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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A via da beleza

Admito que sou um interessado pela arte, e acredito que através dela o homem pode exprimir a beleza de Deus e transmitir algo do mistério divino. O passado e o presente artístico da humanidade são provas disso, em todos os campos: arquitectura, pintura, escultura, música, literatura….
Infelizmente, parece que alguma arte sacra moderna segue as pisadas da arte contemporânea…esquece-se da beleza e da mensagem… quanto mais “a coisa se parece com nada”… mais genial é.

«As obras artísticas nascidas na Europa nos séculos passados são incompreensíveis se não levarmos em conta a alma religiosa que as inspirou. Um artista, que sempre demonstrou o encontro entre a estética e a fé, Marc Chagall, escreveu que ‘durante séculos os pintores mergulharam o seu pincel neste alfabeto colorido que é a Bíblia’.
Quando a fé, celebrada de modo particular na liturgia, encontra a arte, cria-se uma profunda harmonia, porque ambas podem e querem falar de Deus, tornando visível o Invisível.
Gostaria partilhar isso no “Encontro com os artistas” a 21 de Novembro, reiterando a proposta de amizade entre a espiritualidade cristã e a arte, desejada pelos meus venerados predecessores, especialmente pelos servos de Deus Paulo VI e João Paulo II. (…)
A via da beleza, é um caminho fascinante e privilegiado para se aproximar do mistério de Deus. Qual é a beleza que escritores, poetas, músicos, artistas, contemplam e traduzem na sua linguagem, senão um reflexo do esplendor do Verbo eterno feito carne?»


Bento XVI, Audiência 18/11/2009



«Um grande artista americano me disse recentemente: ‘Os artistas contemporâneos excluiram duas coisas: a beleza e a mensagem’. É esta visão contemporânea que queremos considerar, como ela é. Sobre este ponto, podemos realmente falar de divórcio com a Igreja. Pois a arte contemporânea parece ter, em grande parte, explorado todas as possibilidades de desconstrução, de niilismo, para nos levar a constatar a inconsistência do ser, provando que nada vale nada, provocando sobre a falta de sentido da nossa realidade. (...)
Acreditamos na possibilidade de um encontro entre fé e arte, desde que a arte saia desta impotência provocadora. Do mesmo modo, a Igreja não deve contentar-se numa recuperação desajeitada de estilos antigos e produções artesanais, sem ambição. Ela deve aceitar o confronto com novas gramáticas, novos modos de expressão. (...)
A maioria dos grandes arquitectos já construíram uma igreja. Podem ser citados: Renzo Piano (Igreja do Padre Pio, em San Giovanni Rotondo, Itália), Richard Meyer (Igreja de Tor Tre Teste, perto de Roma), Massimiliano Fuksas (Milão), Tadao Ando (que projetou várias igrejas no Japão), etc. E não deve ser esquecido Le Corbusier em Ronchamp.
Todos trabalharam para moldar o espaço na sua nudez, com jogos de luz, intimidade... Mas com uma deficiência: o distanciamento das outras expressões artísticas. Porque, se uma igreja contemporânea é muitas vezes um belo interior, descobrimos que o arquitecto nem sempre se preocupou com os objectos de culto. Assim, vemos altares, estátuas, móveis díspares, mal pensados naquele espaço, no entanto magnífico.
Pelo contrário, um Francesco Borromini, rival de Bernini, aqui em Roma, proponha com as suas igrejas um conjunto coerente e harmonioso. Este é um desafio para hoje.»

Dom Gianfranco Ravasi, Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura.
Pintura: "O Sonho de José", Arcabas (Jean-Marie Pirot )

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Nova praça pública

«Três pedreiros trabalham numa mesma obra no coração de uma cidade.
Uma pessoa que passava por lá pergunta o que estão a fazer.
‘Sou pedreiro, diz o primeiro, e por isso lapido pedras.’
‘Sou pedreiro, diz o segundo, por isso erijo muros.’
‘Sou pedreiro, diz o terceiro, edifico uma catedral.’



