quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

A presença do Mal no mundo é um mistério

A presença do Mal no mundo é um mistério que não entendemos plenamente e ao qual nenhuma religião dá uma resposta completamente satisfatória.
No século XVIII, alguns filósofos afirmavam rigorosamente que: “Ou Deus não tem poder de impedir o Mal, e então não é todo-poderoso; ou então pode, mas, por sadismo não o faz, e por isso não é bom. Se Ele não é todo-poderoso, não é Deus, e se não é bom, pouco interessa, é melhor não acreditar n’Ele.”
O problema do Mal parece justificar o ateísmo.
No entanto, os cristãos sempre viram as coisas de outra maneira. O Deus em que acreditam não é indiferente, nem sádico, mas ama os homens, e é à luz dessa relação de Deus com eles que os cristãos tentam ler o enigma do Mal.
A Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja ajudam a entender melhor o mistério do Mal.
Se Deus é amor, isso implica que Ele nos criou livres. O amor sem liberdade é violação, é escravidão.
Deus é o primeiro a sofrer com o Mal e é inocente do Mal. Nunca o desejou e não o criou, mas deixou ao homem o tesouro da liberdade, da livre escolha e vontade. Tesouro que o homem desviou de Deus. Assim o pecado, com a morte e o sofrimento, pôde entrar no mundo.
Esta liberdade de acção, o ser humano pode orientá-lo para o bem como para o mal, para caminhos de vida que Deus aponta, ou para caminhos de morte.
Não é preciso ser doutor em teologia para distinguir duas formas de Mal: o Mal “culpável” e o Mal “inocente” (mortes e catástrofes naturais).
O Mal “culpável” é causado pelos homens. Genocídios, campos de concentração e guerras não são acidentes naturais. A responsabilidade do Mal "culpável" é do homem.
Se Deus abrisse os céus para preservar cada criança que morre por causa da guerra, onde estaria a liberdade dos assassinos?
Então, o Deus dos cristãos é um mero espectador lá do alto, a ver os homens a bulha?
Não, Ele desce desse alto!
Em Jesus Cristo, Deus vem à Terra viver como homem, no meio dos homens.
E se Ele partilhou os trabalhos, as refeições e as festas com eles, também como eles, padeceu no corpo e na alma, e morreu.
E porque na cruz, Jesus, por amor, tomou sobre Si todo o sofrimento, qualquer homem que sofre pode unir-se à paixão de Jesus. Todo o homem pode encontrar em Cristo a força de amar apesar de sofrer, tornando o sofrimento uma ligação misteriosa a Deus e ao próximo.
Estranha resposta de Deus ao problema do Mal…Em vez de explicar ao homem donde vem o Mal, Ele o vive. Em vez de tirar a “varinha mágica” de Deus omnipotente para tornar o mundo melhor, Ele se faz pequeno e humilha-se.
Assim, os cristãos afirmam que Deus não é insensível ao homem que sofre, mas, cheio de compaixão, vem tomar sobre Si o sofrimento. A participação divina às dores humanas é intemporal porque Deus abraça a eternidade num só presente. Por isso, Deus partilha ainda hoje todos os nossos sofrimentos, e podemos dizer que “Jesus está em agonia até ao fim do mundo” (Blaise Pascal).


Mas não podemos ficar no calvário…devemos ir até ao sepulcro vazio!
A ressurreição de Jesus ao terceiro dia é a grande vitória de Deus sobre o Mal, que Ele abraçou para triunfar dele, mergulhando nos abismos da morte para de lá sair.
Para os cristãos, a morte e ressurreição de Cristo são a prova que Deus toma sobre Ele o problema do Mal, que o combate e o vence misteriosamente. E porque Ele é infinitamente bom, Ele deseja associar todos os homens nesta vitória.
Os cristãos não podem, como também os outros homens, explicar o Mal, mas eles acreditam, muitas vezes sem bem entendê-lo, que a ressurreição de Jesus inaugura um novo tempo onde o Mal já foi vencido.


P.S: Este post, para não ser demasiado extenso, é um breve resumo de algumas leituras sobre o escândalo do Mal. Convido cada um a aprofundar o tema...

