Lê! Medita! Ora!
«Abre a Bíblia e lê o texto. Não escolhas nunca à sorte, porque a Palavra de Deus não é para paparicar. Obedece ao leccionário litúrgico e aceita o texto que a Igreja te oferece hoje, ou então lê um livro da Bíblia do início ao fim, fazendo uma leitura cursiva. (…)
Lê o texto não somente uma vez, mas várias, e até em voz alta. (…)
Se conheces bem o trecho, e que és tentado em lê-lo demasiado rápido, não temas em recorrer a métodos que te impedirão uma leitura rápida e superficial; escreve e recopia o texto. Não lê somente com os olhos, mas procura imprimir o texto no teu coração. (…)
Que a tua leitura seja escuta/audição (audire), e que a escuta se torne obediência (oboedire). Não te apresses. É necessário ler devagar (lectioni vacare), porque a leitura faz-se pela escuta. A Palavra deve ser escutada!
O que significa meditar? Não é fácil dizê-lo. Significa antes de tudo analisar a mensagem que leste e que Deus quer comunicar-te. Por isso exige um esforço, um trabalho, porque a leitura deve transformar-se em reflexão atenta e profunda. (…)
Deves dedicar-te a esta reflexão, segundo a tua cultura, as tuas capacidades e segundo os teus meios intelectuais. (…)
Orígenes dizia: ’ A escuta não é recepção passiva de um determinado texto, mas esforço da parte do cristão em penetrar sempre mais no sentido inesgotável da Palavra divina segundo as suas capacidades pessoais e a perseverança com que ele o faz.’
Este esforço pessoal deve procurar o “cume espiritual” do texto; não a frase que se destaca, mas a mensagem central que transporta para o acontecimento da morte e ressurreição do Senhor. (…)
Tem a humildade de às vezes reconhecer que não entendeste grande coisa ou até nada. Mais tarde o entenderás. (…)
Se percebeste algo, rumina as palavras no teu coração e aplica-as a ti próprio, à tua situação, sem cair em psicologismos, introspecções e acabando por fazer o teu exame de consciência. É Deus que está a falar contigo, contempla-O a Ele e não a ti próprio. Não te deixes paralisar por uma escrupulosa análise das tuas limitações e deficiências perante as exigências divinas que a Palavra te revelou.
Certo, a Palavra é também julgamento, ela perscruta o teu coração, ela manifesta o teu pecado, mas lembra-te que Deus é maior do que o teu coração (cf Jo 3,20) e que esta ferida no teu coração vem de Deus, e que Ele a fez sempre com verdade e misericórdia. (…)
Encanta-te com Aquele que te fala ao coração, pelo alimento que Ele te dá, mais ou menos abundantemente, mas sempre salutar. Encanta-te pela Palavra que se estabeleceu no teu coração, sem a teres procurada no céu ou para além dos mares (cf Dt 30,11-14). Deixa-te seduzir pela Palavra que te transforma em imagem do Filho de Deus sem saberes como. A Palavra que recebeste é para ti vida, alegria, paz e salvação! (…)
A meditação, a "ruminatio" deve fazer com que sejas a morada do Pai, do Filho e do Espírito.
Agora, fala com Deus, responde-Lhe, responde aos seus convites, aos seus apelos, às suas inspirações, aos seus pedidos, às suas mensagens que Ele te dirigiu por meio da Palavra entendida no Espírito Santo. (…)
A “meditação” tem por objectivo a oração. Chegou o momento. Por isso, não faças grandes discursos espirituais; fala-Lhe com segurança, com confiança e sem medo, longe de qualquer olhar sobre ti mesmo, mas arrebatado pelo seu rosto que se revelou no texto em Cristo Senhor.
Dá graças a Deus pela Palavra oferecida, por aqueles que a anunciaram e ta explicaram, intercede pelos irmãos que o texto te recordou, das suas virtudes e das suas quedas, procura unir o alimento da Palavra e o alimento eucarístico.
Guarda o que viste, ouviste, saboreado na Lectio; guarda-o no teu coração e na tua memória, e vai com os homens, no meio deles, e dá-lhes humildemente esta paz e esta bênção que recebeste. Terás a força de agir com eles, afim de realizar na história a Palavra de Deus, pela tua acção social, política, profissional.
Deus necessita de ti como instrumento no mundo para fazer “novos céus e nova terra”. Outro dia espera por ti, um dia em que, vendo Deus face a face na morte, mostrarás se foste uma “carta viva” escrita por Cristo, Lectio divina para os irmãos, verdadeiro Filho de Deus.»
Enzo Bianchi, Prior do Mosteiro Ecuménico de Bose,
Orar a Palavra, uma introdução à Lectio divina
Este texto é a conclusão dos últimos 3 posts publicados neste blog, sobre a Lectio Divina pelo prior Enzo Bianchi, do Mosteiro Ecuménico de Bose.













Além disso, as férias são dias durante os quais nos podemos dedicar mais prolongadamente à oração, à leitura e à meditação acerca dos significados profundos da vida, no contexto sereno da própria família e das pessoas queridas. O tempo das férias oferece oportunidades únicas para parar diante dos espectáculos sugestivos da natureza, maravilhoso "livro" que está ao alcance de todos, grandes e pequeninos. No contacto com a natureza, a pessoa reencontra a sua justa dimensão, redescobre-se criatura, pequena mas ao mesmo tempo única, "capaz de Deus" porque interiormente aberta ao Infinito. Estimulada pela busca de sentido que se torna urgente no seu coração, ela percebe no mundo que a circunda a marca da bondade, da beleza e da providência divina e quase naturalmente se abre ao louvor e à oração.»