Para mim, que não tenho o talento de um construtor de catedral, nem pretendo ser um artista, a concepção de sites na Internet visa também a criação de um sítio belo e acolhedor para o visitante, porque o site é um lugar público…é a nova praça pública do século XXI e a Igreja necessita de construtores de catedrais virtuais, onde a fé possa ser retratada, contemplada, anunciada, debatida. A criação de um site para o grande público é uma obra de arte em si, onde se encontra ao mesmo tempo as linguagens da arquitectura, da pintura, da música, até do urbanismo. O webmaster diante do seu site não é somente um arquitecto, mas é semelhante a um pintor diante da tela. A tela é virtual mas a inspiração deve estar presente.

O internauta que visita um site cristão é como todos estes turistas que visitam a Europa e passam uma boa parte das suas férias a visitar catedrais, basílicas, igrejas, mosteiros, à procura de beleza, de história, de espiritualidade. Serão todos cristãos ou crentes? Longe disso. Serão transformados pela visita? Certamente que não. Mas através das pinturas, dos vitrais, dos mosaicos, a arquitectura, o espaço, a beleza, o silêncio, todos tocaram do mistério de uma linguagem que exprime ao mesmo tempo o inefável e o mistério do Deus uno e trino: Pai, Filho e Espírito Santo. Durante alguns minutos ou horas, estes visitantes se tornaram peregrinos do Infinito. Porque então uma tal peregrinação não seria possível na Internet? (…)

Para os irredutíveis cépticos, uma breve história para acabar.
É a história de um velho soldado que vivia na floresta.
Cansado da luta, saía de lá só para se abastecer, assaltando alguns caminhantes.
Um dia encontrou uma criança de olhar perturbador.
O velho soldado lhe oferece dez moedas dizendo:
‘Estas moedas são tuas se me disseres onde está Deus?’
A criança respondeu:
‘Toma lá cem. São tuas se me disseres onde Deus não está’.»


Fr. Yves Bériault, o.p

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O ícone do Pentecostes

A iconografia cristã oriental, mais de que uma simples ilustração, revela o sentido teológico das Sagradas Escrituras. O papel do ícone não é fazer um retrato de um acontecimento, mas transmitir, pela pintura, o ensinamento apostólico, e dar-lhe uma presença simbólica visual. Por isso, os símbolos usados podem não serem cronologicamente exactos, mas aprofundam a reflexão espiritual do tema representado. Como grande apreciador de arte-sacra oriental, desejo partilhar convosco como "é escrito" o ícone do Pentecostes (o vocabulário relativo à leitura e à escrita é muito usado para a iconografia bizantina).



O ícone da festa do Pentecostes é chamado: “A descida do Espírito Santo”.
O movimento do ícone vai de cima para baixo.
A cena acontece no Cenáculo, onde os discípulos se tinham refugiado após a Ascensão de Cristo.
No topo, a metade de um círculo azul: o céu, de onde alguns raios se dirigem sobre um grupo de 12 homens. Sobre a cabeça de cada um, umas línguas de fogo…o Espírito Santo desceu e está sobre eles.
Só alguns apóstolos, com Paulo, os evangelistas Marcos e Lucas, são representados sentados em meio círculo, 6 de cada lado, todos do mesmo tamanho, para mostrar a unidade da Igreja. Entre Pedro e Paul, os dois mais altos do grupo, um lugar vazio, o do Mestre: Cristo, Cabeça da Igreja, Pedra Angular.
Paulo, Marcos e Lucas não estavam presentes no dia do Pentecostes, mas aqui, o significado doutrinal sobrepõe-se ao histórico. Apóstolos e evangelistas têm uma missão: ensinar todos os povos.
Os 4 evangelistas seguram os livros dos Evangelhos, Paulo, os seus escritos, enquanto os outros agarram rolos que representam a autoridade de ensinar, recebida de Cristo.
No centro do grupo, mas na parte de baixo do ícone, um personagem real encerrado num lugar escuro, símbolo do Cosmos, dos povos do mundo envelhecido, que vive nas trevas e no pecado. No entanto, este homem segura nas mãos um lençol que contém 12 rolos: os ensinamentos dos apóstolos “que iluminaram o mundo com a Palavra, o Evangelho.”
Assim, no ícone do Pentecostes, “lemos” o cumprimento da promessa do Espírito Santo, enviado sobre os apóstolos que ensinarão as nações e baptizarão em nome da Trindade. Vemos também que a Igreja é congregada e sustentada pela presença e a obra do Espírito Santo, Espírito que conduz a Igreja no seu esforço missionário pelo mundo e a alimenta na verdade e no amor.