Ícone da "Descida de Jesus aos infernos"...Cristo Vencedor tira da morte Adão e Eva.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Onde estava Deus naqueles dias?

A alguns meses do fim da II Guerra Mundial, a 27 de Janeiro de 1945, perto de 7500 prisioneiros, pesando entre 23 e 35 kg, foram libertados pelo Exército Vermelho, do Campo de Concentração de Auschwitz-Birkenau (Polónia).
Estima-se que entre um milhão e um milhão e meio de pessoas morreram lá, na grande maioria judeus, mas muitos cristãos também sucumbiram em Auschwitz, principalmente padres polacos.
São Maximiliano Kolbe, um sacerdote que deu a sua vida afim de salvar a de um prisioneiro; Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), uma brilhante filósofa nascida na Alemanha, convertida do judaísmo ao catolicismo, que abraçou a vida religiosa no Carmelo, fazem parte das vítimas desta autêntica fábrica de morte da Alemanha Nazi.
Os homens não podem esquecer esta triste página da história da humanidade.

«Quantas perguntas surgem neste lugar! Sobressai sempre de novo a pergunta: Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal? (…)
Nós não podemos perscrutar o segredo de Deus, vemos apenas fragmentos e enganamo-nos se pretendemos eleger-nos juízes de Deus e da história. Não defendemos, nesse caso, o homem, mas contribuiremos apenas para a sua destruição. Não em definitiva, devemos elevar um grito humilde mas insistente a Deus: Desperta! Não te esqueças da tua criatura, o homem! (…)
Nós gritamos a Deus, para que impulsione os homens a arrepender-se, para que reconheçam que a violência não cria a paz, mas suscita apenas outra violência uma espiral de destruição, na qual todos no fim de contas só têm a perder. (…)
A humanidade atravessou em Auschwitz-Birkenau um "vale escuro".
Por isso desejo, precisamente neste lugar, concluir com a oração de confiança com um Salmo de Israel que é, ao mesmo tempo, uma oração da cristandade:
"O Senhor é o meu pastor: nada me falta.
Em verdes prados me fez descansar
e conduz-me às águas refrescantes.
Reconforta a minha alma
e guia-me por caminhos rectos,
por amor do seu nome.
Ainda que atravesse vales tenebrosos,
de nenhum mal terei medo
porque Tu estás comigo.
A tua vara e o teu cajado dão-me confiança...
habitarei na casa do Senhor para todo o sempre"
(Sl 23, 1-4.6)



Bento XVI, na visita ao Campo de Concentração de Auschwitz-Birkenau, 28/05/2006




Em Auschwitz, um soldado polaco, Stefan Jasienski, gravou uma imagem do Sagrado Coração de Jesus nas paredes de sua cela. Retratou-se a si próprio nesta gravura, olhando para o Coração trespassado de Cristo e com os braços à volta da cintura de Jesus. Provavelmente foi morto no acampamento.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Dois rostos de desejo ecuménico

Leopoldo Mandic nasceu na Dalmácia, actual Croácia, em 12 de Maio de 1866. Os pais, católicos fervorosos, deram-lhe o nome de Bogdan, que significa "dado por Deus". Desde pequeno apresentou como características a constituição física débil e o carácter forte e determinado.
Nessa época, a região da Dalmácia vivia um ambiente social e religioso, marcados por profundas divisões entre católicos e ortodoxos. Essa situação incomodava o espírito do pequeno Bogdan, que decidiu dedicar a sua vida à reconciliação dos cristãos orientais com Roma.
Aos 16 anos ingressou na Ordem de São Francisco de Assis, em Údine, Itália, adoptando o nome de Leopoldo. Foi ordenado sacerdote em Veneza em 1890.
Leopoldo foi destinado aos serviços pastorais nos conventos capuchinhos, por causa da saúde precária. Assim, com grande espírito de fé, iniciou o ministério do confessionário, onde este homem de pequena estatura (1m40) se tornou o "gigante do confessionário", exercendo até à sua morte.
Estabelecido na cidade de Pádua, famosa pelos restos mortais de Santo António (de Lisboa), Leopoldo dedicava quase doze horas por dia ao ministério da confissão. Sua fama espalhou-se e todos o solicitavam como confessor.
Todo o seu apostolado foi num cubículo de madeira, durante trinta e três anos seguidos, sem tirar um só dia de férias ou de descanso…tudo oferecido alegremente a Deus.
Frei Leopoldo Mandic morreu no dia 30 de Julho de 1942 em Pádua. O seu funeral provocou uma forte adesão popular e a fama de sua santidade se difundiu, sendo beatificado em 1976. O Papa João Paulo II o incluiu no catálogo dos santos, em 1983, declarando-o herói do confessionário e "apóstolo da unidade dos cristãos", um modelo para os que se dedicam ao ministério da reconciliação.



