liberdade.” (Madalena Delbrel)
Somos fracos, pobres. Nas nossas mãos Deus colocou um tesouro que não nos pertence: o Evangelho, que deve ser por nós proclamado, “Ide e anunciai…”; mas que não podemos impor.
O amor é proposto à liberdade e não imposto.
Bernardete, a vidente de Lurdes, dizia aos detractores das aparições: “A Virgem incumbiu-me dizer, não de convencer.”
A Boa Nova que os cristãos são chamados a anunciar é que Cristo ressuscitou de entre os mortos para nos dar a vida. É por amor que o mistério da Redenção aconteceu. “Não há maior prova de amor do que dar a vida.”
“Evangelizar um homem, é dizer-lhe que ele é amado por Deus, e não é só dizer-lhe, mas mostrar-lhe, e não é só mostrar-lhe, mas manifestar com a nossa atitude que ele é único aos olhos de Deus.”Mais que um discurso, é um olhar ou um gesto que evangeliza.
Mas para anunciar o amor redentor de Deus, é necessário sermos também nós convencidos de que Deus nos ama.
Este amor de Deus significa que Deus nos ama pessoalmente, que Ele olha amorosamente para cada um de nós, nos levanta e nos ama como somos. Na nossa pobreza e miséria, Deus manifesta o seu amor.


Senhor faz-me viver do teu amor
para anunciá-lo a todos os homens!


sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Toda a nossa glória está na cruz

«Antes, a cruz simbolizava o desprezo, mas hoje ela é algo de venerável;
antes, era sinal de condenação, hoje ela é esperança salvadora.
Ela tornou-se verdadeiramente a fonte dos bens eternos;
ela libertou-nos do erro, dispersando as trevas, reconciliou-nos com Deus;
de inimigos de Deus ela converteu-nos na sua família,
de estrangeiros ela fez de nós vizinhos.
Esta cruz é a destruição da inimizade, a fonte da paz, o escrínio do nosso tesouro.»

São João Crisóstomo
De Cruce et latrone I, 1, 4


«Toda a nossa glória está na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo,
n’Ele está a nossa salvação, vida e ressurreição.
Por Ele fomos salvos e livres.»

Gal 6, 14



Adoramus Te, Christe, et benedicimus tibi;
quia per sanctam crucem tuam, redemisti mundum.


Nós Te adoramos e bendizemos, ó Cristo;
que pela tua santa cruz remiste o mundo.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Tomar a cruz

«No Evangelho, Jesus nos recorda qual o ponto de referência e o sinal do amor autêntico: ‘Tomar a sua cruz’.
Tomar a sua cruz não significa procurar os sofrimentos. Jesus também não foi procurar a sua cruz; Ele tomou-a sobre si, em obediência à vontade do Pai, a mesma que os homens carregaram os seus ombros. Pelo seu amor obediente, Ele fez deste instrumento de suplício um sinal de redenção e de glória.
Jesus não veio aumentar as cruzes humanas…mas dar-lhes um sentido.
‘Quem procura Jesus sem a cruz, encontrará a cruz sem Jesus’, isto é, encontrará a cruz mas sem a força para levá-la.»


Pe. Raniero Cantalamessa OFM Cap,
Pregador da Casa Pontifícia

sábado, 23 de junho de 2007

Seguir o Mestre

-«Vou fazer-vos uma pergunta…
a mesma que fiz um dia ao meus discípulos:
Quem dizeis que Eu sou?»
-«És o Messias de Deus,
Aquele que sofreu muito,
que foi rejeitado pelo seu povo,
que morreu e ressuscitou ao terceiro dia!»
-«E quereis vir comigo?»
-«Sim. Que devemos fazer?»
-«Renunciai a vós mesmo,
tomai a cruz todos os dias
e segui-me.»
-«Porquê?»
-«Pois bem...quem quiser salvar a sua vida,
há-de perdê-la;
mas quem perder a sua vida por minha causa,
salvá-la-á.»