Rei celeste, Consolador, Espírito da Verdade,
presente em toda a parte e que tudo preenche,
tesouro de bens e dispensador da vida,
vinde e habitai em nós,
purificai-nos da impureza
e salvai as nossas almas,
Vós que sois bom.

Liturgia Bizantina

terça-feira, 23 de outubro de 2007

“Arregaçar as mangas”

A Agência Ecclesia publicou no seu site uma entrevista a Dom Carlos Azevedo, Secretário da Conferência Episcopal Portuguesa, que analisa as mudanças do catolicismo em Portugal antes da visita “Ad limina” dos bispos ao Vaticano.
Reconheço que aprecio muito este bispo pela sua maneira clara de comunicar o Evangelho e as suas ideias sobre a sociedade. Se o Senhor dá a cada um, carismas, talentos para render, D. Carlos tem claramente o de comunicar. Com ele, os Bispos do Porto e de Leiria-Fátima mostram um rosto mais luminoso, mais compreensível da doutrina da Igreja…talvez por eles aparecerem mais nos meios de comunicação social, mas mesmo assim, a postura, a linguagem e sobretudo as ideias destes bispos convidam a ouvi-los e a pensar no que dizem.
Transcrevo aqui uma passagem da entrevista, mas para lê-la em completo, clique aqui

Há ou não há reflexão sobre estas questões (a diminuição da prática dominical)?
Dom Carlos Azevedo
– «Houve reflexão, mas depois não existiu um conjunto de medidas eficazes e operacionais que atendessem a estes problemas. Podemos dizer que é inevitável - as pessoas têm outras prioridades - mas, daquilo que depende de nós, não se faz muito. As celebrações continuam a ter pouca beleza. Muitas vezes, as homilias são mal preparadas. A música litúrgica não aumenta de qualidade. As propostas de oferta de celebração não são as mais adequadas. Por outro lado, a formação de cristãos com sentido de vida comunitária também é escassa.
Quando se fazem actos relacionados com a religião individual - caso das procissões ou grandes festas - as pessoas aderem. Todavia, isto não significa nada do ponto de vista comunitário porque muitas vezes não passa de uma mera religião natural que tem pouco fundamento cristão e evangélico. Perante a leitura dos dados é fundamental “arregaçar as mangas” para formar cristãos.»

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Ícone da Ressurreição - Anastasis

Em 2007, os dois calendários seguidos pelas várias tradições cristãs coincidiram na data da Páscoa, assim, católicos, ortodoxos e protestantes celebraram no mesmo dia a Ressurreição de Cristo.
Na tradição oriental, o ícone da Ressurreição é representada pela descida aos infernos, à mansão dos mortos.
Ricos em símbolos, os ícones são “IMAGENS que visualizam a palavra bíblica e levam aos olhos o que a palavra transmite ao ouvido.”


O centro da composição é Cristo glorioso e luminoso.
Tendo arrombado as portas dos infernos, Cristo as esmaga e agarra o punho de Adão, que ele arranca com vigor das trevas da morte. Com Adão, é toda a humanidade que é arrancada por Cristo, que tomou a iniciativa da nossa salvação.
Ainda no primeiro plano, saindo do túmulo, Eva levanta as mãos cobertas pelo seu manto em sinal de reverência. Atrás dela, os justos e os profetas do Antigo Testamento.

À esquerda, os reis David e Salomão.
Perto deles, João Baptista, o precursor, aponta para Cristo.
Em cima de Cristo, os anjos, com as mãos cobertas em sinal de reverência, trazem a cruz e o cálice do sangue oferecido pela humanidade.
Ganchos, correntes rompidas jazem no buraco negro dos infernos cujo as altas encostas sublinham a profundeza e a distância com o céu.
No seu corpo transfigurado, Cristo escapa às leis do mundo, a gravidade da corrupção e da morte…Ele está suspenso no espaço. Vencedor da morte, Ele é transparência, abertura e comunhão.


Tendo descido ao túmulo, ó Imortal,
Tu destruíste o poderio dos infernos e,
levantaste-te como vencedor, ó Cristo Deus,
Tu, que disseste às mulheres atemorizadas: rejubilai!
E aos apóstolos, dás a paz,
Tu que ressuscitas aqueles que sucumbiram.

Liturgia ortodoxa