Maria Gabriella Sagheddu nasceu em Dorgali, na Sardenha, no ano de 1914 numa família de pastores.
Aos 21 anos decidiu consagrar-se a Deus e entrou no Mosteiro Cistercense de Grottaferrata, uma comunidade pobre, governada pela Madre M. Pia Gullini que tinha uma grande sensibilidade e um grande amor pela causa ecuménica.
Quando a Madre M. Pia, solicitada pelo Pe. Couturier, apóstolo do ecumenismo e impulsionador da Semana de oração pela Unidade, apresentou à comunidade o pedido de orações e de oferecimentos pela grande causa da Unidade dos Cristãos, a Irmã Maria Gabriella sentiu-se logo comprometida e chamada a oferecer a sua jovem vida."Sinto que o Senhor me pede", confessara à Abadessa. "Sinto-me chamada mesmo quando não o quero pensar."
Foi através de um caminho rápido e direito, entregue à obediência, consciente de sua fragilidade, e tendo como único desejo "a vontade de Deus e a Sua glória", que Gabriella alcançou aquela liberdade que a impelia a conformar-se a Jesus na sua Paixão. Oferecendo a Deus a sua doença (tuberculose) e após meses de sofrimento, foi na tarde do dia 23 de Abril de 1939, Domingo do Bom Pastor, no qual o evangelho proclamava:"Haverá um só rebanho e um só Pastor", que Gabriella morre.
Seu corpo, encontrado intacto quando foi feito o reconhecimento em 1957, repousa agora numa capela adjacente ao Mosteiro de Vitorchiano, para onde se transferiu a comunidade de Grottaferrata.
Foi beatificada por João Paulo II a 25 de Janeiro de 1987, quarenta e quatro anos depois da sua morte, na Basílica de São Paulo, no dia da Festa da Conversão do Apóstolo e da conclusão da Semana de Orações pela Unidade dos Cristãos.


São Leopoldo Mandic, Beata Maria Gabriella, rogai por nós!
Rogai para que haja um só rebanho e um só Pastor!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Bose

Há dias apresentava no blog o exemplo ecuménico do Mosteiro de Chevetogne na Bélgica.
Hoje, aponto outro belo exemplo de procura de unidade entre os cristãos, outra comunidade, situada no norte de Itália: a Comunidade Monástica de Bose.

Bose é uma comunidade monástica de homens e mulheres provenientes de igrejas cristãs diversas, que procuram Deus no celibato, na vida fraterna e na obediência ao Evangelho.
A comunidade nasceu a 8 de Dezembro de 1965, o mesmo dia em que se encerrou o Concílio Vaticano II, quando Enzo Bianchi decidiu viver sozinho numa casa alugada na pequena aldeia de Bose. Ainda estudante, Enzo Bianchi gostava reunir, num grupo de oração, cristãos de várias confissões, mas foi a partir de 1968, que as primeiras pessoas interessadas (católicas e protestantes) se juntaram a ele e ao seu desejo ecuménico, afim de levar uma vida comunitária; entre estes, uma mulher pastor da Reforma.
Hoje, a comunidade é composta de 80 irmãos e irmãs: vários protestantes, 5 sacerdotes e um reverendo. O seu prior é o fundador: Enzo Bianchi. Sem o procurar, e certamente com a graça do Espírito Santo, cristãos de várias tradições fizeram parte da comunidade desde o início. Dessa dádiva, houve um compromisso pela unidade dos cristãos, em fidelidade à palavra de Cristo: “Que todos sejam um”.
Assim, no desejo de unidade, os irmãos e irmãs de Bose vivem aspirando à simplicidade e ao essencial…uma vida cenobítica de oração e trabalho. Todos os membros da comunidade trabalham, ganhando o seu sustento com as próprias mãos, no pomar ou na horta, na cerâmica, na pintura de ícones (muito belos), na carpintaria, na tipografia ou na pesquisa bíblica e catequética.
Neste espírito monástico, a comunidade é também um lugar de acolhimento e de retiro para aqueles que procuram partilhar a oração e a vida da comunidade, ou de reflexão e de colóquios sobre os desafios e problemas do mundo e da Igreja.
Bose é mais um belo exemplo de “ecumenismo vivido”.