Inspirado de Lc 9, 18-24



«Porque temes, pois, tomar a cruz, pela qual se caminha para o reino de Deus?
Na cruz está a saúde e a vida.
Na cruz está o refúgio contra os inimigos, a doçura da graça, a força da alma, a alegria do espírito, a perfeição das virtudes, o cume da santidade.
Não há salvação nem esperança da vida eterna senão na cruz.
Toma, pois, a tua cruz e segue a Jesus Cristo, e caminharás na vida eterna.
Este Senhor foi adiante, levando às costas a sua.
Nela morreu por teu amor, para que tu leves também a tua e nela desejas morrer.»

Imitação de Cristo L2, XII

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Peregrinação a Jerusalém 2ª parte

«Às oito horas da manhã, estávamos perto da capela da Cruz. O bispo estava sentado, diante de nós. À frente dele, uma mesa coberta de uma toalha. Na mesa, estava um pequeno cofre aberto, e via-se o precioso pedaço da verdadeira cruz de Jesus que se guarda em Jerusalém. Um a um, passámos diante do bispo. Como os outros, toquei o madeiro da cruz com a fronte, depois com os olhos, e por fim beijei-o. Ninguém o toca com as mãos. Só o bispo carrega com suas mãos as duas extremidades do madeiro. À volta dele, os sacerdotes vigiam. Conta-se que um dia, alguém mordeu o madeiro da cruz para roubar um pedaço. Por isso é vigiado.




A homenagem à Cruz durou até ao meio-dia. Ao meio-dia, estávamos todos lá fora, perto da capela. Até às três horas foi lido dos evangelhos, a narração da Paixão de Jesus; e também todas as passagens que tratavam da Paixão de Jesus nos Actos dos Apóstolos, ou nas cartas de São Paulo; e ainda os passos do Antigo Testamento que recordam os sofrimentos e a morte de Jesus. Entre as leituras, há orações e hinos. Tudo isso prolonga-se até às três horas. Mais uma vez, não era possível conter as lágrimas ao pensar em tudo o que o Senhor sofreu por nós.
Às três horas, foi lido o trecho do evangelho segundo São João que conta a morte de Jesus. Depois, fomos para a grande igreja. Toda a gente ficou em oração até às sete horas da tarde. Às sete, leu-se o passo do evangelho da sepultura.
Estávamos completamente esgotados. Muitos regressaram a casa. Mas alguns permaneceram para uma segunda noite de oração.»

Crucem tuam adorámus, Dómine,
et sanctam resurrectiónem tuam laudámus et glorificámus:
ecce enim propter lignum venit gáudium in univérso mundo.


Adoramos, Senhor, a tua cruz,
louvamos e glorificamos a tua santa ressurreição:
por este lenho veio a alegria ao mundo inteiro.



Fotos: oração diante da pedra onde foi depositado o corpo de Jesus descido da cruz, antes da sepultura, e capela do Calvário, onde os fiéis podem beijar a fenda da rocha onde a cruz foi erguida.

terça-feira, 3 de abril de 2007

"Tenho sede!"

"Tenho Sede!"

“Jesus teve sede mas, ao invés de água, deram-lhe vinagre. Também para nós Jesus vive a dizer: "Tenho sede! Tenho sede de homens e mulheres, adultos e jovens, que caminhem comigo. Que não tenham medo de correr riscos, que não se apeguem a títulos, cargos e aos bens transitórios deste mundo. Que estejam dispostos a levar a boa nova a todas as criaturas. Tenho sede de justiça e de trabalho para todos, pois afinal meu Pai não criou o mundo só para alguns, mas indistintamente para todos. Tenho sede de pessoas que não aceitem o erro, porque é muito difícil combatê-lo. Tenho sede de ver a humanidade inteira totalmente feliz! Saciem pois essa minha sede, e a minha redenção pela cruz estará plenamente realizada!"


Sermão das 7 palavras de Cristo na cruz
Revista Família Cristã

sexta-feira, 23 de março de 2007

Vera Cruz

A Quaresma é por excelência o tempo da contemplação da Cruz, na qual “foi suspenso o Salvador do mundo”.
Desde os primórdios do cristianismo, ela é reverenciada. O Apóstolo São Paulo já dizia: “Toda a minha glória está na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gal 6,14).