Site do Mosteiro de Bose



Fotos: O mosteiro de Bose e a comunidade em oração na igreja.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Que as nossas orações se somem a um século de orações

Vinde, Espírito Santo!
Enchei nossos corações com vossa graça!
Vinde, Espírito Santo!
Livrai-nos da dúvida e da desconfiança!
Vinde, Espírito Santo!
Dai-nos fé para avançar!
Vinde, Espírito Santo!
Mudai nossos corações de pedra !
Vinde, Espírito Santo!
Enviai a justiça de Deus ao nosso mundo!
Vinde, Espírito Santo!
Ajudai-nos a compreender que somos irmãos e irmãs!
Vinde, Espírito Santo!
Derrubai as barreiras entre nós!
Vinde, Espírito Santo!
Concedei-nos vossos dons para a partilha!
Vinde, Espírito Santo!
Intercedei por nós, ó Espírito do Pai; vós cujos suspiros inexprimíveis ultrapassam
nossas palavras!

Vinde, Espírito Santo!
Uni todos os cristãos em Cristo, Nosso Senhor!

Que possa haver um novo e contínuo Pentecostes.
Que as nossas Igrejas se comprometam novamente a orar para a plena unidade de todos os cristãos.
Que as nossas orações se somem a um século de orações, «afim de que todos sejam um».
Isto, nós pedimos por Jesus Cristo nosso Senhor, que vive e reina com o Pai e o Espírito Santo, um só Deus, pelos séculos dos séculos.
Amen.


Da celebração proposta
pelo oitavário de oração pela unidade dos cristãos 2008.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Ecumenismo vivido

A “Semana de oração pela unidade dos cristãos” é celebrada todos os anos, de 18 a 25 de Janeiro pelos cristãos das diversas confissões, por todo o mundo.
2008 é o 100º aniversário desta iniciativa.
O tema proposto para este ano é uma passagem da 1ª Carta aos Tessalonicenses: “Orai sem cessar!”
O objectivo da unidade dos cristãos, que é presença diária na minha oração, é uma oportunidade para falar de um lugar a meio caminho de Bruxelas e do Luxemburgo, retirado no campo, perto da serra das Ardennes belgas: um mosteiro beneditino internacional consagrado à unidade dos cristãos…o Mosteiro de Chevetogne.

Desde a sua fundação em 1925 por D. Lambert Beauduin (1873-1960), um pioneiro do ecumenismo na Igreja Católica, o Mosteiro de Chevetogne é vocacionada à oração, ao encontro e ao trabalho teológico para a unidade dos cristãos.
Os monges dividem-se em dois grupos litúrgicos. Um grupo celebra segundo a Tradição Ocidental, o outro segundo a Tradição do Oriente Bizantino.
Centro de oração, a comunidade deseja assim penetrar no mais profundo da alma cristã do Ocidente e do Oriente, para além das barreiras confessionais.
Lugar de encontro espiritual e intelectual, o mosteiro procura viver ao ritmo da Igreja do presente, aberta ao passado e à tradição, mas também às grandes questões actuais colocadas ao mundo cristão.
Assim, a sua vocação, incluída numa procura radical de Deus e num clima de oração constante, é de trabalhar para que todos os cristãos reencontrem juntos a plena comunhão, afim de testemunhar em comum a sua esperança, para que a sua mensagem seja escutada pelo mundo.
O Mosteiro de Chevetogne é um grande exemplo de “ecumenismo vivido”.

Site do Mosteiro de Chevretogne

O Mosteiro tem alguns CD's à venda na Internet e nas lojas...comprei um na Fnac.

Foto: Ábside da igreja latina de Chevetogne


terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Versus ad Orientem

Desde a nomeação de um novo cerimonário, Monsenhor Guido Marini, as celebrações em Roma têm cada vez mais elementos tradicionais litúrgicos pré-conciliares. Tronos, candelabros, crucifixos, paramentos de outros tempos voltaram nas celebrações papais. Atitudes, colocação dos celebrantes e acólitos também recordam um certo passado da Igreja.
No último domingo, na Missa da Solenidade do Baptismo do Senhor que ocorreu na Capela Sixtina, foi usado o altar encostado à parede do fundo do edifício. Por isso, o Santo Padre, que seguia o Missal de Paul VI (o actual), celebrou “em alguns momentos, de costas para os fiéis, com o olhar voltado para a Cruz, orientando assim a atitude e disposição de toda a assembleia”.
Algo de pouco habitual… e que não vai contra o Concílio Vaticano II, uma vez que os textos conciliares nunca fazem menção de altar voltado para o povo. Também a reforma litúrgica de Paulo VI não mudou a posição do sacerdote durante a Missa mas permitiu celebrar o Santo Sacrifício versus ad populum, virada para o povo.


Alguns analistas comentam esta escolha de Bento XVI como um desejo de mostrar que o Concílio Vaticano II e a Liturgia renovada não se inscrevem na ruptura mas na continuidade da Tradição litúrgica. Assim, para estes, a introdução de elementos da Missa Tridentina (que nunca foi revogada pelos Padres Conciliares) na Missa segundo o Missal de Paul VI, ajudariam a marcar melhor o carácter sagrado da Eucaristia e a evitar abusos nas celebrações, desejos e preocupações já referidos pelo Santo Padre na exortação apostólica “Sacramento da caridade”.
Missa de costas para o povo ou Missa versus ad Orientem, voltada para o Oriente?
Prefiro a segunda terminologia, pelo significado cristológico (Cristo =Oriente, Sol nascente).
Nos nossos dias, já não será bem assim por causa da construção das igrejas, cujo altar já não está obrigatoriamente dirigido para Leste.
Destas escolhas litúrgicas do Santo Padre, como o “Motu proprio” que liberaliza o Rito Tridentino, o mais difícil para mim é mesmo distanciá-los daqueles que defendem a superioridade da Missa de São Pio V, condenam Vaticano II e defendem o rosto de uma Igreja majestosa e poderosa. Por isso, ao princípio, fiquei um pouco perplexo com as mudanças papais, mas procurei aprofundar o tema e, realmente, não há nada de polémico, como fiéis de extremos (tradicionalistas e progressistas) o desejariam.
Mas a grande questão litúrgica é a beleza.
O Papa Bento XVI tem razão quando diz que a beleza litúrgica pressupõe arquitectura, textos e música de qualidade para exprimir a fé de uma comunidade… não para dar um espectáculo, mas para criar um clima de oração e transformar a vida.

Mas será para isso necessário ir buscar aos armários paramentos e atitudes de outro tempo, que não tem tanto a ver com a tradição litúrgica mas mais com estilos de época?