Mas foi a partir do ano de 326, que o culto à verdadeira Cruz, aquela onde Jesus foi crucificado, se estabeleceu, com a imperatriz Helena, esposa de Constâncio Cloro, que, em peregrinação à Terra Santa, fez demolir, em Jerusalém, um templo dedicado a um dos deuses do império romano, construído no monte Calvário, para encontrar a relíquia da Cruz de Cristo.

Eis a linda lenda do descobrimento da verdadeira Cruz segundo Rufino Aquiles:
“Helena veio a Jerusalém, inspirada por Deus. Um sinal celeste indicou-lhe o lugar onde devia escavar. Daí retirou três cruzes, a de Cristo e as dos ladrões. Helena ficou perplexa porque não sabia como reconhecer entre elas o madeiro sobre o qual Jesus sofreu a sua dolorosa agonia. Macário, bispo de Jerusalém, que assistiu a imperatriz nas suas buscas, pediu que trouxesse num catre uma mulher à beira da morte. No contacto com a primeira cruz, a moribunda permaneceu insensível, a segunda cruz também não produziu qualquer efeito, mas quando a mulher tocou na terceira, logo se levantou e andou, louvando a Deus. Este milagre permitiu assim descobrir a verdadeira cruz. Helena dividiu a cruz em três partes, uma para Jerusalém, a segunda para Constantinopla, a terceira para Roma.”


Corredor dentro da Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém,
que conduz ao sítio onde Santa Helena encontrou as 3 cruzes.

A importância da descoberta da relíquia, cuja suposta data seria a 3 de Maio de 326, estabeleceu naquele dia, no calendário litúrgico da Igreja, a festa da Invenção da Santa Cruz, que hoje ainda é celebrado com ênfase na cidade de Barcelos.

Muitas lendas foram criadas à volta da verdadeira Cruz, e na Idade Média, multiplicaram-se as relíquias da Cruz, claro, nem todas são verdadeiras…a minha paróquia tem uma…será que provem mesmo do madeiro do Calvário?

sexta-feira, 16 de março de 2007

A Primavera vem depois do Inverno

Daqui alguns dias, entraremos oficialmente na Primavera.
Mas para aqueles que param um pouco nas suas vidas agitadas, para olhar à sua volta, fazendo das coisas pequeninas do dia a dia, breves momentos de contemplação e de meditação, estes, já repararam que a natureza está diferente…mais florida, mais viva. Tudo puxa e cresce…a Primavera vem depois do Inverno. A vida triunfa na Criação.
Muitos já não sabem valorizar o milagre anual das árvores em flor, das sementes a crescerem, dos bolbos enterrados a germinar, saindo da terra pequenas flores que desabrocham nos nossos quintais, nas bermas das estradas.
Tudo isso é uma antevisão daquilo que os cristãos celebrarão dentro de algumas semanas, e do qual ainda se preparem neste tempo quaresmal. Se ainda vivem o deserto, e dentro de alguns dias, entrarão em Jerusalém e assistirão à Paixão e Morte de Jesus, a meta é a Páscoa…o Domingo em que Cristo vivo triunfa na Criação.

Olhar para os narcisos, os lírios, as tulipas, que, ainda há dias estavam escondidos na terra, desenvolveram-se, e agora resplandecem de beleza, é olhar para a nossa conversão em crescimento, ainda escondida no nosso coração, e que pelo Domingo da Ressurreição, se manifestará na alegria d’Aquele que voltou à vida.
Este fenómeno é também um recordar daquilo que é a vida do homem, daquilo que Jesus nos alcançou. Após os tempos invernosos da provação, da dificuldade, da cruz, às vezes muito longos, vem sempre o tempo da primavera, da alegria desejada em que a vida prevalece e vence.
Se as árvores, as flores, que são obrigados a seguir o processo natural das coisas, não optem por si passar do Inverno à Primavera, para o homem…já é diferente. Mesmo se o desejo de viver na verdade está profundamente enraizado no ser humano…tudo isso releva da escolha…da liberdade que Deus deu a cada um, ver e viver as coisas à sombra da cruz e à luz da Ressurreição.

“Troquemos o instante pelo eterno,
sigamos o caminho de Jesus.
A Primavera vem depois do Inverno,
a alegria virá depois da cruz.