Ó Cristo,
Sol nascente do Oriente ,
conduz os fiéis da tua Igreja
à unidade da fé,
na celebração dos teus mistérios divinos.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Na água do Jordão


Na água do Jordão, João convida os que procuram a paz do coração a lavar as suas faltas. Ele convence aqueles que o procuram a fazer penitência. Ele usa uma linguagem bem rude para sublinhar que não é pêra doce chegar à conversão…há muito trabalho a fazer!
Mas eis que Jesus chega e se mistura com a multidão de pecadores para pedir o baptismo de João.
Ele não tem nenhum pecado para perdoar…Ele não tem necessidade deste processo de purificação. Mas ao entrar na água, Ele, inteiramente puro de pecado, sai de lá “portador” do pecado do mundo. Objectivo? Expiar o mal que existe em nós e no mundo. Jesus, por amor, mergulha assim no mais profundo da condição humana: o pecado e a miséria do homem.
Mas o baptismo cristão é exactamente o contrário. Ele mergulha cada um de nós no amor de Deus que é Pai, Filho, Espírito Santo. Ele nos introduz numa grande família que é a Igreja. Sinal da nossa adopção filial por Deus, somos nova criação e não novas criaturas. Permanecemos homens e mulheres mas participamos no mistério divino, pela graça que devemos confirmar sempre. Esta boa nova que dá sentido à nossa vida, não pode ser só nossa. O baptismo cristão é o ponto de partida de uma nova etapa; é um compromisso no seguimento de Cristo, um apelo à missão. É um presente de Deus, uma luz que deve ser comunicada por nós para iluminar o mundo inteiro.



«No baptismo do Jordão, Senhor,
manifestou-se a adoração da Trindade.
A voz do Pai deu testemunho
ao chamar-Te Filho Muito Amado,
e o Espírito, na forma de pomba,
confirmou esta palavra inabalável.
Cristo Deus,
que apareceste e iluminaste o mundo,
glória a Ti!
Vieste, apareceste, ó luz inacessível.»


Liturgia bizantina

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Que estrela podemos então seguir?

«Os homens e as mulheres de todas as gerações precisam ser orientados na sua peregrinação. Que estrela podemos então seguir?
Depois de pousar sobre “o lugar onde se encontrava o menino”(Mt 2, 9), a estrela que tinha guiado os Magos deixou a sua função, mas a luz espiritual está sempre presente na palavra do Evangelho, que ainda hoje é capaz de guiar cada homem a Jesus. Essa mesma palavra, que não é mais do que o reflexo de Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, é reenviada pela Igreja a toda a alma receptiva.
Também a Igreja, consequentemente, cumpre para a humanidade a missão da estrela.



Podemos dizer o mesmo de cada cristão, chamado a iluminar, pela palavra e o testemunho da sua vida, os passos dos irmãos.
É então importante que nós, cristãos, sejamos fiéis à nossa vocação!
Cada crente autêntico está sempre em caminho no próprio itinerário pessoal de fé e, ao mesmo tempo, com a luzinha que traz em si, ele pode e deve ajudar aquele que se encontra a seu lado, que talvez tem dificuldade em encontrar o caminho que conduz a Cristo.»


Bento XVI, Angelus 06/01/2008

domingo, 6 de janeiro de 2008

Epifania

«Entraram na casa,
viram o Menino com Maria, sua Mãe,
e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O.
Depois, abrindo os seus tesouros,
ofereceram-Lhe presentes:
ouro, incenso e mirra.»
Mt 2, 11


Vinde, adoremos!
Prostremo-nos diante de Cristo,
nosso Rei e nosso Deus.

Com os humildes e os sábios,
vimos adorar-te, divino Menino,
Rei de glória, luz que ilumina as nações!

A Ti, ofertamos as nossas vidas,
as nossas fraquezas,
as nossas limitações,
a nossa miséria.

A Ti, entregamos o melhor de nós,
dobrando o joelho diante da tua grandeza.

Não queremos recear de deixar as nossas seguranças,
as nossas certezas, o nosso bem-estar,
para seguir a Estrela
que nos levará sempre a Ti
no meio das noites.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Uma fase na minha fé, certamente…

Ultimamente, reconheço estar um pouco decepcionado com o rosto da Igreja.
Quando falo da Igreja, falo de todo o Povo de Deus, a hierarquia, os leigos, de mim.
Parece que os actos, as palavras, o testemunho da maioria dos cristãos não estão em sintonia com o Evangelho.
Parece que a luz brilha pouco em mim e nos outros…e gostava tanto vê-la cintilante em todos.
Uma fase na minha fé, certamente…



«Há várias religiões mas um só Evangelho.
Há uma enorme diferença entre a religião e o Evangelho.
A religião é obra do homem; o Evangelho é dom de Deus.
A religião é o que o homem faz para Deus; o Evangelho é o que Deus fez pelo homem.
A religião é o homem em busca de Deus; o Evangelho é Deus que procura o homem.
A religião consiste para o homem, subir a escada da própria justiça com a esperança de encontrar Deus no último degrau. Mas o Evangelho consiste para Deus, descer a escada pela Encarnação de Jesus Cristo, para nos encontrar, pecadores que somos, no degrau mais baixo. A religião é boa vontade; o Evangelho é boa nova.
A religião é “bons conselhos”; o Evangelho é gloriosa proclamação.
A religião deixa o homem tal como é; o Evangelho toma o homem tal como é mas faz dele o que ele deve ser.
A religião reforma o exterior; o Evangelho transforma o interior.
A religião branqueia em superfície; o Evangelho branqueia em profundidade.
Há muitas religiões mas um só Deus.
Há muitas religiões mas um só Evangelho.
Há muitas religiões mas uma só salvação.
A vossa fé é uma religião ou uma salvação?
Sois religiosos ou sois pessoas salvas?»



J.T. Seamands

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Veni Creator Spiritus

Pelo mundo fora existe maneiras diversas de celebrar a passagem de ano.
Na Igreja, apesar da grande maioria dos fiéis o desconhecer, dois hinos litúrgicos estão ligados ao princípio e ao final de cada ano, concedendo indulgência plenária nas condições ordinárias no canto público, e indulgência parcial na recitação privada. Estes dois hinos são o “Veni Creator Spiritus” e o “Te Deum”.
O ano passado, o meu blog tinha encerrado 2006 com o “Te Deum”, um longo hino de acção de graças, cantado em várias ocasiões litúrgicas, mas que a Igreja também entoa no 31 de Dezembro para agradecer a Deus os doze meses que passaram.
Neste 1 de Janeiro de 2008, coloco no meu blog o “Veni Creator Spiritus”, hino onde Espírito Santo é invocado pelo Povo de Deus para que seja derramado no mundo os seus dons e frutos ao longo dos dias do ano que se inicia.
Este último é um dos meus hinos gregoriano preferido, mas a sua tradução portuguesa no Catecismo é péssima…acho que até se enganaram no hino. Eis a versão latina...e a minha.






Veni, Creator Spíritus, mentes tuórum visita,
imple supérna grátia, quae tu creásti péctora.

Qui díceris Paráclitus, altíssimi donum Dei,
fons vivus, ignis, cáritas, et spiritális únctio.

Tu septifórmis múnere, dígitus paternae déxterae,
tu rite promíssum Patris, sermóne ditans gúttura.

Accénde lumen sénsibus; infunde amórem córdibus,
infírma nostri córporis virtúte firmans pérpeti.

Hostem repéllas lóngius, pacémque dones prótinus;
ductóre sic te praevio vitemus omne noxium.

Per te sciámus da Patrem, noscamus atque Filium;
teque utriúsque Spíritum credamus omni témpore.

Deo Patri sit glória, et Fillio, qui a mórtuis
surréxit, ac Paráclito, in saeculórum saecula. Amen.





Vinde Espírito Criador, visitai as almas vossas,
enchei da graça do alto, os corações que criastes.

Sois chamado Consolador, o dom de Deus Altíssimo,
fonte viva, fogo, caridade, e unção espiritual.

Sois formado de sete dons, o dedo da direita de Deus,
Solene promessa do Pai que inspira as palavras.

Iluminai os sentidos, infundi o amor nos corações,
fortalecei para sempre os nossos corpos enfermos.

Afastai o inimigo, dai-nos a paz sem demora,
e assim guiados por Vós, evitaremos todo o mal.

Fazei-nos conhecer o Pai, e revelai-nos o Filho,
para acreditar sempre em Vós, Espírito que de ambos procedeis.

Glória seja dada ao Pai, e ao Filho que da morte ressuscitou,
e ao Espírito Paráclito, pelos séculos dos séculos. Amen.



Bom 2008!