Passa o tempo, com ele, as nossas vidas;
tal como passa o bem, passa a desgraça.
Passam todas as coisas conhecidas...
só o nome de Deus é que não passa.

Farei da fé, vivida cada dia,
a luz interior que me conduz,
à luz de Deus, da paz e da alegria,
à luz da glória eterna, à Luz da Luz.”

Hino da Liturgia da Horas

sexta-feira, 9 de março de 2007

Hão-de olhar para Aquele que trespassaram

“A Quaresma é tempo propício para aprender a deter-se com Maria e João, o discípulo predilecto, ao lado d’Aquele que, na Cruz, cumpre pela humanidade inteira o sacrifício da sua vida (cf. Jo 19, 25). Portanto, dirijamos o nosso olhar com participação mais viva, neste tempo de penitência e de oração, para Cristo crucificado que, morrendo no Calvário, nos revelou plenamente o amor de Deus.”

Bento XVI, Mensagem para a Quaresma 2007

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

O crucifixo

A Quaresma é “um tempo de exercitar o amor a Deus e aos outros de maneira mais intensa. Neste ano, o Santo Padre recomenda que fixemos o Crucifixo: ‘Hão-de olhar para Aquele que trespassaram.’ (Jo 19, 37)


O Crucifixo pode ser visto do nosso lado de pecadores, de baixo para cima, e pode ser visto do outro lado, do lado de Deus, de cima para baixo. Fomos educados a ler a crucifixão de Jesus do lado humano, confessando que Jesus morreu por nossa causa, vítima dos nossos pecados. O Papa recomenda que neste ano a vejamos do outro lado, do lado de Deus, reconhecendo o amor que Deus nos tem, maior que os nossos pecados. (…)
Nesta Quaresma, peço aos párocos que coloquem em relevo na igreja um Crucifixo estimado pelo povo, adornem-no de modo conveniente, afectivamente. Os pais façam o mesmo em suas casas.
Haja um esforço de atenção ao fazer o Sinal da Cruz cujas palavras unem o mistério da Cruz à Trindade, tornando assim claro que no amor de Jesus Crucificado se reflecte o amor do Pai e do Espírito Santo.”


Mensagem para a Quaresma de D. Joaquim Gonçalves, Bispo de Vila Real

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

As chagas de Cristo

Hoje, a Igreja de Portugal celebra a Festa das Cinco Chagas do Senhor.

"Aquilo que não encontro em mim, tomo-o com confiança nas entranhas do Salvador, porque estão cheias de amor, e porque o seu corpo sagrado está suficientemente aberto para elas poderem derramar-se.
Furaram com pregos as suas mãos e os seus pés, e o seu lado com uma lança; e por estas chagas, posso sugar a mel do rochedo, e provar o óleo desta rocha firme, ou seja provar e ver quanto o Senhor é bom.
Nesse estado Ele formava pensamentos de paz, e eu, não sabia de nada. Pois quem conhece os desígnios do Senhor, ou quem nunca tomou parte nos seus juízos?
Mas estes pregos com que foi perfurado, tornaram-se para mim as chaves que me abriram o tesouro dos seus segredos e revelaram a vontade do Senhor.
E porque não o veria através das suas chagas? Os pregos e as feridas clamam alto que Deus está realmente em Jesus Cristo e que reconcilia o mundo com ele mesmo.
O ferro atravessou a sua alma e tocou o seu coração, para que Ele soubesse compadecer-se das minhas enfermidades.
O segredo do seu coração desvenda-se nas aberturas do seu corpo, vemos o grande mistério da sua bondade infinita, entranhas da misericórdia do nosso Deus pelas quais este Sol nascente veio visitar-nos do céu.
Porque suas entranhas não se veriam pelas suas chagas? Pois, Senhor, como poderia manifestar-se melhor a vossa bondade e misericórdia, senão por estas chagas cruéis que sofreste por nós?
Ninguém pode dar maior prova da sua caridade, do que entregar a sua vida pelos que são destinados e condenados à morte."


São Bernardo, sermão sobre o Cântico dos cânticos.


Cristo foi trespassado por causa das nossas culpas

e esmagado por causa das nossas iniquidades.

Pelas suas Chagas fomos curados.

Is 53,5